
A crise de memórias RAM e de componentes seguiu do fim de 2025 até os dias atuais, sem qualquer sinal de melhora. Em entrevista exclusiva para o Canaltech, o gerente nacional de vendas e marketing para a área de canais da ADATA — Daniel Santarem — apontou que ainda é cedo para determinar o seu fim.
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A companhia, que produz os módulos na sua fábrica de Santo Antônio da Posse, em São Paulo, reforça que não se deve cair em ilusões e estimativas “otimistas” que diversos analistas apontam para a indústria tecnológica. De olho nas movimentações de mercado, nada mudou.
“Tanto no mercado nacional quanto global, assim como qualquer pessoa que crave uma data de que o preço vai estabilizar ou baixar, é um chute. Não tem nada no cenário atual que nos mostre isso. Em 3 meses? Não. Em 6 meses? Eu não acredito também. Eu acho que passa de 6 meses, para termos um pouco mais de visão, talvez até de 1 ano”, indica Daniel.
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Sob o seu ponto de vista, essa crise que vem do advento das inteligências artificiais não está próxima de terminar. Dentro dessas negociações e em contato direto com os demais fabricantes, o prospecto é um só: toda a cadeia de fornecimento está comprometida e desafogar isso não será rápido.
“A demanda da IA segue bastante reprimida. Globalmente existe uma demanda contida de RAM de altíssimo padrão, de ECC de 64 GB ou mais. Falar sobre a ‘baixa de preço’ é algo muito sério, porque nada aponta que vai abaixar. A oferta de wafer, que representa muito no nosso custo, não é maior. A demanda dos servidores de IA não é menor. Logo, não há um motivo que faça acreditarmos que os preços vão cair, tanto para produtos importados como para os locais”, reforça o executivo.
Por a ADATA trabalhar diretamente com memórias RAM, SSDs, gabinetes, monitores, watercoolers e diversos outros hardwares, o gerente nacional de vendas e marketing diz que a crise impacta a todos — sem discriminação ou qualquer “limite”.
Para o executivo, o consumidor deve ficar alerta para os preços, já que nenhum dos componentes ou demais itens produzidos com os chips está “a salvo” de toda a crise que é vista atualmente.
“A lógica é a mesma para todo o mercado global e isso complica bastante. Não é uma coisa que afeta apenas a XPG ou a ADATA, impacta toda a indústria tecnológica. Qualquer eletrônico, na verdade. Hoje, quando falamos de memórias dentro de uma placa de vídeo, segue a mesma lógica. É o mesmo “wafer” — é outra tecnologia, mas é a mesma oferta de produtos dos mesmos fabricantes. ”, revela Daniel Santarem.
Por dentro da tecnologia
Para ilustrar como a situação já está complexa das cadeias mais altas do suprimento, a ADATA também explica como a situação escala até chegar ao consumidor final — que parte de antes mesmo da produção dos chips.
O gerente conta como cada processo impacta no bolso do público, o que ajuda na compreensão de como chegamos à situação atual de mercado.
“Aumentar a capacidade de produção de wafer não é algo simples. Não dá para estalar os dedos e os produtores de wafer conseguirem fazer algo. Uma fábrica precisa de matéria-prima para construir esse wafer, equipamentos de teste e mão de obra especializada”, diz o executivo.
Ele também revela que ter um “botão mágico” que aumenta a produção não é possível dentro da indústria atual, já que sempre se esbarra no limite do que as fábricas conseguem trazer.
“Equipamentos de teste mesmo é um dos gargalos que tem de produção de wafer e de memória. Não é tão simples assim quanto a gente gostaria que fosse. Seria ótimo regular a demanda com produção maior de wafer dos nossos fornecedores, mas não é algo fácil”, conclui Daniel Santarem.
Como a ADATA vê o aumento de preços?
O caminho desta crise é bem claro para a indústria: com uma demanda maior dos data centers de inteligência artificial, as grandes fabricantes decidiram focar suas vendas diretamente para estes servidores — o que deixou o mercado de consumo com poucos hardwares.
A regra de oferta e demanda é bem clara: quando há poucas unidades de qualquer item em circulação, ele se torna mais “raro” e o seu preço aumenta expressivamente. A depender do que é vendido, há casos em que o aumento foi muito maior do que o dobro ou o triplo.
Com um impulso muito alto do fim de 2025 até o momento, alguns destes componentes vão estabilizar e terão um acréscimo menos atenuado do que o visto nos últimos meses.
