Três mudanças acontecem quando o escritório passa a ser visto como produto

Três mudanças acontecem quando o escritório passa a ser visto como produto

Um dos dados mais consistentes do debate global sobre o futuro do trabalho vem se repetindo em diferentes pesquisas recentes: o escritório não deixou de ser relevante, ele deixou de ser automaticamente avaliado como eficiente.

Segundo o CBRE Global Workplace Survey, uma das maiores pesquisas globais sobre ocupação e estratégia de espaços corporativos, empresas em diferentes mercados estão reavaliando profundamente o papel do escritório físico dentro da sua estratégia operacional. O movimento não é de abandono, mas de reconfiguração: o espaço deixa de ser um ativo fixo e passa a ser uma variável de performance. E isso muda tudo.

Durante décadas, o escritório foi um custo inevitável. Cada colaborador tinha uma mesa para chamar de sua e, muitas vezes, transformava essa mesa em uma extensão da sua casa, com foto do cachorro e uma miniatura de seu personagem favorito de Star Wars. Ou seja, o escritório pré-pandemia era um centro de gravidade corporativo baseado em presença. Hoje, quando olhamos com mais precisão para os números — ocupação real, uso efetivo, padrões de deslocamento, picos de demanda — a pergunta deixa de ser “quanto custa o escritório?” e passa a ser outra, mais incômoda: quanto o escritório está retornando para o negócio?

escritórioempresa2.jpg

Erica Prata, sócia da AKMX, traduz esse ponto com clareza ao destrinchar o custo do metro quadrado em um escritório de alto padrão em São Paulo. Quando se soma aluguel, condomínio, IPTU, energia, limpeza, segurança, TI, mobiliário, gestão e o custo invisível da ociosidade, o valor chega facilmente a algo próximo de R$ 465/m²/mês. Em um escritório de 1.000 m², isso significa mais de R$ 5,5 milhões por ano.

A pergunta inevitável é: estamos tratando um ativo dessa magnitude como infraestrutura estratégica — ou apenas como tradição corporativa? É aqui que nasce uma mudança estrutural: o escritório como produto. E isso não é metáfora estética. É uma nova lógica operacional. Um produto tem uso, métrica, ciclo de vida, taxa de utilização, jornada do usuário e, principalmente, possibilidade de otimização contínua. O escritório começa a entrar nessa mesma categoria.

Quando a ocupação pode ser medida em tempo real, quando fluxos de presença são previsíveis, quando a demanda por espaços varia por time, projeto ou dia da semana, o espaço físico deixa de ser estático e passa a se comportar como um sistema dinâmico, portanto, gerenciável.

escritórioempresa3.jpg

O problema é que boa parte das empresas ainda opera escritórios como se fossem imóveis e não plataformas. Essa diferença é central. Imóveis são pensados para estabilidade. Plataformas são pensadas para uso. E uso exige dado.

A partir do momento em que o escritório passa a ser visto como produto, três mudanças acontecem ao mesmo tempo: o custo deixa de ser fixo na percepção da liderança, a ocupação deixa de ser uma métrica passiva e a experiência do colaborador passa a ser um indicador de eficiência, não apenas de clima organizacional.

Essa transição também está conectada a um segundo movimento, mais comportamental. Pesquisas recentes sobre trabalho híbrido mostram uma reorganização de expectativas entre gerações — especialmente entre profissionais mais jovens. Há uma crescente rejeição ao modelo 100% remoto quando ele reduz interação, aprendizado informal e construção de rede interna. O escritório, nesse cenário, volta a ser valorizado não como obrigação, mas como infraestrutura de conexão.

escritoempresa5.jpg

Mas isso só funciona quando o espaço faz sentido. Um escritório vazio não é neutro. Ele é caro e improdutivo. Por isso, a discussão não é mais presença versus ausência. É eficiência versus desperdício. E eficiência, no mundo físico, é inseparável de mensuração.