Do Inside Xbox ao silêncio: o desafio da nova CEO no Brasil

Nos tempos dourados de Xbox 360, o Brasil estava em evidência na indústria de games. E isso pode ser resumido em duas frentes: fortes vendas de jogos e consoles e uma comunidade extremamente apaixonada por sua cultura. 

Com isso em vista, a Microsoft voltou seus olhos ao país e fez do console de 2005 um verdadeiro sucesso. Não foi um “acidente de percurso”, mas sim o resultado de diversos esforços que tiveram em solo nacional.

Dos jogos localizados, totalmente dublados em português brasileiro — em franquias de peso como Halo e Gears of War —, trabalhos junto à comunidade com o Inside Xbox e fabricação local, o videogame brilhou.

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O Xbox 360 não era apenas verde, mas para o público do Brasil ele tinha as cores verde e amarelo marcadas. Hoje, o Canaltech relembra um pouco dessa época e o que a nova CEO da marca terá de desafios para voltar a ter êxito dentro do nosso mercado. Confira:

Imagem do Xbox 360
A geração Xbox 360 representou o ápice da comunidade gamer no Brasil (Imagem: Reprodução/Microsoft)

O legado do Inside Xbox

Entre o fim dos anos 2000 e início da década de 2010, o principal ponto forte da Microsoft em nosso país era a conexão humana. Não era como no PlayStation, onde só tinham fãs. O Xbox tinha uma verdadeira comunidade.

Quem ligava o Xbox 360, dava de cara com os programas do Inside Xbox na dashboard. Rostos como o de Nelson Alves Jr., Mariana Ayres e Thais Matsufugi não eram apenas figuras corporativas, mas verdadeiros representantes do coletivo popular. 

O ex-apresentador e diretor do Inside Xbox Nelson Alves Jr. conversou com o Canaltech sobre o conceito do programa e aponta que ele tinha um objetivo bem claro: ser uma comunicação direta de fãs para fãs.

“A ideia era ser o mais próximo possível das pessoas. Acho que foi isso que colaborou também para criar identificação com o público, o que fez o pessoal começar a se identificar. Tenho muita satisfação de ter colaborado com a criação da comunidade, de dar voz para as pessoas”, afirmou o comunicador.

Existe uma diferença gritante entre falas comerciais e papo de fãs: este último era algo que estes e outros que passaram pelo programa dominavam com muita habilidade. Era uma conversa de alguém apaixonado por games para outros, o que ganhou o coração de muitos ao longo dos anos.

No Xbox 360, a pessoa não apenas jogava, mas podia ver dicas, entrevistas e novidades com nossos sotaques e cultura. Era um ecossistema que passava a impressão de ser um “bate-papo” com seus amigos, onde vários se sentiam “em casa” e com os seus.

“Sempre nos colocamos de igual para igual com as pessoas, com com quem assistia, quem consumia, era uma ideia do tipo 'cara, eu jogo', entendeu? Eu estou no mesmo nível que você, então a gente pode conversar numa boa, não estou acima. Não era estrelato, não tem aquela coisa inatingível. Nunca foi essa ideia”, explicou Nelson.

Entre os destaques que se lembra com carinho daquela época, Nelson destaca a cobertura da E3, um dos maiores eventos de videogames de todo o planeta, que foi descontinuado durante a pandemia da covid-19. 

“Na época em que nós fazíamos o Inside aqui no Brasil, existiam 12 países que criaram conteúdo para o Inside Xbox e nós éramos o 12º. Teve uma E3 que nós só ficamos (em termos de audiência) atrás dos Estados Unidos, que era absolutamente impossível de ser batido. Não tinha condição de nem sequer competir com eles, até por conta da estrutura que os caras tinham, o acesso era diferente. Mas vamos considerar que, de 12 países, termos ficado em segundo na audiência em cobertura de E3, eu acho um feito”, celebra Nelson. 

