A OpenAI, a empresa por trás do ChatGPT, anunciou um passo que muitos temiam, mas que parecia inevitável diante de sua situação financeira: a introdução de anúncios em seu serviço. Os planos “ChatGPT Go” (o nível pago mais barato, a US$ 8/mês) e o nível gratuito começarão a exibir propagandas para usuários nos EUA nas próximas semanas, em um teste inicial. Os planos Plus (US$ 20/mês), Pro, Business e Enterprise permanecerão livres de anúncios.
A corrida pela Inteligência Artificial Geral (AGI) está cobrando seu preço. Relatórios indicam que a OpenAI perdeu mais de US$ 11,5 bilhões apenas no terceiro trimestre de 2025, com compromissos de gastos que ultrapassam a marca do trilhão de dólares. Com uma base de usuários onde mais de 90% não paga (apenas cerca de 35 milhões de um total estimado de 700 milhões de usuários semanais pagam pelos planos Plus ou Pro), a publicidade parece ser a rota mais viável para monetizar a massa de usuários e subsidiar os custos astronômicos de infraestrutura.
Promessas de transparência e controles de privacidade
Em um comunicado, Fidji Simo, CEO de Aplicações da OpenAI, buscou acalmar os temores dos usuários. A empresa promete que os anúncios:
- Não influenciarão as respostas do ChatGPT;
- Serão “otimizados com base no que é mais útil para você” e claramente identificados;
- Serão bloqueados para usuários menores de 18 anos e em consultas sobre tópicos sensíveis, como saúde ou política;
- Não utilizarão o conteúdo das conversas privadas para direcionamento de anúncios de terceiros. “Mantemos suas conversas com o ChatGPT fora do alcance de anunciantes e nunca vendemos seus dados”, afirmou Simo.
A empresa também promete dar aos usuários controle sobre a personalização e a capacidade de desativá-la.
Confiança vs. incentivo comercial
Especialistas em privacidade e governança de IA, no entanto, soam o alarme. Miranda Bogen, diretora do AI Governance Lab do Center for Democracy and Technology, argumenta que o modelo de negócios baseado em anúncios segmentados cria incentivos perigosos para a privacidade, mesmo sem o compartilhamento direto de dados.
“Quando as ferramentas tentam explorar a confiança para vender produtos, isso pode ser problemático”, disse Bogen. Ela destaca que as pessoas usam os chatbots para uma variedade de funções íntimas, como companhia, aconselhamento informal e terapia, criando uma relação única de confiança. A introdução de anúncios, especialmente os personalizados, arrisca minar essa confiança e repetir os erros e danos decorrentes da publicidade personalizada nas mídias sociais.
A OpenAI se encontra em um dilema institucional: como financiar um serviço universal e caríssimo sem comprometer os princípios que diz defender? A promessa de que a busca pela AGI “beneficiará toda a humanidade” soa cada vez mais tensionada pela necessidade urgente de gerar receita.
Bloqueadores de anúncios preparados
Para os usuários relutantes, a saída pode ser técnica. Desenvolvedores de extensões de bloqueio de anúncios já afirmam que suas ferramentas podem bloquear anúncios no ChatGPT quando acessado via navegador. No entanto, essa pode ser uma batalha difícil de vencer nos aplicativos nativos, onde o controle sobre o tráfego é maior.
O teste da Perplexity, outro chatbot concorrente, com anúncios nativos, não foi bem-sucedido e foi pausado, sugerindo que a integração de publicidade nesse novo meio é um território inexplorado e desafiador. Seja como for, estamos vendo a era da IA generativa “gratuita” e sem custos aparentes minguando.Fique por dentro das principais novidades da semana sobre tecnologia e Linux: receba nossa newsletter!