Fedora 44 KDE: recomeçando do zero depois de anos evitando o Plasma

Fedora 44 KDE: recomeçando do zero depois de anos evitando o Plasma

Durante muito tempo eu tive uma relação meio complicada com o KDE Plasma. E isso é curioso de admitir porque, lá em 2013 e 2014, eu passei praticamente um ano inteiro usando KDE como ambiente principal. Naquela época, ele era o meu desktop favorito. Gostava da flexibilidade, da quantidade absurda de opções e daquela sensação de que o sistema podia ser moldado exatamente do jeito que eu queria.

Mas os anos passaram e, toda vez que eu voltava para o Plasma para testar alguma distro ou gravar um vídeo, a experiência raramente era tão positiva quanto eu esperava. Não necessariamente porque o Plasma fosse ruim. Muitas vezes, o problema parecia estar em outra camada da experiência.

Até hoje eu sinto que poucas distribuições conseguem entregar um KDE realmente polido do começo ao fim. Existe uma diferença muito grande entre “ter uma edição KDE” e realmente construir uma experiência pensada para aquele ambiente. O Linux Mint faz isso com o Cinnamon. O Zorin OS faz isso com o GNOME. Existe um cuidado perceptível em integrar aplicativos, aparência, comportamento e fluxo de uso.

Com o KDE, frequentemente eu sentia que estava usando peças excelentes que nem sempre conversavam tão bem entre si. Ainda assim, algumas coisas começaram a mudar nos últimos meses.

O Bazzite me fez olhar para o KDE de outro jeito

Desde dezembro do ano passado eu vinha usando o KDE Plasma em dual boot com o Pop!_OS graças ao Bazzite. E isso foi importante porque talvez tenha sido a primeira vez em muitos anos que eu tive uma experiência consistentemente boa com Plasma em uma máquina pessoal.

O Bazzite resolve várias coisas automaticamente. Drivers, codecs, ajustes para jogos, integração de hardware; ele simplesmente funciona sem exigir aquela tradicional sessão de configuração pós-instalação que tantas distribuições Linux ainda parecem exigir. Além disso, a proposta imutável do sistema me agradou bastante.

Existe algo muito confortável na ideia de usar um sistema onde as atualizações acontecem de forma mais controlada e previsível, reduzindo a chance de você quebrar alguma coisa no meio do caminho. Principalmente quando o computador é uma ferramenta de trabalho.

Mas essa mesma imutabilidade também traz limitações. Algumas tarefas simples acabam ficando mais burocráticas. Certas personalizações exigem caminhos alternativos. Algumas instalações deixam de ser tão diretas quanto seriam em um Fedora tradicional, por exemplo.

E foi aí que surgiu a dúvida: se o Fedora 44 melhorou bastante a experiência com o KDE Plasma, como seria usar o sistema “na origem”, sem as camadas extras do Bazzite? Afinal, o próprio Bazzite é baseado no Fedora.

A decisão de trocar o Bazzite pelo Fedora 44 KDE

No fim das contas, só existe uma maneira real de descobrir se essas diferenças importam no uso diário: testando. Então eu resolvi substituir o Bazzite pelo Fedora 44 KDE e começar uma nova experiência do zero.

E já que eu inevitavelmente teria que configurar todo o sistema outra vez, achei interessante aproveitar o processo para reorganizar o meu setup inteiro do Plasma e revisitar várias configurações que eu normalmente faço quando uso esse ambiente.

Sem aquele tipo de instalação onde você roda um comando gigante e reaplica anos de customizações em cinco minutos.

Dessa vez eu queria configurar tudo manualmente, justamente para observar melhor os detalhes da experiência. Porque uma coisa é usar um desktop pronto. Outra é entender como ele se comporta quando você realmente começa a moldá-lo para o seu fluxo de trabalho.

O Plasma continua extremamente poderoso e pouco intuitivo

Existe uma característica do KDE Plasma que permanece exatamente igual depois de todos esses anos: ele continua sendo um dos desktops mais flexíveis do Linux. E ao mesmo tempo, continua sendo um dos menos intuitivos em vários aspectos. Isso aparece logo nas primeiras modificações.

Uma das primeiras coisas que eu fiz foi centralizar os ícones da barra de tarefas. Em monitores grandes, especialmente em telas 4K de 32 polegadas como a que eu uso, deixar todos os aplicativos alinhados no canto esquerdo cria uma sensação estranha de distância. Você acaba movendo o olhar e o mouse mais do que gostaria para acessar coisas básicas.

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No GNOME ou até no Windows moderno, isso normalmente seria uma simples opção de “centralizar ícones”. No Plasma, não. Você precisa entender a lógica do painel, adicionar espaçadores manualmente e posicioná-los corretamente antes e depois dos ícones para criar o efeito desejado.

Funciona perfeitamente, mas não é intuitivo.

E isso resume muito da experiência do KDE. Ele quase sempre permite fazer exatamente o que você quer, só que frequentemente por meio de caminhos que parecem mais técnicos do que o necessário.

O KRunner virou o centro do meu fluxo de trabalho

Outra mudança importante foi reorganizar a forma como eu abro aplicativos. O KRunner talvez seja um dos recursos mais subestimados do KDE Plasma. Ele funciona como uma espécie de Spotlight do macOS: um lançador rápido capaz de abrir aplicativos, acessar configurações, executar comandos e pesquisar arquivos.

Por padrão, ele abre no topo da tela usando o atalho Alt + Espaço. Eu preferi mover ele para o centro da tela e trocar o atalho para a tecla Super. Parece uma mudança pequena, mas altera completamente a sensação de uso do sistema.

