“Nenhum prompt vai te salvar” diz Adriano Lima sobre liderança na era da IA

“Nenhum prompt vai te salvar” diz Adriano Lima sobre liderança na era da IA

Adriano Lima começou a carreira como estagiário no fim dos anos 1980 e construiu uma trajetória de mais de três décadas em cargos de liderança em grandes empresas, como Itaú Unibanco, Unilever, Mastercard, Dasa, Neon e Minerva Foods.

Hoje, atua como coach executivo formado pela Universidade de Columbia, conselheiro certificado pelo IBGC, investidor e advisor de startups, além disso, tornou-se uma das vozes mais conhecidas do País quando o assunto é liderança, cultura corporativa e gestão de pessoas em tempos de transformação tecnológica, debate que ganha ainda mais espaço em meio ao avanço da inteligência artificial (IA) nas empresas.

“Na época da IA, a liderança vai ser cada vez mais sobre conexão, inspiração, desenvolvimento e empoderamento. Nenhum prompt vai te salvar para ser um bom líder”, afirma Adriano Lima.

O especialista será um dos destaques da programação do São Paulo Innovation Week (SPIW), festival de inovação, tecnologia e empreendedorismo promovido pelo Estadão em parceria com a Base Eventos. O encontro acontece entre os dias 13 e 15 de maio, em São Paulo, e deve reunir mais de 2 mil palestrantes em diferentes palcos espalhados entre a Arena Pacaembu e a Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). Assinantes do Estadão podem comprar ingressos com desconto: clique aqui para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes devem acessar este link.

Com trilhas voltadas para temas como tecnologia, negócios, impacto social e inovação, o SPIW terá debates sobre as mudanças provocadas pela IA no mercado de trabalho e nos modelos de liderança. Assinantes do Estadão têm acesso a descontos na compra do passaporte para os três dias de evento, enquanto o público geral também pode adquirir ingressos pela plataforma oficial do festival.

Além da atuação como executivo e conselheiro, Adriano também é colunista de veículos como Exame e InfoMoney e comanda o videocast “Gente que Pod”, em que entrevista empresários, executivos e empreendedores sobre carreira, gestão e desenvolvimento pessoal. Nas redes sociais, tornou-se um dos executivos de RH mais seguidos do LinkedIn e do Instagram no Brasil.

Na visão dele, o avanço da IA exige que empresas invistam ainda mais em habilidades humanas e desenvolvimento de lideranças. “A liderança não é uma posição e nem personalidade. Liderar é um conjunto de habilidades que podem ser aprendidas e desenvolvidas. As hard skills a gente aprende mais fácil. As soft skills, que têm relação com comportamento, conexão e confiança, são as mais difíceis e serão ainda mais importantes daqui para frente”, diz.

Leia os principais trechos da entrevista com Adriano.

Qual é a maior lição de liderança que você traz até hoje?

É a humildade e acreditar que a gente tem que aprender todos os dias. E essa questão de liderança mudou muito.

Eu era atleta de basquete e de voleibol. O time de voleibol da minha cidade jogava muito mal, e eu era o melhor. Já o time de basquete era muito bom. A gente ganhava todos os jogos, todos os títulos. Então, para mim, aquilo me preenchia muito. Eu era um jovem introvertido, mas ali na quadra aquilo me preenchia, era minha paixão.

Até que um dia o treinador me chamou e me deu uma última chance. E ali eu comecei a entender muita coisa.

O que estou contando nessa história? Eu tinha 16 anos e meu comportamento mudou comigo. Primeiro, porque eu me senti responsabilizado. Ele, que era o grande líder, o treinador, me respeitou, me criticou, me deu uma oportunidade e me desafiou. Depois, me apoiou. E eu virei capitão. Ele me chama até hoje de capitão. Os amigos se encontram na minha cidade e lembram disso.

Quando eu me transformei em gerente de RH, com 25 anos de idade, aquela história do capitão de basquete voltou para mim. E aí eu entendi que eu precisava ser exemplo. Precisava ter responsabilidade.

Por muitos anos eu falei: não é sobre ser perfeito, é sobre ser exemplo. Hoje, eu faço muitas palestras sobre liderança, estou escrevendo um livro sobre liderança, e o que eu falo é que não é só sobre ser exemplo. É sobre ser humano.

Na época da inteligência artificial, essa vai ser uma grande mensagem que eu tenho que levar: que a liderança seja cada vez mais de conexão, inspiração, desenvolvimento e empreendedorismo.

