O Banco Central (BC) avalia medidas para coibir o uso indevido do campo de mensagens nas transações via Pix, hoje explorado para o envio de xingamentos e ameaças. A informação consta no Relatório de Gestão do Pix 2023-2025, divulgado nesta segunda-feira (10).
Paralelamente, o órgão trabalha em um indicador de fraude baseado em inteligência artificial, mas essa ferramenta integra a agenda geral de segurança do sistema e não foi apresentada no relatório como solução específica para o problema das mensagens ofensivas.
Campo criado para informações objetivas
Segundo o BC, o campo de mensagens foi criado para que o pagador registrasse dados objetivos sobre a operação. Em algumas situações, porém, ele passou a servir como veículo para conteúdos ofensivos, intimidatórios ou ameaçadores, frequentemente associados a transferências de valor irrisório, como centavos.
A Folha já havia mostrado que transações de R$ 0,01 se tornaram um meio de comunicação entre usuários, usado tanto para contato direto com o destinatário quanto para checagens funcionais. Até o momento, coibir esse tipo de prática cabia exclusivamente aos prestadores de serviços de pagamento.
Grupo de trabalho debate alternativas
Para tratar do problema, o BC criou neste ano um grupo de trabalho no Fórum Pix, com participação de associações que representam instituições financeiras e entidades da sociedade civil. O objetivo é discutir alternativas que preservem a integridade do instrumento e a experiência dos usuários, sem alterar as características essenciais do Pix.
Com base nas conclusões desse trabalho, o BC avaliará e instituirá, se considerar necessário, as medidas regulamentares para coibir o uso inadequado do campo. Um interlocutor ouvido pela Folha sob condição de sigilo afirmou que as sugestões já estão em análise pela equipe técnica, mas a definição das novas regras dificilmente sairá ainda este ano, diante da falta de recursos do órgão para priorizar a iniciativa.
Inteligência artificial entra na agenda de segurança
O relatório também prevê o desenvolvimento de um placar de probabilidade de fraude, calculado de forma centralizada pelo BC em tempo real para todas as transações do Pix. A construção desse indicador usará técnicas de inteligência artificial e machine learning, segundo apurou a Folha.
A ideia é que o placar sirva de subsídio para os sistemas antifraude das instituições financeiras decidirem se dão prosseguimento a uma operação. Sua disponibilização às instituições participantes, no entanto, dependerá da confiança do BC no ajuste do modelo e de uma avaliação jurídica sobre o compartilhamento desse tipo de informação.
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Outras frentes de segurança
O BC também pretende aprimorar o bloqueio cautelar, com um fluxo automatizado de troca de informações entre instituições, e ampliar sanções contra participantes que colocam a segurança do sistema em risco. Entre as medidas cautelares em estudo estão restrições ao cadastro de novas chaves, limites de valor por transação e restrição de horários para operações.
A autoridade monetária também discute com o mercado a padronização do alerta de golpe, funcionalidade já usada por algumas instituições para avisar clientes sobre suspeitas de fraude no momento da transação.
Pix bateu recorde de transações em 2025
O Pix somou quase 80 bilhões de transações em 2025, ano em que completou cinco anos de operação, movimentando mais de R$ 35 trilhões. Participaram do sistema 148 milhões de pessoas, cerca de 86% da população adulta brasileira, e 12,8 milhões de empresas.
O sistema tem hoje mais de 920 milhões de chaves cadastradas, alta de 67% em relação a dezembro de 2022, vinculadas a mais de 162 milhões de pessoas e 16 milhões de empresas.
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