Yooga aposta em IA para fotos de delivery e acende alerta sobre propaganda enganosa

Yooga aposta em IA para fotos de delivery e acende alerta sobre propaganda enganosa

A startup capixaba Yooga, especializada em sistemas de gestão e ponto de venda para restaurantes, bares e negócios de alimentação, passou a oferecer ferramentas de inteligência artificial (IA) capazes de gerar e aprimorar imagens de pratos utilizados em aplicativos de delivery. A iniciativa, apresentada pelo COO da empresa, Vitor Sortica, durante visita técnica realizada em Vitória-ES na semana do ESX Innovation Experience, a convite do Sebrae, ocorre em meio ao crescimento do uso de imagens produzidas por IA no setor e reacende discussões sobre transparência, defesa do consumidor e responsabilidade das plataformas.

Fundada em Vitória, a Yooga reúne em uma única plataforma funções como frente de caixa, controle de estoque, gestão financeira, integração com aplicativos de delivery, cardápio digital, programas de fidelidade e ferramentas de marketing. A empresa atende principalmente restaurantes, bares, lanchonetes e sorveterias que operam simultaneamente no salão e no delivery, perfil que concentra boa parte de sua base de clientes.

Com cerca de 7 mil restaurantes na base de clientes, a empresa afirma que a tecnologia pode ajudar pequenos empreendedores a competir visualmente com grandes redes. O sistema permite que os usuários enviem fotografias próprias para serem aprimoradas pela IA ou utilizem um banco de imagens disponível na plataforma para ilustrar cardápios.

Durante a apresentação, Sortica defendeu o uso da tecnologia como ferramenta de apoio aos estabelecimentos. “Foto vende. Então, o restaurante quer colocar uma foto mais bonita do prato dele. Do lado do restaurante, eu sou favorável que tenha um cardápio mais bonito”, afirmou.

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Segundo ele, o objetivo é reduzir a desigualdade histórica entre pequenos negócios e grandes redes de alimentação. “O dono do restaurante tem uma ferramenta que dá acesso para ele ter uma foto tão boa quanto o Outback tem. Porque, no Outback, por exemplo, é a mesma coisa. A foto é bonita e o lanche não necessariamente é tão bonito”.

O tema ganhou relevância nos últimos anos com a popularização de ferramentas de IA generativa. Em reportagem publicada anteriormente pelo Estadão, foi mostrado como imagens hiper-realistas criadas por plataformas como ChatGPT e Gemini passaram a ocupar espaço em cardápios digitais, gerando reclamações de consumidores que recebiam produtos muito diferentes daqueles apresentados nos aplicativos.

Entre a vitrine digital e a expectativa do consumidor

Na avaliação de Sortica, o uso da tecnologia pode ser positivo desde que o produto entregue corresponda à expectativa criada. "Se você ajuda o cara a ter uma foto legal, ele tem um cardápio bonito no app de delivery e vende mais, eu acho que isso é bom. Só que, do outro lado, você só compra de novo se o lanche for bom. Se for bom, eu acho que eu estou ajudando esse cara. Se for ruim, aí não é minha culpa que ele fez um lanche ruim".

O executivo afirmou que a plataforma possui algumas limitações para evitar usos indevidos. "O nosso sistema gera algumas imagens automáticas, mas a gente tem algumas travas, principalmente pra não ter imagem de coisa ilícita, de coisa errada e tal. Então, o nosso sistema se baseia em um padrão de imagem que a gente já tem e só melhora a foto do alimento”.

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Ao mesmo tempo, reconheceu que a ferramenta pode ser utilizada para ilustrar produtos que ainda não possuem imagens próprias. “Nós temos um banco de imagens para o restaurante. Ele pode escolher e usar uma imagem de lá ou pode pôr a foto dele, e, usando IA, é possível aprimorar direto na nossa plataforma”.

restaurantes do iFood q coloca foto de comida de IA ou valor q não condiz com as condições da comida, mana vc é sem noção?

— 🤠 (@userr9827) June 23, 2026

movimento parem ja de divulgar seus produtos artesanais com foto de IA

faz uma foto RUIM do teu produto mas nao usa IA assim por favor pic.twitter.com/umSF9HoI6S

— ferdinando (@leferdinand) June 15, 2026

Deveria ser obrigatório esses apps de comida permitir Review com foto, principalmente para esses restaurantes que usam imagem de ia pra divulgar pratos

— Felipe Santos🍩 (@unipsicoduck) June 8, 2026

A possibilidade de diferentes restaurantes utilizarem imagens semelhantes ou até idênticas é justamente um dos pontos que mais preocupa consumidores e especialistas. Questionado sobre o risco de um estabelecimento utilizar a foto de um produto diferente daquele efetivamente vendido, Sortica respondeu que o problema está mais ligado à conduta do comerciante do que à tecnologia.

