
Por Eduardo Peixoto*
Saí da edição deste ano do South by Southwest (SXSW) com uma sensação incômoda. Ao longo de dias imerso em painéis e discussões em Austin, foi ganhando forma uma constatação de que o evento não era sobre tecnologia, e tampouco apenas sobre os novos limites da inteligência artificial. O debate central orbitava a transformação das relações humanas, algo muito mais profundo e, sem dúvida, mais disruptivo.
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Logo no início do festival, Rohit Bhargava trouxe à tona seu mantra clássico: “People who understand people always win” [Quem entende as pessoas sempre vence]. A frase parece quase óbvia, até percebermos o contexto atual. Estamos cruzando o limiar de uma era em que as máquinas caminham para, cada vez mais, entender as pessoas melhor do que nós mesmos.
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Essa provocação não foi um eco isolado, com Kasley Killam reforçando o papel vital das conexões sociais na nossa saúde. A psicoterapeuta Esther Perel nos instigou ao explorar as relações afetivas entre humanos e IA, não mais como uma metáfora distante, mas como uma possibilidade real e iminente, e quando Rana el Kaliouby questionou diretamente “Are robots outpacing humans?” [Os robôs estão ultrapassando os humanos?], a pergunta não soou trivial, mas como um aviso.
O fato é que talvez estejamos deixando de falar apenas sobre transformação digital, transformação organizacional ou mesmo human augmentation. Estamos entrando no território inexplorado da ‘IA Relacional’.
Até agora, nossa interação com a inteligência artificial tem sido mediada por prompts, e o próximo passo já está desenhado na arquitetura das novas soluções. Com a integração de sensores, análise de contexto, reconhecimento de voz, detecção de emoções e visão computacional, as máquinas deixam de apenas responder para começar a perceber, ao passo que a interface deixa de ser uma tela fria e passa a ser quase uma presença.
É aqui que reside a ruptura real. Vivemos uma combinação inquietante de ficções que se tornam realidade, com um misto da relação emocional de Her, da indistinção entre humano e máquina de Blade Runner e da busca por amor e pertencimento de A.I. — Inteligência Artificial.
IA que observa, entende e responde
E se a IA puder oferecer empatia constante, atenção plena, ausência absoluta de julgamento e disponibilidade infinita? Tudo isso sem conflitos, sem fricção, sem desgaste.
Esther Perel relembrou o mito grego de Pigmaleão, o escultor que se apaixona por sua própria criação. De certa forma, a humanidade já ensaiava isso com a otimização estética e a performance ampliada, mas o salto agora é de outra magnitude. Não estamos mais apenas "aperfeiçoando humanos"; estamos criando “companhias ideais”.
Isto posto, a pergunta central e bastante preocupante que trago do evento é: E se preferirmos as máquinas? O dilema deixa de ser somente se a IA será mais inteligente, mas se ela será mais desejável.
O que acontece quando a conversa é sempre boa, quando o outro sempre nos entende e a frustração desaparece? O que acontece com a intimidade real, com a resiliência gerada pelo conflito e com o nosso crescimento emocional? Em outras palavras, o que acontece com os relacionamentos humanos quando eles deixam de ser a nossa melhor opção?
Talvez o SXSW deste ano não tenha sido sobre tecnologia porque marcou o deslocamento muito mais profundo da inteligência para a conexão, da automação para a relação, da eficiência para o afeto. O evento colocou diante de nós uma escolha para a qual ainda não sabemos se estamos prontos: continuar lidando com humanos imperfeitos ou migrar para relações perfeitamente artificiais.
Se a última década foi sobre digitalizar o mundo, a próxima pode ser sobre redefinir o que significa estar junto, e isso, definitivamente, não é um problema tecnológico. É um problema humano.
Eduardo Peixoto é CEO do CESAR, doutor em Eng. de Software e especialista global em inovação
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