A airfryer é um dos eletrodomésticos mais populares nos lares brasileiros, e perceber que o revestimento antiaderente começou a descascar costuma levantar algumas preocupações. Uma delas é o receio de precisar gastar com um cesto novo, enquanto a outra envolve os possíveis riscos à saúde.
Neste segundo caso, o temor muitas vezes está associado à possibilidade de algumas daquelas “casquinhas” pretas que se soltam do cesto pararem na comida e aos possíveis problemas relacionados à ingestão desses fragmentos.
A boa notícia é que, quando o revestimento do equipamento é feito de politetrafluoretileno (PTFE), popularmente conhecido como teflon, a ingestão acidental de um pequeno fragmento não costuma causar intoxicação. Isso não significa, no entanto, que seja recomendado continuar usando normalmente um cesto que já apresenta sinais evidentes de desgaste.
Especialistas ouvidos pelo Canaltech explicam que o risco depende do tipo e do nível de dano no revestimento, além do material usado na fabricação do cesto.
:quality(85)/fe05e3c1-3c7f-4c4e-8026-8963d531aa87.jpeg)
Engolir o antiaderente da airfryer faz mal?
Caso uma pequena lasca do revestimento do cesto seja ingerida junto com a comida, a tendência é que ela atravesse o sistema digestivo sem ser absorvida pelo organismo. De acordo com Henrique Silva Bombana, biomédico toxicologista e pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), isso acontece porque o PTFE é um material bastante estável e que praticamente não reage com o corpo.
“O antiaderente da airfryer é composto por Teflon. Esse material é inerte e atóxico, ou seja, não reage com o organismo, nem é absorvido. Portanto, em casos de ingestão, o Teflon será eliminado pelo trato gastrointestinal", explica o Bombana.
Ainda assim, há uma ressalva importante: nem toda casquinha preta que se solta de um cesto necessariamente é PTFE. É o que explica o farmacêutico Kauê de Oliveira Chinaglia, pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Farmacologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O especialista explica que alguns produtos podem utilizar outros tipos de revestimento, como camadas de laca ou pintura, cuja composição pode variar. Nesses casos, os possíveis riscos dependem do material usado na fabricação do cesto.
Teflon usado na airfryer causa câncer?
A relação entre o teflon usado no revestimento da airfryer e de outros produtos de cozinha e o câncer costuma gerar confusão, visto que materiais diferentes acabam sendo tratados como se fossem a mesma substância.
O teflon em si não é classificado como cancerígeno por órgãos de referência, de acordo com Chinaglia. Ele explica que parte dessa má fama vem do ácido perfluorooctanoico (PFOA), composto que era utilizado como auxiliar no processo de fabricação do teflon e associado a efeitos tóxicos à saúde.
Chinaglia explica que o PFOA é cancerígeno e já foi encontrado como resíduos em materiais com PTFE, como os de panelas e frigideiras. Essa substância, no entanto, já deixou de ser utilizada pelas fabricantes.
Mas o farmacêutico ressalta que outros compostos da família das substâncias per e polifluoroalquiladas (PFAS) passaram a ser utilizados pela indústria e que a segurança de longo prazo de algumas dessas alternativas ainda é pouco estudada.
“Como a regulamentação sobre PFAS avança lentamente no mundo todo, e praticamente não existe no Brasil, sem valores-limite estabelecidos fica difícil para o consumidor saber só pelo rótulo quais PFAS exatamente aquele utensílio contém. Vale a pena procurar embalagens que declarem ‘livre de PFAS’, não apenas ‘livre de PFOA’”, pontua o pesquisador da Unicamp.
:quality(85)/ed843f53-edb8-4207-b769-1aa9e7d4bbeb.jpeg)
O problema começa quando o cesto fica danificado
Se engolir acidentalmente uma pequena lasca de PTFE não costuma causar intoxicação, a situação muda quando o revestimento continua se deteriorando conforme o eletrodoméstico é utilizado. Isso porque o desgaste pode deixar exposto o metal que forma a estrutura do cesto da airfryer.
Chinaglia destaca que muitos desses recipientes utilizam alumínio, e o contato direto entre o alimento e o metal pode favorecer a chamada migração, quando pequenas quantidades do alumínio passam para a comida. Mas isso não significa que um pequeno risco transforme imediatamente o cesto em um perigo.
Bombana ressalta que arranhões superficiais, em tese, não representam necessariamente risco à saúde e que a avaliação também depende do material utilizado na fabricação do produto.
“Normalmente, é utilizado alumínio ou aço inox com camada de alumínio. Caso o produto seja de má qualidade, pode haver contaminação por ferro. Mas, neste caso, o metal deixaria gosto perceptível nos alimentos”, explica o biomédico.
Cuidados redobrados com alimentos ácidos
Ambos os especialistas apontam que um cuidado maior pode ser necessário quando alimentos ácidos são preparados com frequência em um cesto que já perdeu parte do revestimento. Bombana explica que ingredientes como tomate, limão e vinagre podem acelerar a migração de alumínio.
“Porém, seria necessária uma ingestão crônica e cozimento prolongado para o teor de alumínio ou outro metal ser significativo nos alimentos ingeridos pelos consumidores”, destaca o especialista.
Esse processo acontece porque substâncias ácidas podem favorecer a corrosão e, consequentemente, a migração de metais. Chinaglia acrescenta que esses indícios são suficientes para não seguir usando equipamentos que apresentem desgaste aparente nem preparar esse tipo de alimento na airfryer.
:quality(85)/244bcd79-eaba-4dec-8a0c-3c8af0305ca9.png)
Quando é hora de trocar o cesto da airfryer?
Os especialistas consultados pelo Canaltech afirmam que não existe uma quantidade de riscos, tamanho de arranhão ou porcentagem de revestimento perdido que determine oficialmente quando um cesto precisa ser substituído.
Por isso, um pequeno arranhão superficial não significa necessariamente que seja hora de comprar uma peça nova. Mas a recomendação se torna mais conservadora quando o desgaste deixa de ser apenas superficial.
Chinaglia considera que sinais como lascas, bolhas no revestimento ou áreas nas quais o metal já está visivelmente exposto indicam que é o momento de interromper o uso daquela peça.
“Não existe um limite de segurança padronizado, seja regulatório ou definido pela literatura. Qualquer sinal visível de dano, como arranhão que expõe o metal, bolhas ou lascas visíveis, já é motivo suficiente para parar de usar aquela peça e seguir a orientação do fabricante quanto à reposição", pontua o farmacêutico.
Mas o especialista também aponta que, enquanto o cesto não é substituído, os usuários podem adotar algumas soluções paliativas. As principais dicas são forrar o cesto com papel-manteiga ou utilizar um forro de silicone próprio para airfryer, ajudando a reduzir o contato direto entre o alimento e o metal exposto.
Na prática, encontrar um risco discreto no cesto não significa automaticamente que a airfryer se tornou perigosa. Já quando o antiaderente começa efetivamente a descascar, formar lascas ou deixar o metal exposto, a substituição do cesto passa a ser a alternativa mais segura.
E você sabia que há algumas práticas que podem prolongar a vida útil da sua airfryer? Confira essas 5 dicas para manter o bom funcionamento do eletrodoméstico.
{{WHATSAPP_CHANNEL}}