A Meta anunciou nesta sexta-feira, um novo e controverso recurso de inteligência artificial no Facebook, disponível inicialmente para usuários dos Estados Unidos e Canadá, sem previsão sobre quando chegará ao Brasil. A ferramenta promete tornar suas fotos e vídeos “mais compartilháveis”, mas há um detalhe importante: ela analisa imagens armazenadas no seu celular, e não apenas as já publicadas na rede social.
Segundo a empresa, ao optar por ativar o recurso, a IA da Meta vasculha automaticamente o rolo da câmera do usuário, envia as fotos para a nuvem e identifica “joias escondidas”, como lembranças esquecidas entre capturas de tela, recibos e imagens aleatórias. Com base nisso, o sistema gera, sugestões de edições, colagens e destaques que podem ser salvos ou compartilhados diretamente no aplicativo.
O dilema do consentimento
Essa iniciativa reacende uma preocupação antiga sobre como a Meta utiliza dados pessoais para aprimorar seus modelos de inteligência artificial. A empresa havia testado uma versão preliminar do recurso em junho de 2025, quando garantiu que as fotos privadas não seriam usadas para treinar suas IAs. No entanto, na ocasião, a companhia se recusou a descartar a possibilidade de fazê-lo no futuro.
Agora, essa possibilidade se concretizou — ao menos em parte. No comunicado oficial, a Meta afirma:
“Não usamos mídia do seu rolo da câmera para melhorar a IA da Meta, a menos que você escolha editar essa mídia com nossas ferramentas de IA ou compartilhar.”
Em outras palavras, as imagens que a IA acessa para sugerir edições não serão usadas diretamente para treinamento, mas passam a ser elegíveis para esse fim se o usuário aceitar uma das sugestões da IA ou publicá-la.
Questionada pelo The Verge, a porta-voz da Meta, Mari Melguizo, reforçou:
“As mídias enviadas pelo recurso para gerar sugestões não são usadas para melhorar a IA. Apenas se você editar as sugestões com as ferramentas de IA ou publicá-las no Facebook é que melhorias podem ser feitas nos modelos da Meta.”
Na prática, isso significa que a empresa armazenará cópias de suas fotos em seus servidores, e os sistemas de IA poderão visualizá-las para gerar recomendações. Mesmo que o uso para treinamento dependa de ação adicional, o upload contínuo de arquivos pessoais já representa um novo nível de acesso da Meta às mídias privadas dos usuários.
Coleta contínua e armazenamento na nuvem
A descrição oficial do recurso afirma que, ao ativar a opção, o aplicativo “selecionará mídias do seu rolo da câmera e as enviará para nossa nuvem de forma contínua”. Isso quer dizer que o processo não ocorre apenas uma vez, mas permanece ativo enquanto o usuário mantiver o recurso habilitado.
A empresa também indicou que pode reter parte desse conteúdo por mais de 30 dias, algo que já havia sido mencionado em testes anteriores. No entanto, a Meta garante que as fotos não serão usadas para o direcionamento de anúncios, uma preocupação recorrente entre usuários que associam o histórico da empresa a práticas de publicidade invasiva.
Entre a privacidade e a conveniência
Segundo o Facebook, a funcionalidade é voltada para pessoas que gostam de fotografar, mas não têm tempo ou habilidades para editar suas imagens. A IA promete “descobrir lembranças perdidas” e transformá-las em posts prontos para publicação. O recurso ainda não está amplamente disponível, mas será liberado gradualmente nos próximos meses.
O prompt exibido no aplicativo perguntará se o usuário deseja “permitir o processamento em nuvem para gerar ideias criativas a partir do seu rolo da câmera”. Contudo, o aviso não deixa claro se haverá menção explícita ao possível uso das imagens para treinamento de IA, ponto que vem gerando críticas e pedidos de transparência.
Vale lembrar que, em 2024, a Meta admitiu ter treinado seus modelos de IA generativa com todas as fotos e textos públicos postados no Facebook e Instagram por adultos desde 2007. Essa revelação aumentou a desconfiança sobre até onde a empresa pretende expandir o uso de dados pessoais para aprimorar seus sistemas.
Com o novo botão, o Facebook dá mais um passo na integração entre inteligência artificial e vida cotidiana, um avanço técnico que, como de costume, vem acompanhado de uma longa lista de perguntas sobre segurança, privacidade e limites éticos na era dos dados pessoais.Fique por dentro das principais novidades da semana sobre tecnologia e Linux: receba nossa newsletter em sua caixa de entrada!