Um vírus bancário criado no Brasil em 2019 continua em circulação ativa e figura, atualmente, entre as principais ameaças cibernéticas a organizações em Portugal. Conhecido como “Lampion”, em referência às luminárias de papel japonesas, o malware utiliza a semelhança do idioma e a facilidade de personificação para enganar funcionários e invadir sistemas corporativos no país europeu.
Em relatório técnico, a unidade de pesquisa de ameaças da empresa Acronis revelou que 94,6% das detecções recentes do Lampion concentraram-se em Portugal. O número coincide com um marco histórico apurado pela consultoria de risco Marsh Risk: em 2026, pela primeira vez em 12 anos de levantamento, os ataques cibernéticos assumiram o topo da lista de maiores riscos para empresas no país europeu, superando a instabilidade política e social.
Isca conhecida, novos disfarces
A estratégia do ataque mudou ligeiramente no perfil das iscas, porém manteve a lógica central. Entre 2019 e 2025, os golpistas enviavam e-mails falsos em nome da Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) de Portugal sobre alegações de pendências fiscais. As recorrentes fraudes levaram o Fisco português a publicar alertas oficiais para reforçar que a instituição não envia links nem ficheiros anexos por e-mail.

Nas campanhas mais recentes, os criminosos adaptaram o discurso e passaram a simular empresas do setor privado, como agências de documentação automóvel. Nestas abordagens, eles enviam falsos recibos eletrônicos compostos por logotipos reais, assinaturas e notas de confidencialidade.
Ao abrir o arquivo compactado (.zip) anexo, a vítima aciona uma página que imita o portal português SAPO e instala scripts em segundo plano. Na etapa final, o sistema baixa um arquivo infectado de quase 750 MB, tamanho inflado artificialmente com dados sem função operacional para burlar o escaneamento de antivírus.
O programa executa uma função batizada pelos criadores como “jangadeiro” e sobrepõe telas falsas em sites de bancos para capturar credenciais de acesso dos clientes. O termo que faz referência aos pescadores artesanais do Nordeste brasileiro e serve como assinatura cultural do grupo
A fronteira como proteção para o criminoso
A escolha de Portugal como alvo prioritário atende a duas razões estratégicas do ecossistema de cibercrime brasileiro: a facilidade linguística, que elimina barreiras de adaptação no texto dos e-mails de phishing; e a proteção geográfica e jurisdicional.

Em entrevista à publicação especializada Dark Reading, o líder de pesquisa de inteligência de ameaças da Acronis, Santiago Pontrioli, explicou que grupos criminosos baseados no Brasil preferem atacar vítimas no exterior para dificultar a atuação das forças policiais locais.
“Eles têm um ecossistema criminal muito grande no Brasil, mas costumam focar em alvos fora do país por causa da aplicação da lei. Primeiro, eles miram países com o mesmo idioma, como Portugal e Angola, e depois os de língua espanhola. Fazem isso fora do Brasil porque fica mais difícil para a polícia agir, já que é preciso envolver a Interpol, e a burocracia entre agências atrasa a derrubada das redes”, explicou o especialista.
Para Jozsef Gegeny, pesquisador sênior da Acronis e um dos autores do relatório técnico sobre a campanha, a longevidade do Lampion demonstra que modelos de ataque não precisam de inovações constantes para funcionar.
"Se essas técnicas continuam a gerar retorno, há pouca motivação para reformular o sistema do zero", afirmou Gegeny. "A longevidade do Lampion mostra que alguns modelos de ataque são incrivelmente resilientes e não precisam de uma inovação revolucionária para ter sucesso. Basta se adaptarem aos poucos ao ambiente dos alvos”, completou.
Por falar em malwares perigosos, o vírus ACR Stealer também entrou no radar de grandes empresas de tecnologia. A Microsoft identificou um aumento expressivo nos ataques que utilizam este programa malicioso, que atua de forma silenciosa. Siga o TecMundo no X, Instagram, Facebook e YouTube e assine a nossa newsletter para receber as principais notícias e análises diretamente no seu e-mail.