“Eu penso muito na dor do empresário que está começando. O custo que ele tem para, às vezes, tirar uma foto. Tem gente que está começando e não tem nem celular para fotografar”, afirmou. “O item sem foto ninguém nem compra”.

O que diz a lei

Embora ainda não exista uma regulamentação específica sobre imagens de alimentos geradas por IA, especialistas afirmam que o Código de Defesa do Consumidor (CDC) já oferece instrumentos para responsabilizar abusos.

Segundo a advogada e consultora do Sebrae Robertha Peixoto, a discussão deve ser analisada sob as regras já existentes de informação e publicidade. “Atualmente, não há uma regra específica no Brasil voltada exclusivamente ao uso de imagens geradas por IA em cardápios de restaurantes ou aplicativos de delivery”, afirmou em entrevista ao TecMundo. “Portanto, ainda que não exista uma norma específica sobre ‘imagem de comida gerada por IA’, o fornecedor continua obrigado a apresentar o produto de forma leal, transparente e compatível com aquilo que será efetivamente entregue”.

Ela explica que o uso da IA, por si só, não configura irregularidade. “O simples fato de a imagem ter sido gerada por IA não é, por si só, um problema jurídico. A questão principal é a fidelidade da imagem ao produto real e a transparência da comunicação com o consumidor”, disse.

A advogada alerta, porém, que o recurso pode caracterizar propaganda enganosa quando altera significativamente a percepção do consumidor. “A imagem pode ser considerada publicidade enganosa quando cria no consumidor uma expectativa relevante e incompatível com o produto entregue”.

Robertha também avalia que a responsabilidade não necessariamente recai apenas sobre o restaurante. “Se a plataforma participa da oferta, intermedia o pagamento, controla o ambiente de contratação, recebe comissão, organiza a experiência de compra, disponibiliza as imagens ou oferece ferramenta própria para geração ou edição de fotos, há argumentos para sua inclusão na cadeia de fornecimento”.

A própria Yooga reconhece que pode existir corresponsabilidade. “Eu acho que é uma responsabilidade compartilhada”, disse Sortica. “Majoritariamente, a responsabilidade é do restaurante, mas com certeza, se eu estou fornecendo para ele a opção, ele pode falar que foi a nossa plataforma que deu essa solução”.

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Posicionamento das plataformas de delivery

As principais empresas de delivery afirmaram ao TecMundo que adotam diretrizes para evitar que imagens criadas por IA induzam consumidores ao erro.

O iFood informou que orienta os parceiros a utilizarem imagens geradas ou aprimoradas por inteligência artificial apenas quando representarem de forma coerente o produto entregue. A empresa afirmou que possui regras específicas para apresentação dos itens e que denúncias podem resultar desde advertências até exclusão da plataforma.

A 99Food, por sua vez, disse que não recomenda o uso de imagens geradas por IA nos cardápios dos restaurantes parceiros e afirmou manter monitoramento contínuo para garantir que as fotos exibidas sejam fiéis aos pratos reais.

Já a Keeta informou que prioriza o uso de imagens reais nos cardápios, mas disponibiliza ferramentas de IA para aprimoramento de fotografias. Segundo a empresa, conteúdos produzidos por IA recebem identificação automática como ilustrativos quando gerados dentro da própria plataforma.

E o consumidor?

Ao TecMundo, o Procon-SP também recomenda transparência no uso da tecnologia. Segundo o órgão, estabelecimentos deveriam informar quando imagens foram criadas por IA, seguindo lógica semelhante à expressão “imagem meramente ilustrativa” já utilizada em campanhas publicitárias.

A entidade alerta que a ausência dessa informação pode levar à caracterização de propaganda enganosa caso o consumidor seja induzido a erro sobre características do produto.

Nos casos em que a refeição recebida não corresponde ao que foi anunciado, o consumidor pode exigir o cumprimento da oferta, receber produto equivalente ou solicitar a devolução integral do valor pago.

Para a advogada Robertha, a tendência é que o debate avance nos próximos anos. “A legislação atual é suficiente para responsabilizar abusos concretos, mas regras específicas poderiam trazer mais segurança jurídica, prevenir conflitos e orientar melhor o mercado”, explicou.

Procurada pelo TecMundo para comentar especificamente o uso das ferramentas de geração e aprimoramento de imagens por IA, a Yooga não respondeu até a publicação desta reportagem.