O serviço de preservação de jogos eletrônicos Myrient, que reúne mais de 390 terabytes de títulos clássicos, encerrará suas atividades no final deste mês. O anúncio foi feito por seu responsável em mensagens publicadas nos canais oficiais da plataforma. Até o dia 31 de março, o conteúdo continuará disponível. Depois disso, sairá do ar definitivamente.
A notícia provocou reação imediata em comunidades dedicadas à preservação digital. Embora a legalidade do acervo sempre tenha sido questionada, já que o site hospedava ROMs e arquivos sem autorização formal dos detentores de direitos, o encerramento pode ser visto como uma perda significativa para a memória histórica dos videogames.
As razões financeiras por trás da decisão
No comunicado, o administrador apontou a falta de financiamento como principal motivo para o fechamento. Segundo ele, o tráfego do site aumentou consistentemente ao longo do último ano, mas o volume de doações permaneceu estável. Para cobrir a diferença entre arrecadação e custos operacionais, vinha desembolsando mais de seis mil dólares mensais do próprio bolso.
A situação se agravou com a criação de gerenciadores de download que burlavam a interface do site, ignorando mensagens de doação e mecanismos de proteção. Alguns desses programas passaram a cobrar pelo acesso facilitado aos arquivos, explorando comercialmente um serviço que, segundo o responsável, sempre proibiu qualquer uso com fins lucrativos.
Outro fator determinante foi a elevação dos custos de infraestrutura. Desde o segundo semestre de 2025, os preços de memória RAM, SSDs e discos rígidos registraram alta significativa, impulsionada pela demanda crescente de data centers voltados à inteligência artificial. Com dezenas de servidores e necessidade constante de expansão de armazenamento e cache, o Myrient passou a enfrentar despesas cada vez mais elevadas.
Em síntese, afirmou o administrador, tornou-se impossível sustentar financeiramente a operação.
A zona cinzenta da preservação digital
Muitos títulos clássicos permanecem indisponíveis por meios oficiais. Desenvolvedores e publicadoras encerraram atividades, contratos de licenciamento se perderam ao longo do tempo e, em alguns casos, o próprio código-fonte desapareceu.
Nesse contexto, iniciativas como o Myrient são alternativas informais para manter obras acessíveis. No entanto, operam em uma área juridicamente delicada. A legislação de direitos autorais raramente contempla de forma clara a preservação de jogos digitais quando não há autorização expressa dos titulares.
O resultado é um cenário fragmentado, em que parte da memória cultural dos videogames depende de projetos voluntários, sustentados por doações e sujeitos a insegurança jurídica e interrupções abruptas.
Tentativas de solução no mercado formal
Nos últimos anos, algumas empresas têm buscado resgatar títulos antigos para plataformas modernas. A GOG tornou-se referência ao relançar jogos clássicos adaptados a sistemas atuais e disponibilizá-los sem mecanismos de DRM. Ainda assim, a permanência desses títulos no catálogo não é garantida. Decisões de detentores de direitos podem levar à retirada de obras a qualquer momento.
Outras publicadoras investem em remasterizações e relançamentos comerciais. Embora essas iniciativas ampliem o acesso, nem sempre preservam integralmente a experiência original. Ajustes gráficos, alterações em trilhas sonoras e remoção de conteúdos licenciados são frequentes, devido às limitações legais e técnicas.
Essas estratégias demonstram haver interesse econômico na herança do setor, mas não resolvem completamente o problema da preservação histórica ampla e sistemática.
Restando menos de um mês até o encerramento do Myrient, usuários correm para baixar arquivos considerados raros. A indústria de videogames continua envelhecendo rapidamente, enquanto mecanismos institucionais de preservação avançam de forma lenta e desigual.
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