Durante os últimos anos, o GNOME adotou uma postura relativamente conservadora em relação ao design do seu ambiente gráfico. As mudanças continuaram acontecendo a cada nova versão, mas quase sempre de forma incremental, com ajustes pontuais na interface e pequenas melhorias na experiência do usuário. Isso não significa, porém, que o projeto tenha deixado de pensar no futuro.
Em uma publicação recente, a equipe de design do GNOME decidiu abrir as portas do laboratório e compartilhar uma série de conceitos que revelam como o GNOME Shell poderá evoluir nos próximos anos. A iniciativa recebeu o nome de “Design Dreams” e reúne ideias que vão desde pequenas alterações visuais até mudanças profundas na forma como interagimos com janelas, notificações e áreas de trabalho.
É importante destacar um detalhe: nada do que foi apresentado representa uma promessa oficial de implementação.
Algumas propostas já contam com protótipos bastante avançados. Outras ainda dependem de pesquisas adicionais, discussões com a comunidade e, principalmente, da disponibilidade de desenvolvedores interessados em transformar esses conceitos em recursos reais. Ainda assim, o material oferece uma visão bastante clara sobre a direção que o GNOME pretende seguir.
Uma pesquisa mais inteligente e integrada
Uma das principais ideias apresentadas envolve a reformulação da pesquisa do GNOME Shell. Desde o lançamento do GNOME 40, o projeto adotou uma abordagem baseada em um modelo espacial. Os elementos da interface aparecem e desaparecem de maneira previsível, preservando a sensação de continuidade durante a navegação.
A pesquisa, no entanto, continua funcionando de maneira diferente. Atualmente, basta começar a digitar para que toda a visão geral seja substituída pelos resultados da busca.
A proposta dos desenvolvedores é transformar esse comportamento em uma sobreposição visual que surgiria diretamente do campo de pesquisa, mantendo os demais elementos da interface visíveis ao fundo.
Mais interessante do que a mudança estética é a expansão das funcionalidades planejadas. A ideia é incorporar recursos semelhantes aos encontrados em ferramentas como Alfred e Raycast, oferecendo a pré-visualização de arquivos, múltiplas ações para cada resultado e filtros mais avançados. Segundo os desenvolvedores, existe a possibilidade de a nova pesquisa chegar ao GNOME 51.

Configurações rápidas feitas sob medida
As Configurações Rápidas foram introduzidas no GNOME 43 e rapidamente se tornaram um dos elementos mais utilizados da interface. O problema é que o menu cresceu consideravelmente nos últimos anos.
Modo escuro, iluminação noturna, perfis de energia, iluminação do teclado e diversas outras funções transformaram um painel relativamente simples em uma coleção cada vez maior de atalhos. A solução proposta pelo projeto é bastante familiar para quem utiliza Android ou iOS.
Em vez de exibir todas as opções para todos os usuários, o GNOME pretende permitir que cada pessoa personalize o menu, adicionando ou removendo atalhos de acordo com as próprias necessidades. A edição aconteceria diretamente dentro do próprio painel, eliminando a necessidade de recorrer a aplicativos externos ou extensões.

Notificações e calendário podem mudar de lugar
Outra mudança importante envolve a reorganização da barra superior. Hoje, o calendário ocupa a região central do painel e acumula diferentes funções, como notificações, eventos, relógios mundiais e informações meteorológicas.
Na visão da equipe de design, essa organização se tornou confusa. A proposta é aproximar as notificações das Configurações Rápidas, concentrando em um único local os elementos relacionados ao status do sistema. Com isso, o calendário poderia assumir uma função mais específica, exibindo apenas eventos, previsão do tempo e fusos horários.

A ideia lembra bastante a abordagem utilizada em sistemas como Android e ChromeOS. Essa talvez tenha sido a proposta mais controversa entre os usuários que comentaram as primeiras demonstrações públicas dos novos conceitos.