A conquista foi alcançada mesmo com diversas dificuldades que eles encontraram no caminho. Um dos maiores desafios era em relação ao tamanho do time de cobertura, que era reduzido em comparação aos demais.

“Tínhamos que fazer tudo isso com uma série de limitações. Nós não estávamos lá com uma equipe de 50 pessoas. Era tipo três, quatro pessoas ralando a semana inteira para produzir tudo para o mesmo dia”, apontou o ex-apresentador do Inside Xbox. 

O mercado do Xbox no Brasil

A Microsoft também brilhava em diversos outros aspectos no mercado brasileiro de games. Jogos dublados, muitos deles no mínimo legendados, eventos de lançamento, versões especiais e outras eram o grande destaque não apenas da prateleira, mas entre o público.

Um aspecto que se tornou um dos queridinhos dos fãs foi a presença da distribuição oficial de games e consoles limitados no Brasil. Não era raro ver a edição de colecionador do Halo aqui ou um Xbox 360 especial ali — como de Star Wars e Gears of War, por exemplo — dentro das lojas.

Segundo o ex-apresentador do Inside Xbox, a equipe brasileira trabalhou com afinco para trazer essas versões especiais para o mercado nacional.

“Tinha uma equipe no Brasil muito séria, que debatia firmemente para conseguir trazer essas edições aqui para o país. Por exemplo, toda vez que saía uma edição especial de um console aqui no Brasil, era um projeto de meses, que os caras tinham que brigar muito. E trazia como? A duras penas, às vezes não tinha nem margem de lucro, mas eles faziam questão de trazer”, apontou o jornalista

Durante a nossa conversa, ele recorda que a indústria brasileira de jogos também já viu edições exclusivas de consoles para celebrar a forma como os fãs se uniam por via do seu ecossistema.

“Por quê isso? Porque tinha uma comunidade engajada que tava a fim de ter aquele acesso. O Brasil foi um dos poucos que lançou um console especial exclusivo. Tem a edição de 102 anos do Palmeiras, que existiram apenas 102 unidades vendidas. Hoje quem tem, óbvio, tem uma pepita de ouro em casa. Um diamante bruto. A equipe que cuidava disso na época estava muito a fim de fazer de fato acontecer”, revelou.

Imagem do Xbox One do Palmeiras
O Xbox One do Palmeiras foi real e existem apenas 102 deles Brasil afora (Imagem: Divulgação/Microsoft)

O ex-diretor do Inside Xbox no Brasil também comenta que todas as ações da Microsoft no país convergiam para o sucesso da marca. Não era apenas um fator, mas todos em combo.

“Se vê que eles começaram a oferecer um produto nacional, jogos localizados, conteúdo bacana para as pessoas, suporte nacional, uma garantia que funciona e outros aspectos. É um conjunto da obra que, naturalmente, as pessoas foram virando os olhos e prestando mais atenção naquele produto”, explica o jornalista.

E, mesmo com a pirataria em alta nesta geração, o videogame mantinha força total. Inclusive, ele era fabricado na Zona Franca de Manaus, algo que dificilmente era visto pelos demais desde os anos 1990. Era um forte apelo, que manteve os jogadores unidos por gerações.

Porém, os projetos não pararam por aí. Nelson, que também foi editor-chefe da Revista Oficial do Xbox no Brasil, apontou que havia planos para uma aproximação ainda maior do público em outros formatos, que não seguiram adiante.

“Sempre trouxemos muitas ideias com o objetivo de não só manter, mas crescer. Propomos um projeto legal de transformar o Inside Xbox, que era um programa semanal, em um ‘Xbox TV’ que teria uma grade diária de conteúdo. Criamos uma série de programas bacanas, reunimos dinheiro e fizemos um projeto bem robusto, que não tinha nem na sede gringa. Não tinha qualquer coisa parecida. Quisemos dar um passo grande, eu diria, mas que era viável de ser feito. Mas o pessoal daqui enxergou que não era necessário”, revelou Nelson.

