Após 30 anos, o IPv6 ainda não dominou o mundo

Após 30 anos, o IPv6 ainda não dominou o mundo

No início dos anos 90, os arquitetos da internet olharam para o futuro e enxergaram um apocalipse digital. O estoque de endereços do Protocolo de Internet versão 4 (IPv4) — os famosos números como 192.168.1.1 que identificam cada dispositivo online — estava se esgotando rapidamente. Com a explosão comercial da rede batendo à porta, a comunidade técnica entrou em ação para evitar um colapso que, temiam, estrangularia a economia global. A solução nasceu em dezembro de 1995: o RFC 1883, a primeira definição do IPv6.

Trinta anos depois, os dados do Google e da Cloudflare contam uma história inesperada: menos da metade dos usuários da internet usa IPv6 hoje. Se a missão era substituir o IPv4, o plano falhou redondamente. Mas e se a premissa estiver errada? Especialistas argumentam que, visto por outro ângulo, o IPv6 cumpriu um papel fundamental, tornando-se um sucesso paradoxal.

Por que o IPv6 não “vingou” como esperado?

A grande promessa do IPv6 era um oceano de endereços. Ele expandiu o espaço de 32 bits do IPv4 para 128 bits, um salto de 4.3 bilhões para 340 undecilhões de endereços, um número de 39 dígitos considerado “à prova de futuro”. No entanto, essa foi praticamente sua única inovação radical.

“O IPv6 foi um protocolo extremamente conservador que mudou o mínimo possível”, avalia Geoff Huston, cientista-chefe da APNIC (Centro de Informação de Rede da Ásia-Pacífico). “Foi um caso clássico de erro de design por comitê.” Esse comitê tomou uma decisão crítica: o IPv6 não seria compatível com o IPv4. A migração seria um salto, não uma transição.

Enquanto isso, no mundo real, duas inovações garantiram a sobrevida do IPv4:

  • NAT (Network Address Translation): A tecnologia que permite que sua casa inteira, com dezenas de dispositivos, compartilhe um único endereço IPv4 público. O NAT tornou os endereços existentes incrivelmente mais eficientes;
  • Implementação retroativa de features: Muitas melhorias de segurança, qualidade de serviço e configuração automática planejadas para o IPv6 acabaram sendo implementadas no próprio IPv4, reduzindo ainda mais a vantagem do novo protocolo.

“Dada a pequena quantidade de nova funcionalidade no v6, não é tão surpreendente que a implantação tenha sido uma luta de 30 anos”, resume Bruce Davie, cientista da computação premiado por suas contribuições fundamentais para protocolos de rede.

O resultado foi um impasse. Para empresas e provedores, migrar para o IPv6 significava custos altos, complexidade técnica e um retorno sobre investimento (ROI) duvidoso no curto prazo, como explica Andrew Lerner, analista da Gartner. Por que trocar um sistema que funciona, ainda que com remendos, por outro que exige uma revisão completa da infraestrutura sem benefícios imediatos e palpáveis?

O sucesso discreto

Aqui está a virada de perspectiva: e se o objetivo do IPv6 nunca tivesse sido substituir o IPv4, mas sim aliviar a pressão sobre ele para que a internet pudesse continuar crescendo?

“O IPv6 não era sobre desligar o IPv4, mas sobre garantir que a internet pudesse continuar a crescer sem quebrar”, afirma John Curran, presidente e CEO da ARIN (Registro Americano de Números da Internet). “Na verdade, a viabilidade contínua do IPv4 se deve em grande parte ao fato de o IPv6 ter absorvido essa pressão de crescimento em outros lugares.”

E onde o IPv6 triunfou? Exatamente nas frentes de crescimento mais explosivo dos últimos 15 anos:

  • Redes móveis (4G/5G): Quando você acessa a internet pelo celular, há uma enorme chance de estar usando IPv6. A implementação vem nativa e a escala bilionária de smartphones exigiu o espaço de endereços gigantesco que só o IPv6 poderia fornecer;
  • Grandes provedores de cloud e conteúdo: Empresas como Google, Facebook e Cloudflare adotaram o IPv6 massivamente em seus backbones. Isso garante que o tráfego entre seus data centers seja eficiente e escalável;
  • Internet das coisas (IoT) e novas fronteiras: Projetos como a Starlink, que solicitou 150 sextilhões de endereços IPv6, ou a Huawei, que buscou 2,56 decilhões, mostram que novas infraestruturas em escala global nascem já no IPv6. Para conectar bilhões de sensores, carros e dispositivos, não há outra alternativa.

“O que o IPv6 acertou foi o seu design de longo prazo”, complementa Alvaro Vives do RIPE NCC. “Ele permite que as redes sejam planejadas de forma mais simples e consistente, o que tem possibilitado inovação.”

A visão para o futuro próximo não é uma vitória final do IPv6, mas uma coexistência pragmática e prolongada. Especialistas aconselham empresas a não ignorarem mais o protocolo. A hora é de criar planos de migração detalhados, validar a compatibilidade de aplicações e garantir que toda nova infraestrutura seja dual-stack (suporte a IPv4 e IPv6).

O motivo é econômico e inevitável: o esgotamento completo dos endereços IPv4 no mercado secundário elevará seus custos, enquanto provedores de nuvem podem começar a criar modelos de preço que favoreçam o tráfego IPv6. A migração se tornará, lentamente, a opção mais barata.

Paradoxalmente, Geoff Huston vê um futuro onde o próprio conceito de endereço IP fixo para clientes perde centralidade. Tecnologias como o QUIC (base do HTTP/3) e uma internet cada vez mais orientada a nomes de serviço (DNS) e não a endereços IP, podem tornar o debate “IPv4 vs. IPv6” menos relevante. Fique por dentro das principais novidades da semana sobre tecnologia e Linux: receba nossa newsletter!