Qual o principal desafio de liderança hoje?

O principal desafio hoje em dia é ser original na era da IA. Liderança nada artificial. Inclusive, esse é o nome do meu novo livro. Eu tenho provocado isso: não importa a inteligência artificial, ela vai desnudar bons e maus gestores. E nenhum prompt vai te salvar para você ser um bom líder.

Há uma confusão porque todo mundo acha que liderar é um dom, algo com que a pessoa nasce. Mas liderança não é posição e nem personalidade. Liderar é um conjunto de habilidades que podem ser aprendidas e desenvolvidas. E essa é a boa notícia.

Como a inovação digital e as tecnologias impactaram as práticas de customer service e gestão de talentos?

A experiência do cliente é algo que eu trabalhei bastante na Neon e na Dasa.

Eu faço um paralelo com a experiência do colaborador. Toda essa parte de digitalização e acesso ao cliente precisa ser muito bem desenhada. As tecnologias vieram para aumentar a oportunidade de desenhar experiências melhores e mais produtivas.

Mas sabe o que eu mais aprendi? Os problemas geralmente acontecem por três fatores: pessoas, processos ou tecnologia. As frustrações e insatisfações acontecem nessas três dimensões. Mas o encantamento geralmente acontece através de uma pessoa.

Quando existe um problema e um humano vai lá e resolve bem, o cliente leva consigo a solução, e não o problema. Muitas vezes ele se torna um cliente fiel justamente porque a empresa resolveu muito bem a situação.

Qual a importância da cultura organizacional?

Eu sempre falo: não é a empresa que é forte ou fraca. É a cultura que é forte ou fraca. A cultura é o elemento central de qualquer empresa.

Tem uma frase atribuída ao Peter Drucker que diz: “A cultura come a estratégia no café da manhã”. Porque toda empresa tem uma estratégia. A estratégia é o “o quê”, a cultura é o “como”. A cultura sustenta no tempo os resultados.

E eu criei uma frase: “A falta de liderança destrói a cultura e a estratégia juntas”. Porque gestores apenas comunicam a estratégia. Líderes fazem as pessoas quererem executar a estratégia.

Qual conselho você daria para startups crescerem rápido sem perder uma cultura forte?

Contratar alguém especialista em cultura.
E aqui eu não posso dar meu cartão de visita, mas existem vários profissionais bons. Foi o que aconteceu comigo na Neon.

Quando eu fui chamado para a Neon, ela tinha 50 funcionários. E o fundador compartilhou comigo: “Quando éramos cinco, dez, quinze pessoas, eu conhecia todo mundo. A gente trabalhava junto, pedia pizza, estava todo mundo perto. Agora estamos crescendo e eu estou começando a perder a mão.” Ele falou: “A gente está perdendo cultura”.

Inicialmente me chamaram para ser coach do fundador. Depois ele falou: “Você não quer virar sócio e cuidar da área de pessoas e cultura?”. E foi um projeto maravilhoso. Aí começamos a desenvolver um trabalho estruturado, com método, execução e acompanhamento.

O grande desafio era que a empresa estava começando a perder alegria, perder informalidade. Só que ao mesmo tempo ela estava virando uma empresa regulamentada pelo Banco Central. Então precisava ter mais responsabilidade, mais compliance. E aí veio uma sacada muito boa.

O primeiro valor que escrevemos foi: “Somos divertidos e responsáveis.” Porque a parte divertida não é o oposto de responsabilidade. O oposto de divertido é ser chato. Você pode ser sério e responsável sem perder leveza. Então a gente trabalhou muito isso.

Hoje ficou na moda falar de cultura. Mas cultura não é achismo. Não é escrever frases bonitas na parede. Tem método, teoria, experiência. Eu participei da cultura da Mastercard Brasil, da fusão Itaú-Unibanco, da reconstrução cultural da Dasa, da internacionalização da Minerva Foods.

Então eu sempre faço esse apelo: cultura precisa de especialista. Não é improviso.

Como você vê a IA transformando a área de RH, que é uma área muito pessoal, para uma área verdadeiramente estratégica?

Eu não gosto desse termo “RH estratégico”, e aí os RHs até ficam bravos comigo, às vezes. Eu falo assim: quem tem estratégia é a empresa. Porque quando você fala “RH estratégico”, é cheio de RH com planejamento estratégico que não está alinhado ao negócio da empresa.

