
Se voltarmos o relógio para o início da década de 90, o conceito de "jogar em qualquer lugar" era definido por uma tela monocromática esverdeada, quatro pilhas AA e cartuchos cinzas. O Game Boy não foi apenas um sucesso de vendas; ele estabeleceu o formato vertical, e posteriormente horizontal com o Advance, que moldaria a indústria por décadas. Ali, a portabilidade reinava sobre a potência gráfica, e a biblioteca de jogos era pensada especificamente para as limitações do hardware de bolso.
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Com o passar dos anos, vimos a evolução dessa ideia com o PSP, o Nintendo DS e, eventualmente, a fusão definitiva entre console de mesa e portátil com o Nintendo Switch. No entanto, o sonho do entusiasta de PC sempre foi diferente: rodar sua biblioteca da Steam, Epic ou GOG nativamente na palma da mão. O que parecia utopia há 10 anos, hoje é um dos segmentos mais aquecidos e movimentados da indústria de hardware.
A enxurrada pós-Steam Deck
Não dá para negar que o Steam Deck, da Valve, foi o catalisador dessa nova era. Ao provar que uma APU customizada, aliada a um sistema operacional otimizado (SteamOS) poderia entregar uma experiência sólida, o caminho foi aberto. Em seguida, a ASUS trouxe o ROG Ally (e suas revisões), apostando na familiaridade do Windows e telas de alta taxa de atualização; a Lenovo entrou na briga com o Legion Go, focando em telas maiores e controles destacáveis; e até a MSI tentou sua sorte com o Claw A8, apostando em CPU da Intel em um meio dominado pela AMD.
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Mas a guerra não é travada apenas pelos grandes nomes. O mercado foi inundado por marcas chinesas que, embora menores, são extremamente ágeis em lançar novas versões. Empresas como Ayaneo, GPD e OneXPlayer lançam modelos novos a cada poucos meses, testando formatos com teclados físicos, telas duplas e designs slide. Essas marcas preenchem nichos que as grandes empresas muitas vezes ignoram, oferecendo especificações de ponta para quem está disposto a pagar o preço do entusiasta.
O resultado é um mercado saturado, mas com muita oferta. Diferente dos consoles tradicionais que têm ciclos de vida de 7 anos, os consoles portáteis estão seguindo o ritmo frenético das placas de vídeo e processadores de desktop. Se você piscar, um novo modelo com uma revisão de chip ou uma tela OLED mais brilhante acabou de ser anunciado, criando uma paralisia de escolha no consumidor, que não sabe o que comprar com tanta escolha.
O salto de hardware e a eficiência
O que torna 2026 um ano promissor para esses dispositivos não é apenas a quantidade de modelos, mas o amadurecimento do silício. Até pouco tempo, colocar gráficos de ponta em um chassi compacto significava uma bateria que durava menos de uma hora ou um dispositivo que esquentava a ponto de incomodar as mãos. No entanto, os avanços recentes na litografia e nas arquiteturas de APUs mudaram o jogo.
Estamos vendo a chegada de chips focados em muita performance por watt. A AMD, com sua liderança consolidada nesse setor através da linha Ryzen Z baseada em arquiteturas Zen 5 e RDNA 3.5, conseguiu entregar taxas de quadros jogáveis em 1080p sem derreter a bateria na hora. Além disso, a popularização de memórias LPDDR5X de altíssima velocidade é crucial aqui, já que os gráficos integrados são famintos por largura de banda de memória.
Outro ponto importante desse avanço é o software, especificamente as tecnologias de upscaling como FSR, DLSS e XeSS. Em telas de 7 ou 8 polegadas, renderizar o jogo em uma resolução menor e fazer o upscale via IA ou algoritmos é quase imperceptível visualmente, mas libera uma grande carga do hardware. Isso permite que jogos AAA modernos rodem nos PCs portáteis com uma fluidez que seria impossível apenas com força bruta.
2026 e o desafio brasileiro
Olhando para 2026, a previsão é que a guerra se intensifique (mas com menos velocidade por conta da crise de memória RAM e SSD) com a chegada de uma nova geração de chips que prometem fechar ainda mais a lacuna entre os portáteis e os consoles de mesa básicos. Rumores sobre novas APUs com tecnologias de empilhamento de cache (semelhante ao 3D V-Cache que vemos nos desktops Ryzen 9000, mas adaptado para baixo consumo) podem trazer um grande salto de performance. Se o hardware atingir o ponto ideal de eficiência, 2026 pode consolidar os handhelds não como acessórios, mas como a plataforma principal de muitos gamers.
Porém, para nós, brasileiros, a realidade é mais dura. Enquanto lá fora a concorrência ajuda a derrubar preços, aqui o "custo Brasil" continua sendo o vilão. Grandes marcas como ASUS e Lenovo até trazem seus aparelhos oficialmente, mas com preços que muitas vezes rivalizam com notebooks gamers completos ou desktops intermediários competentes. E quando olhamos para as marcas chinesas de nicho, a barreira é ainda maior: sem representação oficial, dependemos de importação, ficando à mercê de taxas alfandegárias proibitivas e falta de garantia local.
Conclusão
O ano de 2026 tem tudo para ser o ápice da maturidade dos PCs portáteis. As tecnologias de bateria, telas e eficiência térmica finalmente estão alcançando a ambição dos fabricantes. Para o mercado global, a concorrência é excelente, forçando a inovação e preços competitivos. Para o gamer brasileiro, resta a esperança de que a popularização da categoria traga mais opções oficiais para o país, ou que, pelo menos, o mercado de usados se aqueça, permitindo que mais pessoas experimentem a liberdade de levar sua biblioteca da Steam no bolso.
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