“Os preços de memórias e SSD obtiveram um grande aumento e a tendência de precificação que apontam as pesquisas é que continuará a subir. Para as RAM, especificamente, será menos acelerado do que foi nos últimos seis meses, porque falamos de preços que chegaram a quadruplicar. Contudo, ainda assim, é uma tendência crescente de preços. Ao menos é isso o que apontam as pesquisas”, revela Daniel Santarem.
No entanto, o executivo vê que ainda não vimos o pior cenário quando se trata de armazenamento. Em seu ponto de vista, ainda não chegamos ao “limite” que o preço do hardware pode atingir no mercado.
“Já os SSDs, as pesquisas apontam que não chegou no topo de preço ainda, então deve haver um impacto maior em preços. O problema é que isso não deve acabar em um futuro breve, falamos de alguns trimestres ainda de preços altos e isso afeta não só a XPG, mas como todos os produtores de memória”, declarou o gerente.
Ele explica como ocorre todo o processo de precificação e como ele impacta diretamente os consumidores. Desde a fabricação, o seu “destino” é selado antes mesmo de chegar em fábricas como da ADATA e XPG.
“O preço de um SSD fica entre 85 a 90% relacionado ao preço do wafer, que é a matéria-prima. O wafer é aquele disco que parece aquele disco de vinil, só que é dourado. Ele é laminado, cortado, empilhado e encapsulado e vira aquele quadradinho preto que a gente vê nas memórias e nos SSDs, o semicondutor”, conta Daniel.
Na sequência, ele revela como todo o processo chega em um ponto de “gargalo”. Como há poucas companhias que produzem diretamente a partir desta etapa, elas decidem o caminho que os chips seguirão no mercado.
“Depois desta etapa, ele é soldado na mainboard, tem o controlador, enfim. Quem produz este disco é a SK Hynix, Samsung, Micron e alguns outros fabricantes, não são muitos. Eles fecharam acordos comerciais diretamente com as empresas que consomem para servidores de inteligência artificial, para data center”, detalha.
A partir disso, em resumo, eles compram tudo o que precisam e apenas “o resto” chega para o comprador comum. Ainda que fosse proposto algum tipo de divisão “mais justa”, empresas privadas têm liberdade para vender o chip para quem desejar.
Como as “Big Techs” pagam mais, obviamente que a decisão não é sequer discutida. Companhias visam lucros e, se alguma área oferece isso de forma mais veloz e fácil do que outra, seu objetivo será fechar o negócio que vai gerar grandes quantidades de dinheiro.
“Hoje a maior parte da produção da matéria-prima é dedicada diretamente para o cliente, que são os produtos consumidores de servidores e data centers para IA. Hoje a oferta de wafer é muito mais limitada do que era há dois ou três anos. É isso que muda bastante o preço”, reforça o gerente.
Não há salvadores da pátria
Daniel Santarem revelou que muito se debate sobre a construção de novas fábricas na China, a entrada de uma concorrência maior neste mercado, mas reforça que este também não é o caminho que todos esperam de onde virá a “salvação”.
“Se fala muito sobre as empresas chinesas, que prometem entrar nesse mercado, mas precisam de anos. No mínimo uns 5 a 10 anos para começar a ter uma visão de mudança no mercado. Porém, acredito que os preços devem ser ajustados antes de 5 anos”, diz.
Todo o processo está “travado” hoje. Precisa de tempo para construir a instalação, produzir as máquinas que estarão lá dentro, obter mão de obra suficiente e iniciar a sua fabricação. Será bom ter novos “players”, mas não vai acontecer de um dia para o outro.
Alternativas da ADATA no Brasil
A memória RAM e os componentes de armazenamento estão caros, mas então como a ADATA e a XPG vão sobreviver no meio de toda essa crise? O executivo aponta que o plano envolve trazer outros periféricos ao mercado e o Brasil é um ponto importante para eles alcançarem sucesso em sua estratégia.
“Nosso propósito é expandir o portfólio, para mostrar ao consumidor final que não é só de memória e de SSD que a ADATA e a XPG vivem. Temos uma lista extensa de produtos. A cadeira Nexus Plus, que trouxemos na gamescom latam 2026, é um lançamento recente. Chegou globalmente no final do ano passado e conseguimos trazer. Este é só um dos itens que queremos mostrar ao público, assim como nossa linha de refrigeração líquida com os watercoolers”, revela Daniel.