Então, quem tem estratégia, quem tem planejamento estratégico, é a empresa. O RH precisa ter iniciativas para viabilizar o planejamento estratégico da empresa.

E uma das iniciativas hoje mais relevantes, mais importantes, é entender como a inteligência artificial, dependendo da indústria em que você está, do modelo de negócio, da estratégia, vai ser mais ou menos relevante.

O RH precisa liderar essa discussão. Precisa liderar também essa escolha estratégica relativa à inteligência artificial e como ele vai ajudar a empresa a se preparar.

Porque a implementação da IA vai passar por change management, vai passar por transformação, vai passar por mudança cultural, vai passar por preparação dos gestores, preparação da força de trabalho, uma série de situações que vão aparecer.

Algumas atividades vão acabar. Outras vão surgir. Outras vão se transformar. Então, como eu transformo essas atividades para que as pessoas estejam preparadas para isso que vai funcionar? Isso vai ser um papel importante para o RH.

Mas eu também faço um alerta: a gente está falando muito de inteligência artificial no RH, e a gente não passou de fase ainda na inteligência emocional. É outro tema.

Sabe videogame? Eu joguei muito Sonic com meus filhos. E o Sonic tinha aquela paradinha de passar de fase. E eu provoco hoje o RH para isso: a gente não passou de fase ainda na inteligência emocional.

Não dá para falar só de inteligência artificial. Porque ela vai exigir muito da inteligência emocional. E aí eu venho provocando também a inteligência social. Inteligência emocional é você estar bem com você mesmo. Inteligência social é você estar bem na relação com o outro.

Então o RH ainda tem muito trabalho para fazer nisso também.

Claro que a inteligência artificial invadiu nossas empresas, nossas casas, nossas vidas, nossos smartphones. Mas a gente precisa refletir.

Eu tenho visto estudos sobre essa geração mais jovem. É a primeira vez na história que uma geração talvez não seja cognitivamente superior à anterior. E já atribuem isso à inteligência artificial.

Porque eu não preciso mais pensar. Eu posso perguntar para ela. E aí surgiu outra pesquisa que aprofunda mais ainda esse problema. Não é só não pensar. É não pensar e não questionar.

Uma coisa que eu adoro fazer: eu interajo muito com a inteligência artificial para pesquisas, artigos, palestras. Eu questiono. Eu discordo. Eu falo “não concordo”.

Só que muitos jovens dão para a inteligência artificial um nível de soberania tão grande que não questionam mais.

Então não é só deixar de pensar. É deixar de pensar e deixar de questionar. Então a gente ainda tem muito para evoluir.

Quais tendências de tecnologia e inovação você acredita que vão definir o futuro do trabalho e da liderança nos próximos 10 anos?

Com certeza a inteligência artificial é a mais impactante. E veio para revolucionar muito.

Eu comparo com a Revolução Industrial. Foi a única revolução que eu não peguei. Eu vou fazer 60 anos, me cuido muito, mas a Revolução Industrial eu não peguei.

Mas eu peguei a entrada dos computadores nas empresas, peguei a entrada da internet, peguei a entrada dos smartphones. E estou pegando agora a entrada da inteligência artificial.

Tudo que eu tenho estudado sobre inteligência artificial é comparável à Revolução Industrial. Então, obviamente, toda a parte de IA e suas derivadas vão impactar muito.

Mas não só isso. Tem tantas outras tecnologias. Tem os drones, que vão impactar muito. Tem a impressão 3D, eu já tenho em casa. Já imprime de tudo. Só falta imprimir comida.

Tem também toda a parte de genética e longevidade. Isso vai impactar demais.

Você já vê pessoas falando sobre singularidade. Em 1997, quando eu cheguei em algumas discussões, falavam sobre “a morte da morte”. Que não vai mais existir morte natural. Só morte acidental. Porque as doenças vão ser combatidas.

Então, tem muitas tecnologias por aí. E a gente precisa se preparar para elas. E eu sempre falo isso: “A IA vai roubar meu emprego?”. Talvez.

Mas você quer continuar competitivo? Então estude. Se prepare. Porque a IA pode roubar empregos.

O que eu estou lendo hoje é: não é a inteligência artificial que vai substituir você. É uma pessoa que sabe usar inteligência artificial que pode substituir quem não sabe. Então é não temer.

É difícil? É. Mas tem que enfrentar o teste. Tem que aprender. Esse é o caminho.