Como funciona a "escassez artificial" que está afetando o mundo da tecnologia?

Com a atual crise de hardware envolvendo diferentes componentes, seu e-commerce favorito pode ter o aviso de "esgotado" naquele produto que você estava ansioso para comprar. O que entendemos disso é que o estoque acabou ou a produção parou. Mas, em muitos casos, a realidade é outra: o produto já cruzou o oceano, passou pela alfândega e está devidamente acomodado em um galpão climatizado em solo brasileiro. Ele simplesmente não está à venda.

Esse fenômeno é conhecido como "represamento de estoque" (ou Inventory Withholding em inglês). Em períodos de alta volatilidade do dólar ou incerteza inflacionária, o estoque parado deixa de ser um custo e passa a ser visto como um investimento estratégico. Colocar o produto no mercado hoje pode significar "queimar" o lucro que seria muito maior daqui a alguns dias.

O Canaltech conversou com Tonimar Dal Aba, especialista em gerenciamento de data center e soluções de TI, para entender como os servidores de IA e armazenamento em nuvem estão afetando toda uma cadeia do mercado de consumo, tornando bastante difícil a vida de quem quer montar um PC no momento.

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Como funciona a engrenagem

A jornada de um componente é linear: do fabricante (geralmente na Ásia) para o distribuidor (o importador de grande escala) e, finalmente, para o lojista. O grande gargalo costuma estar no distribuidor. Se ele importou um lote de GPUs com o dólar a R$ 5,15, mas a previsão indica que a próxima tabela chegará com o dólar a R$ 5,50, o incentivo para segurar o estoque é enorme.

Memória RAM foi o primeiro componente a sofrer com a atual crise de hardware (Imagem: Kingston/Divulgação)

Vender agora garante uma margem padrão, mas segurar e vender na nova tabela pode triplicar essa margem. Em entrevista ao Canaltech, Tonimar explica que "o que estamos vendo é uma reorganização. Então, se o consumidor para de comprar, a imaginação que temos é que o fornecedor vai querer desovar esses produtos para não queimar. Mas ele tem ali as suas prioridades".

Ele menciona que esse é o caso de "alguns fabricantes que já se anteciparam a isso e estão priorizando atender outros mercados que eles visam ser mais importantes nesse momento" Essa "escassez artificial" cria um cenário onde o lojista quer comprar para atender o cliente, mas o distribuidor afirma que o sistema está zerado, aguardando o momento ideal para a atualização de preços.

O fator "Risco Brasil" e o custo de reposição

Muitas vezes, o aumento de preço em um produto que já está no Brasil não é apenas ganância, mas uma estratégia de sobrevivência financeira conhecida como Custo de Reposição. Dal Aba exemplifica de forma clara: "hoje, o lojista tem a possibilidade de vender algo a R$ 1.000, mas, lá no futuro, por algum motivo, ele vai comprar novamente o mesmo produto, que não vai mais custar R$ 1.000".

Se o vendedor comercializa seu estoque atual pelo preço antigo e o custo de importar um novo lote sobe drasticamente, ele não terá capital suficiente para repor a mercadoria. Essa paralisia força uma "escassez" preventiva para proteger o fluxo de caixa contra a desvalorização da moeda.

As estimativas para placas de vídeo é de encarecimento a qualquer momento (Imagem: MSI/Divulgação)

"Então é bem importante deixar isso claro e entender que grande parte da cadeia de tecnologia opera em dólar e mesmo que o produto já esteja no Brasil, ele foi pago por um determinado valor, mas a reposição dele na próxima remessa vai ser por um dólar afetado pela flutuação".

O vilão global: a prioridade da IA

Embora a manipulação local exista em algum nível, o pano de fundo global é uma pressão real vinda da inteligência artificial. As linhas de produção da TSMC, por exemplo, que antes eram disputadas por GPUs gamer e CPUs, agora estão voltadas para chips de IA que custam dezenas de milhares de dólares, oferecendo uma margem de lucro grande e atendendo a uma demanda voraz atualmente, tudo o que qualquer empresa precisa.

"A IA é um fator real de pressão, mas não é uma narrativa... O mercado também se antecipa à expectativa", afirma Dal Aba. Ele complementa dizendo que o setor está passando por uma fase de ajuste, onde "a limitação produtiva e o redirecionamento estratégico", fazem com que os preços "se ajustem naturalmente com o tempo".

A previsão para quem espera uma queda brusca de preços, no entanto, é cautelosa. Segundo o especialista, não devemos esperar um retorno à realidade de preços antes do boom da IA. "Não vamos voltar num cenário pré-IA. O que teremos é a estabilização dos valores mesmo, e não uma regressão de valores", adiciona.

Data centers estão abocanhando grande parte dos chips de peças de PC hoje (Imagem: İsmail Enes Ayhan/Unsplash)

Aprendizado da indústria

Apesar da pressão atual, há uma luz no fim do túnel. A indústria de hardware já passou por bolhas anteriores (como a da mineração de criptomoedas e evoluções de outras tecnologias no passado) e parece mais preparada para lidar com esses ciclos:

"O setor aprendeu com ciclos anteriores de desenvolvimento. Então, temos esse momento de pressão demandado por IA, mas ele vai se normalizar em breve, com todo esse aprendizado e tudo mais que está acontecendo", explica o especialista.

Enquanto o mercado se autorregula, cabe ao consumidor entender que a falta de um componente nem sempre significa que ele não existe; às vezes, ele está apenas esperando o momento de ser mais lucrativo para quem o detém.

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