PostgreSQL, o banco de dados que sobreviveu aos próprios criadores

PostgreSQL, o banco de dados que sobreviveu aos próprios criadores

Hoje é difícil falar sobre infraestrutura moderna sem mencionar o PostgreSQL. O banco de dados está presente em serviços de nuvem, aplicações corporativas, plataformas web e até em projetos que muitos usuários utilizam diariamente sem perceber. Mas, por pouco, essa história de sucesso poderia nunca ter acontecido.

Durante a conferência PGDay 2026, realizada em Boston, o cientista da computação Michael Stonebraker, criador do Postgres e vencedor do Prêmio Turing, relembrou como o projeto nasceu, foi praticamente abandonado e acabou salvo por uma comunidade de desenvolvedores que transformou um experimento acadêmico em um dos softwares mais importantes da atualidade.

Um projeto que quase ficou pelo caminho

O Postgres surgiu nos anos 1980 como sucessor do Ingres, outro sistema de banco de dados criado por Stonebraker na Universidade da Califórnia em Berkeley.

Na época, os bancos de dados relacionais estavam se consolidando como padrão da indústria. Porém, Stonebraker acreditava que os sistemas existentes precisavam evoluir para armazenar informações mais complexas do que simples números e textos.

A proposta do Postgres era permitir a criação de novos tipos de dados, operadores personalizados e funções definidas pelos próprios usuários. Hoje isso parece algo comum, mas na época representava uma abordagem bastante inovadora.

Embora a tecnologia tivesse potencial, o projeto acadêmico nunca recebeu o mesmo nível de atenção comercial de outras soluções do mercado.

A comunidade assumiu o controle

O ponto de virada aconteceu em meados da década de 1990. Enquanto Stonebraker e sua equipe seguiam outros caminhos, dois estudantes de Berkeley, Andrew Yu e Jolly Chen, decidiram continuar o desenvolvimento do projeto. Eles removeram componentes problemáticos, adicionaram suporte ao SQL, que já havia se tornado padrão da indústria, e lançaram uma nova versão chamada Postgre95. Pouco depois surgiria o nome que conhecemos hoje: PostgreSQL.

Segundo o próprio Stonebraker, ele sequer conhecia boa parte das pessoas que assumiram o desenvolvimento do software. O projeto passou a ser conduzido por voluntários independentes que, ao longo de três décadas, mantiveram sua evolução constante.

Essa independência acabou se tornando uma das maiores forças do PostgreSQL.

O banco de dados que conquistou a nuvem

Enquanto outros bancos de dados ficaram vinculados a grandes empresas, o PostgreSQL permaneceu sob uma licença permissiva e sem controle de uma única organização. Isso permitiu que empresas e projetos construíssem suas próprias soluções baseadas nele.

Hoje, serviços oferecidos por gigantes como Amazon Web Services, Microsoft e Google oferecem bancos de dados gerenciados compatíveis com PostgreSQL. Além disso, diversos projetos modernos nasceram diretamente sobre sua arquitetura, aproveitando a compatibilidade com o ecossistema já existente.

Em muitos casos, a compatibilidade com PostgreSQL virou praticamente um requisito para novos bancos de dados que desejam conquistar usuários corporativos.

Por que ele continua crescendo?

Parte do sucesso do PostgreSQL está ligada à sua flexibilidade.

Ao longo dos anos, ele conseguiu se adaptar a novas demandas sem abandonar suas bases. Quando bancos orientados a documentos ganharam popularidade, por exemplo, o PostgreSQL incorporou o suporte avançado a JSON. Quando aplicações passaram a trabalhar com dados geográficos, sua arquitetura permitiu a criação de extensões especializadas para esse cenário.

Essa capacidade de evolução fez com que o projeto acompanhasse tendências tecnológicas sem precisar reinventar completamente sua estrutura.

Outro fator frequentemente citado pela comunidade é a qualidade do código e do processo de revisão. Mudanças importantes costumam passar por análises rigorosas antes de serem incorporadas ao projeto principal.

Nem tudo está pronto

Apesar da popularidade crescente, o PostgreSQL ainda possui desafios. Durante o PGDay, desenvolvedores destacaram recursos que seguem em desenvolvimento, como melhorias para grandes volumes de dados, armazenamento colunar e mecanismos mais avançados de escalabilidade.

Um dos temas mais debatidos foi a ausência de criptografia transparente em nível de arquivo, recurso já presente em diversos bancos de dados comerciais. Os mantenedores argumentam que a implementação exigiria mudanças profundas na arquitetura e que outras prioridades acabam recebendo mais atenção da comunidade.

Um exemplo do poder do software livre

Talvez a maior lição da história do PostgreSQL seja que nem todos os projetos de sucesso dependem de uma empresa controlando seu destino.

Abandonado pelos próprios criadores, o banco de dados sobreviveu graças a uma comunidade que acreditou no potencial da tecnologia e continuou seu desenvolvimento por décadas.

Hoje, o PostgreSQL é uma das principais bases da computação em nuvem e um dos exemplos mais bem-sucedidos de como o modelo de desenvolvimento aberto pode transformar um projeto acadêmico em uma tecnologia essencial para a internet moderna.

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