O mercado de smartwatches é movido por ciclos curtos. A cada dois ou três anos, modelos são substituídos, atualizações cessam e dispositivos ainda funcionais passam a habitar a gaveta. O lançamento do AsteroidOS 2.0, oito anos após a versão 1.0, aposta na contramão dessa lógica: transformar relógios abandonados em plataformas abertas, atualizadas e sob o controle do usuário.
Baseado em Linux e desenvolvido por uma comunidade global, o projeto se apresenta como alternativa a sistemas proprietários como o Wear OS, do Google, e o watchOS, da Apple. A proposta é simples na formulação e ambiciosa na prática: oferecer um sistema livre, sem telemetria invasiva, sem dependência obrigatória de nuvem e com foco na longevidade do hardware.
Um sistema para quem não quer descartar
O AsteroidOS nasceu com três princípios: privacidade em primeiro lugar, responsabilidade ambiental e educação aberta. Ao permitir que relógios descontinuados recebam um novo sistema, o projeto prolonga a vida útil de dispositivos que, de outra forma, seriam descartados.
Sob o capô, ele é construído com base no OpenEmbedded, utiliza Qt/QML para a interface gráfica e recorre ao BlueZ para conectividade Bluetooth. Não é um “fork” de plataformas comerciais, mas um sistema independente, moldado para funcionar em hardware já existente.
A versão 2.0 marca um ponto de inflexão. Após anos de desenvolvimento gradual, a comunidade consolidou um pacote de melhorias que aproxima a experiência daquilo que o consumidor espera de um smartwatch moderno.
Recursos que atualizam a experiência
Entre as principais novidades estão o Always-on Display, que mantém a tela permanentemente visível, o Tilt-to-wake, que acende o visor ao levantar o pulso, e o Palm-to-sleep, que apaga a tela ao cobri-la com a mão. São gestos já naturalizados no universo dos relógios inteligentes, agora incorporados ao ecossistema aberto.
O sistema também passa a oferecer um aplicativo dedicado ao monitoramento cardíaco, suporte inicial à contagem de passos, bússola e compatibilidade com Bluetooth HID e áudio. Um aplicativo de lanterna foi incluído, assim como o jogo Diamonds, inspirado no clássico 2048, adaptado para telas pequenas.

Redesenho e usabilidade
A atualização não se limita a funções. O antigo menu QuickSettings foi substituído por um QuickPanel mais flexível, com atalhos configuráveis, novos controles e temporizador de desligamento. Sete estilos adicionais de lançador de aplicativos ampliam as possibilidades de personalização.
O modo Nightstand transforma o relógio de pulso em relógio de cabeceira, com indicador de carregamento ampliado. A galeria de watchfaces agora exibe prévias combinadas com o papel de parede escolhido, facilitando ajustes visuais. A tipografia do sistema migrou para o Noto Sans, ampliando o suporte multilíngue, totalizando 49 idiomas, incluindo o português.
A equipe também substituiu o conjunto de emojis por Twemoji e implementou melhorias de renderização que tornam animações e transições mais suaves. Otimizações de bateria e correções de estabilidade completam o pacote.

Mais relógios, uma comunidade maior
Desde a versão 1.0, o número de dispositivos compatíveis cresceu significativamente. Modelos de fabricantes como Fossil, Huawei, LG, Motorola, Oppo, Polar e TicWatch passaram a contar com suporte oficial ou parcial. Ao todo, cerca de 30 relógios aparecem na galeria do projeto, alguns classificados como experimentais devido a limitações de hardware ou estabilidade.
Em paralelo, os clientes de sincronização evoluíram. O aplicativo AsteroidOS Sync para Android ganhou detecção de chamadas, uma nova biblioteca Bluetooth e arquitetura mais modular. O projeto também passou a integrar o Gadgetbridge, solução de código aberto para conexão com dispositivos vestíveis, além de clientes para SailfishOS e Ubuntu Touch.
Um laboratório no pulso
Há ainda um aspecto pedagógico. O código do sistema pode ser modificado em QML/Qt, JavaScript ou C. A comunidade mantém guias para criação de watchfaces e repositórios de aplicativos, abrindo espaço para experimentação. Alguns desenvolvedores já demonstraram jogos emulados e ferramentas que exploram sensores específicos de certos modelos.
O AsteroidOS 2.0 não promete competir em escala com gigantes da tecnologia. Sua força reside em outro ponto: oferecer uma alternativa viável para quem deseja controle, transparência e sustentabilidade. Em um mercado que frequentemente transforma hardware funcional em sucata digital, o projeto sugere que o tempo, quando aliado ao software livre, pode ser seu melhor amigo.
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