Google quer regulamentação para IA, mas defende um modelo favorável à indústria

Google quer regulamentação para IA, mas defende um modelo favorável à indústria

Durante os últimos anos, as principais empresas de inteligência artificial passaram a defender publicamente a criação de regras para o desenvolvimento dessa tecnologia. No entanto, conforme governos começam a discutir legislações mais concretas, cresce também o debate sobre qual tipo de regulamentação realmente interessa às gigantes do setor.

Agora foi a vez do Google apresentar sua própria visão sobre o tema. Em um documento de 21 páginas intitulado A Pragmatic Approach to AI Governance in America, a empresa propõe um modelo de supervisão para inteligência artificial que, segundo ela, evitaria tanto a ausência de regras quanto uma regulamentação considerada excessiva.

A proposta, porém, levanta questionamentos sobre até que ponto esse modelo realmente amplia a fiscalização ou apenas preserva a liberdade de atuação das empresas que lideram o mercado.

O “caminho do meio” proposto pelo Google

Em publicação assinada por Kent Walker, presidente de Assuntos Globais do Google, a empresa afirma que o debate atual estaria preso entre dois extremos: regulamentar demais ou praticamente não regulamentar.

Segundo Walker, existe um “caminho do meio”, baseado em evidências, que permitiria estimular a inovação enquanto estabelece mecanismos de supervisão para modelos de IA considerados mais avançados. 

A principal proposta é criar uma organização chamada FARO (Frontier AI Regulatory Organization). Ela seria uma entidade financiada pela própria indústria, mas supervisionada por órgãos do governo norte-americano. O Google compara essa estrutura a organizações como a FINRA, responsável pela autorregulação do mercado financeiro nos Estados Unidos, ou à NERC, que atua na confiabilidade da rede elétrica americana.

A ideia seria criar padrões técnicos, acompanhar riscos e estabelecer processos de auditoria sem que o governo precisasse assumir diretamente toda a fiscalização.

O que o Google defende

Além da criação da FARO, o documento apresenta diversas recomendações para futuras políticas públicas envolvendo inteligência artificial.

Entre elas estão:

  • Mecanismos para identificar conteúdo gerado por IA;
  • Filtros para impedir conteúdos sexualmente explícitos;
  • Impedir que assistentes virtuais se apresentem como pessoas reais;
  • Reduzir riscos de dependência emocional em chatbots;
  • Incentivo ao desenvolvimento de modelos de IA nos Estados Unidos;
  • Preservação de regras que permitam o treinamento de modelos utilizando conteúdo disponível publicamente na internet.

É justamente este último ponto que desperta parte das maiores controvérsias.

No documento, o Google argumenta que utilizar páginas públicas da internet para treinar modelos de IA deveria continuar sendo considerado um uso transformativo, conceito semelhante ao fair use existente na legislação norte-americana.

Para ilustrar essa posição, a empresa compara o treinamento de modelos a um estudante de arte que visita um museu para aprender técnicas observando pinturas. Essa interpretação, entretanto, está longe de ser consenso.

Diversos processos judiciais em andamento questionam justamente se o treinamento de modelos comerciais utilizando obras protegidas por direitos autorais pode ser enquadrado como uso legítimo ou se configura exploração econômica sem a autorização dos autores.

Como essas disputas ainda estão sendo analisadas pelos tribunais, o entendimento jurídico sobre esse tema permanece indefinido.

Datacenters também entram na discussão

Outro ponto abordado pelo Google envolve a expansão da infraestrutura necessária para sustentar o avanço da inteligência artificial. A empresa reconhece que datacenters frequentemente enfrentam resistência de comunidades locais devido ao consumo de energia, uso de água e impacto ambiental.

Segundo o documento, a discussão não deveria ser sobre impedir ou permitir novos datacenters, mas sobre construir essas instalações em parceria com as comunidades afetadas.

Regulamentação sem frear a inovação?

O posicionamento do Google parece representar boa parte da indústria de IA. As empresas afirmam reconhecer a necessidade de regras, mas defendem modelos que preservem a velocidade da inovação e reduzam barreiras ao desenvolvimento tecnológico.

Chama a atenção o crescimento da atuação política do setor. Segundo dados citados pelo The Register, os investimentos em lobby relacionados à inteligência artificial nos EUA cresceram cerca de 340% desde 2023.

Independentemente do formato escolhido, a discussão sobre governança da inteligência artificial deve ganhar ainda mais importância nos próximos anos, à medida que essas tecnologias se tornam cada vez mais presentes em produtos, serviços e processos de trabalho.

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