Imagem do Xbox One
O Inside Xbox seguiu do 360 para o One (Imagem: Divulgação/Microsoft)

Choque de realidade: a geração do distanciamento

Até o Xbox One, muito deste cenário se manteve e criou uma conexão forte com os fãs. No entanto, da pandemia em diante, a Microsoft deixou uma trilha de devastação por onde passou

Com o Xbox Series S e X, tivemos muitas baixas — no Brasil e no mundo. O fim das mídias físicas para a plataforma nas lojas nacionais e o sumiço do console nas prateleiras, que causou a inflação de seu preço no mercado, são apenas alguns fatores que fizeram a comunidade perder forças.

No entanto, também foi visto um aumento expressivo no preço da assinatura do Xbox Game Pass, que chegou a basicamente 100% e fez seu preço atingir o patamar de R$ 120. Isso sem falar na estratégia de lançamentos multiplataforma, o que fez muita gente abrir mão de defender a marca. 

Imagem de Halo Campaign Evolved
Até mesmo Halo não escapou da campanha multiplataforma do Xbox (Imagem: Divulgação/Microsoft)

A ausência em eventos como a BGS e gamescom latam afastou ainda mais o público, que, para ter uma “palhinha” do que a Microsoft planejava para o país, teria de ir a CCXP — cujo destaque é para a cultura geek, não gamer. Ou seja, estamos hoje “completamente abandonados” pela marca.

De acordo com o ex-apresentador do Inside Xbox, o cenário parece sombrio e em várias frentes a marca deixa a desejar no contato com sua comunidade.

“O que eu vejo hoje é que está largado às moscas. Falando o português bem claro. Para quem gosta de disco físico, por exemplo, eu gosto muito, mas não se encontra mais. Dependemos 100% da versão digital. Não tem um evento sequer, eu nem sequer sei quem é que cuida de Xbox aqui no Brasil. Você não vê mais ninguém que se pronuncia, que dá a cara a tapa. É uma coisa meio obscura”, aponta Nelson.

Em relação à produção de programas e ações em prol da comunidade, em nível nacional, ele revela que viu as coisas desmoronarem aos poucos, até chegarmos ao ponto que vemos hoje em dia: 

“Depois que teve a troca da equipe de Xbox no Brasil, tenho a impressão que aquelas outras pessoas não enxergavam o conteúdo dessa forma. Eles não não viam a importância ou a necessidade de aquilo funcionar. Após pararmos de produzir o Inside, acompanhei pouco, mas eu vi que tiveram algumas mudanças. Eles tentaram manter de alguma forma ali, mas o negócio não teve um uma vida muito longa. Na verdade, eu acho triste. Porque assim, para você construir, demora muito tempo. Mas, para destruir, é de um dia para o outro”.

Somado a campanhas globais como a emblemática “Isso é um Xbox”, foi visto que o Brasil deixou de ser um dos protagonistas do sucesso dos consoles no cenário global. Virou apenas mais um número na planilha de assinantes no Game Pass. Sem um rosto, é isso que o fã brasileiro se tornou.

Os desafios da Microsoft

Caso a companhia queira ter o mesmo grau de importância que obteve no fim dos anos 2000 e início da década de 2010, a nova CEO da Xbox — Asha Sharma — vai ter de se desdobrar em mil para cativar novamente a base que perderam ao longo dos anos e dos erros.

Em contrapartida a um passado nostálgico, temos um futuro sombrio e que segue em descrença, mesmo com uma chuva de promessas e frases que apontam para uma esperança pelo que está por vir.