Entre os demais hardwares que prometem disponibilizar em nosso país, estão monitores que são descritos como “competitivos” com o que é oferecido por aqui. De acordo com eles, o público verá vantagem tanto em custo quanto nas suas especificações.
Desafios da produção nacional
Ainda que a ADATA já tenha optado por trazer todo o seu portfólio para o Brasil, ainda esbarra em questões maiores para ter o melhor preço e disponibilidade. O gerente nos revelou que a importação passa por desafios globais e isso também impacta no seu valor de venda.
“As cadeiras, gabinetes, até mesmo uma fonte que tem bastante peso, a gente discute muito sobre o frete. É um fator que conta muito no Brasil e é o maior custo que a gente tem em uma composição de preços. Dentro de um container, por exemplo, cabe menos de 200 cadeiras. Além disso, hoje estamos em situação de guerra e muitas vezes tem que se mudar a rota. Se ela é mais longa, o frete fica mais caro. Isso influencia diretamente no custo do produto no Brasil e, por consequência, no preço”, afirma Daniel.
Ele revela que há certos aspectos que precisam entrar nesta conta, já que grande parte destes itens são produzidos na China e em outros países asiáticos nos quais a ADATA e a XPG possuem parceiros comerciais.
“Não tem como escapar de imposto e frete. Negociamos muito bem com a matriz por preços mais baixos, para atender o público brasileiro ou produtos específicos para o Brasil. São conversas diárias, muitas vezes com a proposta de tentar desenvolver algo só para o Brasil ou uma linha especial que atenda o requisito. O brasileiro, apesar de querer ter um custo benefício, ele não quer abrir mão de especificação ou qualidade. É um público muito exigente. Então, tentamos sempre ajustar esse equilíbrio. Com memórias e SSD, é a mesma coisa”, aponta o executivo.
Além de levar em consideração os componentes, Daniel Santarem diz que os certificados de qualidade também possuem um papel muito importante na hora de precificar um hardware. O resultado disso pode chegar ao bolso do público, mas também reforça a durabilidade dos componentes entregues.
“Hoje, um aspecto que impacta muito são os componentes e a quantidade de testes que exige. Por exemplo, uma fonte da XPG passa por mais de 50 testes antes de ir para a caixa e chegar até você. Isso deixa o ciclo de produção mais longo, a quantidade se torna menor. Consequentemente, a oferta fica menor e o preço aumenta. São produtos que trazem mais segurança para o consumidor final, mas também um preço um pouco maior do que os de entrada, que podem contar com menos testes. Com isso, você também traz mais homologações como da Cybernetics, por exemplo, que podem ser 80 Plus, no caso de fonte”, afirma o gerente.
ADATA e XPG próximas à comunidade brasileira
Segundo o executivo, a companhia possui outro diferencial para o mercado nacional que é as iniciativas sociais. Ele revela que não basta chegar no Brasil, vender e acreditar que já “fizeram sua parte”. Neste aspecto, eles investem em educação e na acessibilidade das tecnologias mais recentes.
“Nos últimos seis meses, discutimos muito sobre a abordagem que desejamos para projetos com o público geral e profissionais — inclusive para pessoas com um menor poder aquisitivo. Temos ação na GameCraft, da FEERJE lá no Rio de Janeiro, que tem escolas que ensinam as crianças das comunidades a desenvolver, aprender o pacote Office e outras atividades. Em uma escola, ajudamos a FEERJE patrocinando alguns projetos para viabilizar também essa inclusão tecnológica para o público também”, revelou.
Além disso, ele acredita que os lançamentos que trarão ao mercado vão ajudar o brasileiro de todas as formas possíveis — seja para jogar, trabalhar, executar suas tarefas ou apenas se divertir com os seus computadores.
“Os próximos meses vocês verão bastante produtos. É importante que, além de falar de novidades, não há problema de abastecimento. Quem quer fazer o seu upgrade, montar o seu setup, hoje o mercado está muito bem abastecido, É uma calma que a gente tem de trazer para os usuários”, diz o gerente.
A promessa é que não veremos as lojas e principais revendedores sem os hardwares ADATA e XPG neste segundo semestre de 2026. Sob o ponto de vista do executivo, se o começo do ano já trouxe muita coisa boa, os meses seguintes terão ainda mais:
“Só em 2026 tivemos as cadeiras Nexus, também chegarão para os lojistas os gabinetes e monitores novos da XPG. Também oferecemos a nossa linha de produtos de refrigeração, tanto líquida quanto a ar que também devem chegar nos próximos meses aqui no Brasil”, conclui Daniel Santarem.
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