Os quatro clichês da inovação

Os quatro clichês da inovação

Como jornalista especializado em inovação e fundador de uma agência de comunicação que já atendeu mais de uma centena de startups e empresas de tecnologia, acompanhei de perto histórias brilhantes, negócios transformadores e empreendedores que realmente mudaram mercados. Mas também vi muita coisa dar errado.

Ao longo dos anos, percebi que os erros raramente são tecnológicos. Na maioria das vezes, os tropeços acontecem porque os empreendedores acabam acreditando em alguns clichês que se repetem geração após geração. O curioso é que esses clichês mudam de roupa, mudam de tempo, mas continuam os mesmos, seja na era internet, das startups, do blockchain, do metaverso e, agora, da inteligência artificial.

Aqui estão os quatro maiores clichês da inovação que encontrei ao longo da minha trajetória:

1. Confundir novidade com inovação

Talvez esse seja o erro mais comum de todos. Existe uma crença quase automática de que algo novo é necessariamente inovador. Não é. O mundo está cheio de novidades irrelevantes. Inovação não é fazer algo diferente, é gerar valor real a partir de onde não se gerava antes. 

A história dos negócios está repleta de produtos tecnicamente impressionantes que fracassaram porque resolviam problemas que ninguém tinha. O empreendedor se apaixona pela tecnologia, mas esquece de verificar se existe uma dor real do outro lado. O consumidor, por sua vez, não compra inovação, ele compra soluções.

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Pouco importa se seu produto utiliza inteligência artificial, blockchain, computação quântica ou qualquer outra tecnologia da moda. Se ele não resolver um problema concreto, continuará sendo apenas uma curiosidade tecnológica. A inovação de verdade acontece quando a novidade encontra utilidade.

2. A síndrome do “ninguém me entende”

Todo ecossistema de inovação conhece alguém assim. É o empreendedor que acredita ter criado algo tão revolucionário que ninguém consegue compreender. Quando investidores não investem, o mercado não compra e os clientes não aderem, a conclusão é sempre a mesma: “eles não entenderam.” 

Mas existe uma possibilidade que raramente é considerada: talvez o mercado tenha entendido perfeitamente, e simplesmente não tenha gostado, talvez a proposta ainda não esteja madura, o problema não seja relevante ou então a solução não seja tão boa quanto o fundador imagina. Isso não significa que toda ideia rejeitada esteja errada. A história mostra vários exemplos de inovações que foram inicialmente incompreendidas. Mas existe uma diferença importante entre estar à frente do seu tempo e estar desconectado da realidade.

3. A crença de que “ninguém nunca pensou nisso antes”

Perdi a conta de quantas vezes ouvi as frases: “Tenho uma ideia inédita” e “ninguém está fazendo isso”. Na maioria das vezes, a ideia não era inédita e tinham outras pessoas fazendo. Vivemos em um mundo com bilhões de pessoas, milhares de universidades, milhões de empreendedores e uma quantidade quase infinita de tentativas acontecendo simultaneamente. As chances de alguém nunca ter pensado em determinada ideia são muito menores do que imaginamos. 

O Uber não inventou o transporte individual, o Airbnb não inventou hospedagem, o iFood não inventou a entrega. A inovação quase sempre acontece na execução, no modelo de negócio, na experiência do usuário ou no timing. A obsessão por ser o primeiro frequentemente faz os empreendedores ignorarem uma etapa fundamental: estudar quem tentou antes e por que falhou. Às vezes, a melhor fonte de aprendizado está justamente nos projetos que não deram certo.

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4. Pegar carona em todo hype do momento

O ecossistema de inovação tem memória curta. A cada poucos anos surge uma nova onda prometendo transformar tudo. Já vimos isso com as startups, com as criptomoedas, NFTs, metaverso e, agora, estamos vivendo a era da inteligência artificial. E vale deixar claro: todas essas tecnologias possuem aplicações reais e impactos concretos, duradouros e disruptivos. 

O problema não está na tecnologia, mas sim na histeria coletiva que costuma acompanhá-la e na apropriação que malandros fazem do tema da moda. Tão simples quanto isso.  Em cada ciclo surgem empresas que utilizam a tecnologia porque ela resolve um problema. E surgem outras que apenas colocam o tema no pitch para simularem percepção de modernidade. Bem, tenho uma novidade: nenhum hype substitui geração de valor real.