A missão Artemis II marcou um momento histórico: pela primeira vez em mais de 50 anos, humanos voltaram a orbitar a Lua, um marco que conecta diretamente o presente à era das missões Apollo.
A atenção naturalmente se volta para o gigantesco foguete Space Launch System e para a cápsula Orion spacecraft, onde os quatro astronautas vivem durante a missão. Mas, por trás de toda essa engenharia impressionante, existe um elemento menos visível e absolutamente essencial: o ecossistema de software livre e código aberto.
Um marco histórico que começou décadas atrás
A missão Artemis II faz parte de um programa mais amplo da NASA, cujo objetivo é estabelecer uma presença sustentável na Lua e preparar o caminho para futuras missões a Marte. Diferente da Artemis I, realizada em 2022 sem tripulação, esta missão leva humanos novamente ao espaço profundo.
Esse tipo de operação exige níveis extremos de confiabilidade. Embora o treinamento dos astronautas dure anos, a base tecnológica por trás da missão vem sendo construída há décadas. E é nesse ponto que o open source entra como peça-chave.
Antes mesmo do lançamento, uma enorme quantidade de testes é realizada em simuladores. A empresa Lockheed Martin, responsável pela Orion, utiliza infraestrutura baseada em Red Hat Enterprise Linux e OpenStack para criar ambientes de simulação extremamente complexos.
Esses sistemas permitem rodar múltiplas versões do software de voo em paralelo, simulando milhares de cenários, inclusive falhas críticas. Isso seria praticamente inviável sem a flexibilidade e escalabilidade proporcionadas pelas tecnologias abertas escolhidas.
Já nos testes mais próximos do hardware real, entra em cena o RedHawk Linux, uma distribuição com suporte a tempo real. Nesse contexto, precisão é requisito. Diferenças de microssegundos podem ser a linha entre sucesso e falha.
Comunicação interplanetária: a “internet” da NASA
Manter contato com uma nave a centenas de milhares de quilômetros de distância não é trivial. Para isso, a NASA utiliza a Deep Space Network, uma rede global de antenas distribuídas pelos Estados Unidos, Espanha e Austrália.
Grande parte da infraestrutura que processa telemetria e dados dessa rede roda em sistemas Linux. Além dela, existe a Near Space Network, responsável por comunicações mais próximas, incluindo a órbita lunar.
Essas redes utilizam tecnologias avançadas, incluindo comunicação por laser, que já permite transmissões de alta velocidade, abrindo caminho para algo que, até pouco tempo atrás, parecia absurdo: streaming em 4K direto da Lua.
O coração do software: NASA cFS
Entre os projetos mais importantes está o NASA Core Flight System, ou cFS. Trata-se de um framework de software de voo modular, utilizado em diversas missões.
O cFS funciona como uma camada intermediária entre o sistema operacional e as aplicações da nave, gerenciando telemetria, comunicação e monitoramento. Seu desenvolvimento é aberto e colaborativo, com código disponível publicamente.
Mais interessante ainda: o próprio desenvolvimento e compilação do cFS acontecem majoritariamente em ambientes Linux, como Debian, Ubuntu e Red Hat.
Interfaces modernas: menos botões, mais software
Uma curiosidade: a cápsula Orion possui cerca de 60 botões físicos. Para comparação, o ônibus espacial tinha mais de mil.
Essa mudança foi possível graças à adoção de interfaces digitais desenvolvidas com tecnologias como o OpenGL SC. Trata-se de uma versão do OpenGL voltada para sistemas críticos, onde falhas não são aceitáveis.
O conceito é semelhante ao dos smartphones: em vez de hardware fixo, utiliza-se software para adaptar interfaces conforme necessário. Isso reduz a complexidade e aumenta a flexibilidade, algo essencial em missões espaciais.

Controle da missão: open source também na Terra
No controle da missão, outro projeto relevante é o OpenMCT. Ele permite visualizar dados em tempo real, tanto em desktops quanto em dispositivos móveis.
Embora não esteja embarcado na nave, ele desempenha um papel fundamental na operação da missão aqui na Terra, demonstrando mais uma vez como o open source permeia todo o ecossistema.
E o sistema operacional da nave?
Curiosamente, o “cérebro” da Orion não roda Linux. Ele utiliza o VxWorks, um sistema operacional proprietário de tempo real amplamente utilizado na indústria aeroespacial.
Isso acontece por um motivo simples: determinismo. Em sistemas críticos, não basta ser rápido, é necessário ser previsível. Se um comando precisa ser executado em 1 milissegundo, ele deve ocorrer exatamente nesse tempo, sem variações.
Embora existam versões do Linux adaptadas para serem determinísticas, como as utilizadas por empresas como a SpaceX, a NASA opta por soluções já amplamente testadas em missões anteriores. Ainda assim, o papel do Linux é enorme. Se o VxWorks é o “coração”, o Linux funciona como o sistema nervoso ao redor.
Computadores dos astronautas
Dentro da cápsula, os astronautas utilizam dispositivos mais próximos do cotidiano, como tablets e laptops comerciais. Modelos da Lenovo e da HP são frequentemente adaptados para uso espacial.
Esses dispositivos podem rodar tanto Linux quanto Windows 11, dependendo da aplicação. Em alguns casos, são usados para tarefas simples, como consulta de documentos em PDF ou monitoramento de sistemas.
Há inclusive relatos curiosos durante transmissões ao vivo da missão, como problemas no Outlook, comprovando o uso de Windows com todas as suas peculiaridades.
O custo de levar tecnologia ao espaço
Levar qualquer equipamento ao espaço é caro. Estimativas indicam que transportar 1 kg até a Lua pode custar cerca de 1 milhão de dólares.
Isso torna soluções digitais, como documentação em PDF, muito mais eficientes do que alternativas físicas. Além disso, formatos abertos permitem maior flexibilidade e independência tecnológica.
Linux cada vez mais presente
O futuro da exploração espacial aponta para uma presença ainda maior do Linux e do open source. Iniciativas como o “Space Grade Linux”, apoiadas pela Linux Foundation, buscam criar uma base comum para sistemas espaciais.
A ideia é semelhante ao Automotive Grade Linux, utilizado na indústria automotiva. Ao adotar padrões abertos, diferentes organizações podem colaborar, reduzir custos e aumentar a confiabilidade.
Além disso, a NASA já estuda o uso de arquiteturas abertas como RISC-V, numa busca por mais independência tecnológica.
Muito além da Lua
A missão Artemis II representa muito mais do que um retorno à órbita lunar. Ela simboliza uma nova era de exploração, construída sobre décadas de inovação e colaboração.
O Linux e o open source podem não estar visíveis para o público geral, mas estão presentes em praticamente todas as camadas dessa operação: dos simuladores ao controle da missão, das redes de comunicação aos sistemas de desenvolvimento.
Sem esse ecossistema, simplesmente não seria possível alcançar o nível de complexidade e confiabilidade exigido por uma missão desse porte.
No fim das contas, enquanto os olhos estão voltados para o céu, boa parte do que torna tudo isso possível continua acontecendo nos bastidores, em linhas de código escritas, revisadas e compartilhadas por pessoas ao redor do mundo.
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