Quando os ícones estão centralizados e o launcher também aparece no centro, o desktop inteiro fica mais confortável visualmente. Você para de depender tanto dos cantos da tela e o fluxo de interação começa a acontecer numa área mais natural do monitor.

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O curioso é que o KRunner já possui comportamentos muito inteligentes escondidos dentro do Plasma. Muita gente nem sabe, por exemplo, que se você estiver na área de trabalho e começar a digitar, ele aparece automaticamente sem precisar de atalho nenhum.

Esse tipo de detalhe mostra como o Plasma possui recursos extremamente interessantes, mas frequentemente pouco descobríveis.

Configurar o Dolphin foi quase um projeto paralelo

Se teve uma parte desse setup que realmente consumiu tempo, foi o Dolphin. O gerenciador de arquivos do KDE é extremamente poderoso, mas ele vem carregado de opções, menus e comportamentos que nem sempre fazem sentido para o meu uso.

Por padrão, o Dolphin tenta ser completo em tudo. O problema é que completude nem sempre significa eficiência. Então boa parte do processo foi remover o excesso.

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Ocultar partições que eu não uso frequentemente. Remover áreas como “arquivos recentes”. Simplificar o menu de contexto. Reorganizar botões da barra superior. Criar atalhos personalizados para pastas importantes. A diferença visual parece pequena, mas a diferença no uso diário é enorme.

Uma coisa interessante do Dolphin é que ele permite transformar praticamente qualquer função em algo mais acessível ou esconder completamente aquilo que você nunca usa.

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Eu removi várias opções do menu de clique direito simplesmente porque elas adicionavam ruído. Funções relacionadas a criptografia, apresentações de slides, estatísticas de disco e integrações específicas acabavam deixando o menu mais lento visualmente.

E isso toca num ponto importante sobre produtividade em desktops Linux: produtividade nem sempre significa adicionar funções. Muitas vezes significa remover distrações.

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A eterna questão da integração visual no Linux

Durante a configuração, apareceu uma questão clássica do Linux desktop: a integração entre aplicativos GTK e Qt.

Em determinado momento, precisei usar o gerenciador de discos do GNOME porque a ferramenta equivalente do KDE simplesmente não estava me mostrando as opções que eu precisava para configurar a montagem automática de discos.

E isso gerou aquele momento estranho em que aplicativos GTK estavam usando tema Breeze do KDE. Tecnicamente funciona, mas visualmente sempre existe alguma inconsistência.

Foi uma situação curiosa porque eu percebi que talvez eu prefira justamente o contrário: deixar aplicativos GTK com aparência GTK mesmo, usando Libadwaita, ao invés de tentar forçar uma integração visual incompleta.

O Bazzite, inclusive, lida relativamente bem com isso. Essa talvez seja uma das diferenças mais perceptíveis entre usar Linux e usar sistemas como Windows ou macOS. No Linux desktop, ainda existe uma sensação de múltiplos ecossistemas convivendo juntos. Às vezes isso é libertador, mas frequentemente só parece bagunçado mesmo.

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Pequenos ajustes fazem mais diferença do que grandes customizações

Uma coisa que ficou muito clara durante esse setup é que boa parte da sensação de conforto num desktop não vem de grandes modificações visuais. Ela vem dos pequenos ajustes acumulados.

Desativar as notificações permanentemente durante gravações. Configurar o sistema para nunca apagar a tela. Organizar dispositivos de áudio para esconder entradas inúteis. Renomear saídas de som para identificar rapidamente cada dispositivo. Tudo isso parece detalhe até você usar o computador oito ou dez horas por dia.

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No Linux, principalmente no KDE Plasma, existe uma tendência muito forte das pessoas associarem customização apenas com aparência. Trocar tema, mudar animação, instalar widgets, transformar o desktop numa nave espacial RGB.

Mas as mudanças que realmente melhoram minha experiência quase sempre têm mais relação com fluxo de trabalho do que com estética. Até o efeito “wobbly windows”, que eu ativei puramente por diversão, acaba servindo mais como uma pequena assinatura visual do sistema do que como uma grande modificação estética.

O Fedora 44 KDE parece mais maduro do que o Plasma que eu lembrava

Uma das maiores surpresas desse processo foi perceber o quanto a experiência geral do KDE Plasma parece mais consistente hoje. Ainda existem decisões confusas e menus excessivamente complexos. Ainda existem situações em que você sente que o sistema oferece liberdade demais sem necessariamente orientar o usuário.

Mas o Plasma atual parece mais estável emocionalmente, por assim dizer. Menos imprevisível, menos frágil, menos propenso àquela sensação clássica de que qualquer alteração pode gerar um comportamento estranho em algum lugar. O Fedora 44 também parece ajudar bastante nisso.

Mesmo sem as facilidades automáticas do Bazzite, a experiência geral está surpreendentemente sólida. Drivers, desempenho, Wayland, responsividade e integração geral parecem num ponto muito melhor do que eu lembrava dos meus testes antigos com KDE. Claro, ainda estou no começo da experiência.

Configurar o sistema é uma coisa. Conviver com ele diariamente é outra completamente diferente.

Agora que o setup principal está pronto, começa a parte mais importante: viver com o sistema. Ainda preciso entrar nas minhas contas, ajustar aplicativos específicos, reorganizar alguns fluxos e descobrir quais pequenas irritações só aparecem depois de dias de uso contínuo.

Minha ideia é usar o Fedora 44 KDE por pelo menos 30 dias antes de tirar conclusões mais definitivas. Principalmente porque quero comparar diretamente essa experiência com o Bazzite, que até agora foi a implementação de KDE Plasma que mais me convenceu nos últimos anos.

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