O GNOME quer reinventar o gerenciamento de janelas
O gerenciamento de janelas sempre foi um dos temas mais debatidos dentro da comunidade do GNOME. A área de trabalho do projeto sempre priorizou a simplicidade, enquanto usuários mais avançados frequentemente recorrem a extensões para obter recursos mais sofisticados.
Isso pode mudar no futuro. Uma das propostas apresentadas modifica a maneira como as janelas são movidas entre as áreas de trabalho.
Em vez de arrastar uma janela até as pequenas miniaturas localizadas na parte superior da visão geral, os próprios espaços de trabalho diminuiriam temporariamente de tamanho durante o movimento, criando áreas maiores e mais intuitivas para o posicionamento das janelas. Mas a ideia mais ambiciosa atende pelo nome de Mosaic.

Mosaic: a tentativa do GNOME de criar um novo modelo de tiling
O Mosaic é um conceito que acompanha o GNOME há vários anos. Ao contrário dos gerenciadores de janelas tradicionais, nos quais o usuário precisa organizar manualmente cada elemento da tela, o Mosaic propõe um sistema capaz de redimensionar automaticamente as janelas sempre que uma nova aplicação for aberta.
Em outras palavras, o próprio sistema negociaria o espaço disponível entre os aplicativos. A ideia é reduzir a quantidade de ajustes manuais e tornar o gerenciamento de múltiplas janelas mais natural.
Embora existam extensões que tentam reproduzir parte desse comportamento, os próprios desenvolvedores reconhecem que a implementação adequada exigiria mudanças profundas no compositor do GNOME, o Mutter. Por isso, essa é uma das propostas mais dependentes de trabalho técnico adicional.

Alt+Tab, tela de login e até o ícone da bateria estão na lista
Nem todas as propostas envolvem grandes transformações. O tradicional alternador de janelas, acessado por meio dos atalhos Alt+Tab e Super+Tab, também está sendo reavaliado.
Hoje, o GNOME agrupa as janelas por aplicativo. No futuro, os desenvolvedores estudam a possibilidade de exibir as janelas mais recentes individualmente, mantendo o agrupamento apenas para aplicações abertas há mais tempo.

A tela de login também poderá ganhar um visual mais moderno, substituindo a lista vertical de usuários por uma grade com elementos mais visuais.

Até mesmo o ícone da bateria está na lista de mudanças. A ideia é ampliar o indicador, permitindo visualizar a carga restante com mais precisão e, eventualmente, incorporar a porcentagem diretamente ao ícone.

O painel transparente pode finalmente sair do papel
Existe uma proposta que, para muitos usuários, já se transformou em uma espécie de lenda: o painel transparente. Quando o papel de parede oferecer contraste suficiente, a barra superior deixaria de exibir um fundo opaco.
Embora existam extensões que implementem esse comportamento há anos, o recurso nunca chegou oficialmente ao GNOME Shell. O projeto já possui uma implementação relativamente avançada, mas o principal obstáculo continua sendo o refinamento da experiência e os testes necessários antes da integração definitiva.

O futuro do GNOME dependerá da comunidade
Em vez de apresentar uma lista fechada de recursos planejados, o GNOME optou por compartilhar ideias ainda em desenvolvimento e convidar a comunidade a participar do processo.
A própria equipe reconhece que algumas dessas propostas exigirão mudanças estruturais importantes. Outras podem ser implementadas rapidamente, desde que existam desenvolvedores dispostos a assumir o trabalho.
A boa notícia é que contribuir com o GNOME Shell está mais simples. Ferramentas recentes facilitaram a criação e os testes de versões experimentais, permitindo que mais pessoas participem do desenvolvimento do projeto.
Existe, porém, uma ausência impossível de ignorar: entre todas as ideias apresentadas, não há qualquer menção ao retorno da bandeja de sistema tradicional, removida pelo GNOME há vários anos.
Considerando o número de extensões criadas para restaurar essa funcionalidade, é difícil imaginar que o assunto tenha sido definitivamente encerrado.
Fique por dentro das principais novidades da semana sobre tecnologia e Linux: receba nossa newsletter!