TVs Box Android são transformadas em império de fraude de anúncios com IA

TVs Box Android são transformadas em império de fraude de anúncios com IA

Uma investigação conduzida pelos pesquisadores em segurança da empresa Bitsight revelou a existência de um esquema sofisticado de fraude publicitária e desvio de tráfego: a “Operação Fuyao”. A operação utiliza TVs Box Android baratas para reescrever a identidade de hardware dos aparelhos. Assim, os equipamentos passam a imitar smartphones populares de marcas como Samsung, Huawei, Xiaomi e Vivo e encobrem a natureza real dos dispositivos para inflar o valor cobrado por cliques em anúncios digitais. Muitos desses equipamentos, inclusive, são vendidos com aplicativos maliciosos pré-instalados já de fábrica. 

O esquema opera sob uma estratégia de monetização dupla identificada pelos especialistas da Bitsight. Quando a TV Box detecta um cabo HDMI conectado, o sistema passa a retransmitir o tráfego de rede de terceiros a partir da linha de banda larga residencial do proprietário. Em outras palavras, isso transforma a conexão em um túnel de acesso sem o consentimento dos usuários. Ao ter o cabo HDMI desconectado, o aparelho entra no modo de fraude de cliques e interage de forma automatizada com milhares de sites gerados por inteligência artificial (IA).

Visão computacional e blocos de programação infantil

Para evitar a detecção por algoritmos de segurança de redes de anúncios, os operadores equiparam os aplicativos com recursos avançados de automação e percepção visual.

Pesquisador de ameaças da Bitsight, Pedro Falé destacou no relatório que a operação “funde três sistemas de visão e raciocínio em uma única interface” ao integrar dados de acessibilidade do sistema, um modelo avançado de IA voltado para a identificação de elementos visuais na tela e ferramentas de reconhecimento óptico de caracteres para permitir que os robôs localizem e cliquem em anúncios de maneira semelhante a um ser humano.

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Ecossistema de apps da Fuyao (Reprodução/Bitsight)

Outro aspecto incomum da arquitetura do botnet é o uso do Blockly: uma linguagem de programação visual desenvolvida pelo Google e comumente voltada para o ensino de computação para crianças. Os desenvolvedores utilizaram um editor personalizado baseado na ferramenta para que operadores com menor conhecimento técnico pudessem arrastar blocos visuais e montar a lógica das campanhas de fraude. Esses fluxos são exportados automaticamente como códigos JavaScript e distribuídos para os dispositivos infectados.

“A Fuyao se afasta do modus operandi tradicional e de baixo esforço de fraudes publicitárias. De fato, uma empresa inteira foi criada e é dedicada exclusivamente a construir um produto que conduz essa atividade fraudulenta”, destacaram os pesquisadores da Bitsight.

Cadeia financeira e atribuição na China

A infraestrutura mapeada pela Bitsight revelou que o esquema movimenta valores expressivos. Com estimativas conservadoras de interações diárias por aparelho, os ganhos potenciais da rede de bots em uma frota de dezenas de milhares de dispositivos ativos poderiam alcançar cerca de 40 milhões de dólares anualmente.

A coleta de receita era canalizada por meio de contas de editores cadastradas em redes como Google AdSense e Taboola, utilizando empresas de fachada e identidades em Hong Kong e Cingapura.

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Uma frota distribuída globalmente alimenta cliques e impressões de anúncios por meio de contas de editores registradas (Reprodução/Bitsight)

Após rastrear a infraestrutura de servidores, certificados digitais e patentes industriais, a Bitsight atribuiu a operação à empresa chinesa Zhejiang Fengwo IoT Technology Co., Ltd., vinculada ao Grupo Fengwo e fundada na China continental em 2019. Registros de patentes da companhia mostram tecnologias voltadas ao monitoramento de telas na nuvem e rastreamento de fluxos de comportamento digital, alinhando-se aos componentes técnicos identificados nos aplicativos maliciosos da rede Fuyao.

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