Em relação ao Brasil, Nelson revela que não somos os únicos a ver esta “queda” da marca. Para o jornalista, o cenário global segue prejudicado:

“Se você olhar para o distanciamento da marca mundialmente, verá que naturalmente aqui seria um reflexo. Não há uma exclusividade do Brasil nisso. A marca está passando por um momento tenebroso. Sejamos francos, veja essa história do preço do Game Pass por exemplo, custa o olho da cara agora. Essas mudanças de diretrizes, que toda hora a gente escuta falar, uma hora vai para cá, outra hora vai para lá, compra estúdio, fecha estúdio, é uma bagunça, um negócio que parece feito na barrigada. Naturalmente que isso ia espirrar para para os lugares que tem escritório também, aqui no Brasil não seria diferente. Eu acho profundamente lamentável”. 

Não basta reformular sua comunidade com a mesma abordagem do Inside Xbox, voltar a participar em eventos e “fingir” que está tudo bem. É prestar atenção em nosso mercado e nos fãs, para criar algo personalizado e que converse com todos da forma como era visto antigamente. 

Nelson enxerga que isso abrirá um espaço maior para que a Sony crie um monopólio no mercado de jogos, algo que vai pesar em todos, independentemente da plataforma que escolherá no futuro.

“Como jogador, eu acho isso muito triste. Hoje vemos a PlayStation como monopólio no mercado. Vai ser ruim para os jogadores do mesmo jeito. O pessoal que quer jogar, se divertir com o videogame, vai ter esse ‘império’, que vai praticar o preço que quer e que pode trazer um novo videogame, talvez nem com um salto tecnológico suficiente para causar um impacto de geração, como a gente via na época. É triste para com todo mundo. Falamos que a concorrência é sempre importante. Quem é sonysta, nintendista e tudo mais, a comunidade toda de gamers vai perder”, afirmou o jornalista.

Imagem da PS Store
O monopólio da Sony aponta para preços dinâmicos, jogos cobrados com valores adicionais e outros problemas (Imagem: Reprodução/Sony)

Nós do Canaltech convidamos cordialmente a Microsoft para falar sobre o assunto e explicar seus planos futuros para o Brasil, mas a equipe nacional do Xbox se recusou a oferecer um pronunciamento oficial.

Um futuro sombrio para o Xbox?

Com a contratação de Asha Sharma como CEO e a abertura de vagas de liderança na equipe de marketing, é notável que as operações da Microsoft em gaming estão prestes a mudar novamente. Para qual caminho seguirão, no entanto, segue em mistério.

A promessa da nova executiva é de que veremos o Xbox voltar aos seus tempos dourados. Porém, isso ainda é possível? Se sim, essa reformulação terá ecos no Brasil e nos demais países que foram “escanteados” ao redor do planeta?

Na visão de Nelson Alves Jr., este passado não voltará mais. Podemos ter algo diferente no futuro e que seja bom, mas os “tempos dourados” não retornarão para os fãs:

“Para ser honesto, nem sei se tem conserto. Falando como jogador, não vejo como algo que conseguirá entrar no rumo de novo. Me parece que os caras estão mais perdidos que cego em tiroteio. A sensação que tenho é essa, porque cada notícia que aparece, parece pior do que a anterior”.

Para ele, a Xbox no Brasil teve todas as oportunidades de brilhar e não retomaram a sua comunidade pelo simples “escanteamento” do próprio público.

“Eles tinham a faca e o queijo na mão, se você parar para pensar friamente. Tinham um sistema que funciona legal, uma comunidade engajada e que era bem atendida, que retribuía esse ‘entre aspas’ carinho — porque a gente fala de uma empresa e não se trata de carinho, se trata de lucro —, mas, de toda forma, tratava bem as pessoas, tratava bem os consumidores”, diz o ex-apresentador do Inside Xbox

Para ter sua comunidade de volta, não bastará oferecer o catálogo, aparecer em eventos aqui e trazer seus consoles de volta. Tem de trabalhar direto com a base, ao lado dos fãs, para se reerguer e reconquistar o seu lugar no coração do brasileiro. 

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