Durante muitos anos, falar em Linux no desktop era, para muita gente, quase o mesmo que falar em Ubuntu. A distribuição da Canonical conseguiu algo que poucos projetos do ecossistema conseguiram: transformar uma tecnologia conhecida principalmente por entusiastas em uma porta de entrada para milhões de usuários. Essa posição, porém, mudou bastante.
Nos últimos anos, sistemas derivados do Ubuntu ganharam espaço justamente entre pessoas que procuram uma experiência diferente daquela oferecida pela própria Canonical. Linux Mint, Zorin OS, Pop!_OS, elementary OS, KDE neon e tantos outros projetos construíram identidades próprias a partir da mesma base.
Agora, um dos exemplos mais interessantes desse movimento foi ainda mais longe. A TUXEDO Computers anunciou que o TUXEDO OS deixará o Ubuntu para trás e passará a utilizar o Debian Testing como base.
A decisão chama atenção porque o TUXEDO OS não é apenas mais uma distribuição independente mantida por uma comunidade. Ele é o sistema operacional desenvolvido pela TUXEDO Computers para seus próprios computadores Linux. A empresa vende máquinas com o sistema pré-instalado e, portanto, precisa ter controle sobre a experiência oferecida aos clientes.
Foi justamente essa necessidade de controle que parece ter transformado algumas características do Ubuntu em obstáculos.
O Ubuntu criou uma geração de concorrentes
A força do Ubuntu sempre esteve, em grande parte, na capacidade de servir como uma base relativamente acessível para outros projetos.
Linux Mint, Zorin OS, Pop!_OS, elementary OS e TUXEDO OS são apenas alguns dos nomes mais conhecidos entre as dezenas de distribuições derivadas do Ubuntu. Dependendo do critério utilizado, existem mais de uma centena de projetos que utilizam ou já utilizaram o Ubuntu como ponto de partida.
Esse ecossistema ajudou a consolidar a distribuição da Canonical como uma das principais referências do Linux para desktops.
Existe, porém, uma ironia nessa história. Quanto mais maduras essas distribuições ficaram, menos dependentes elas passaram a ser das decisões da Canonical.
O Linux Mint desenvolveu sua própria experiência de desktop e chegou a criar o LMDE, uma edição baseada diretamente no Debian. O Pop!_OS desenvolveu o COSMIC e adotou uma estratégia própria para seus repositórios. O Deepin deixou o Ubuntu e passou a utilizar o Debian como base. O TUXEDO OS agora deu seu passo nessa direção.
A diferença é que, segundo a própria TUXEDO, continuar utilizando o Ubuntu estava começando a consumir recursos demais para adaptar o sistema às necessidades da empresa.
O problema dos Snaps
Um dos principais pontos levantados pela TUXEDO é o Snap. O formato desenvolvido pela Canonical tem vantagens técnicas e resolve alguns problemas de distribuição e atualização de aplicativos. A questão, para a TUXEDO, está na relação entre o formato e a infraestrutura que sustenta sua distribuição.
O Snap Store é centralizado e controlado pela Canonical. Isso significa que uma distribuição baseada no Ubuntu pode até remover ou substituir determinados Snaps, mas precisa lidar com uma tecnologia cuja infraestrutura principal está fora de seu controle.
Esse modelo contrasta com a filosofia adotada por boa parte do ecossistema Flatpak. O Flathub também ocupa uma posição central, mas a própria tecnologia permite que outros repositórios sejam utilizados e que projetos mantenham suas próprias fontes de aplicativos. É uma diferença particularmente importante para fabricantes como a TUXEDO.
A empresa vende um produto completo, ela precisa decidir quais tecnologias fazem parte do sistema operacional entregue ao cliente e como essas tecnologias serão mantidas durante toda a vida útil da máquina.
Segundo a TUXEDO, a crescente adoção de Snaps pelo Ubuntu tornou esse processo cada vez mais difícil. Aplicativos tradicionais que passaram a ser distribuídos como Snap, como Firefox e Chromium, são exemplos de componentes que a empresa precisa considerar ao construir sua própria experiência. Ao migrar para o Debian, essa camada de dependência desaparece.
Ubuntu LTS e KDE atualizado não combinam tão bem
Existe ainda um problema estrutural. O TUXEDO OS utiliza o KDE Plasma como ambiente de desktop e procura entregar versões relativamente recentes do projeto aos seus usuários. O Ubuntu LTS, por outro lado, é construído justamente para privilegiar estabilidade e previsibilidade durante vários anos. Essas duas filosofias podem conviver, mas exigem muito trabalho.
Quando a base permanece congelada durante um longo período enquanto o KDE continua avançando, a distribuição precisa lidar com versões diferentes de bibliotecas, dependências e componentes do sistema. Atualizar o Plasma pode significar atualizar outros elementos que não fazem parte da base oficial do Ubuntu. O resultado é uma quantidade considerável de trabalho de manutenção.
Para uma empresa que desenvolve sua própria distribuição, esse esforço precisa ser justificado. Se uma parcela significativa da equipe está ocupada contornando limitações da base, sobra menos tempo para desenvolver recursos que diferenciem o TUXEDO OS.
A mudança para o Debian Testing oferece uma alternativa interessante justamente porque os pacotes acompanham um ciclo de desenvolvimento muito mais próximo daquele desejado pela TUXEDO.
A questão da IA também pesou
Outro ponto citado pela empresa envolve os planos da Canonical para incorporar recursos de inteligência artificial ao Ubuntu. A questão aqui é menos sobre ser contra ou a favor da IA e mais sobre previsibilidade.
A TUXEDO afirma ter preocupação com a forma como essas tecnologias serão implementadas, quais dados poderão ser processados e como essas mudanças afetarão distribuições derivadas do Ubuntu.
Para quem simplesmente instala o Ubuntu, isso pode parecer uma preocupação distante. Para uma empresa que precisa manter sua própria distribuição, porém, mudanças introduzidas na camada inferior podem gerar consequências durante anos.
Quanto mais decisões importantes ficam concentradas em um fornecedor externo, maior é a dificuldade de uma distribuição derivada controlar completamente sua própria direção.
Esse parece ser o ponto em comum entre as críticas da TUXEDO: independentes entre si, talvez nenhuma delas fosse suficiente para justificar uma migração tão grande. Juntas, elas formam um argumento bastante convincente.
Por que o Debian Testing?
A escolha do Debian pode parecer contraditória à primeira vista. Se a TUXEDO estava reclamando de pacotes antigos no Ubuntu LTS, por que escolher justamente o Debian? A resposta está no modelo de desenvolvimento.
O Ubuntu LTS nasce a partir de um estado relativamente recente do Debian Testing e, depois disso, passa por um processo de estabilização e manutenção que permite sustentar aquela versão durante anos.
O Debian Testing continua avançando. Pacotes entram, são atualizados e passam por diferentes níveis de validação até que uma futura versão estável do Debian seja formada.
Por isso, embora tenha “Testing” no nome, ele não deve ser confundido com uma versão experimental sem critérios. Ainda existe, evidentemente, uma margem maior para problemas do que no Debian Stable, mas a natureza do projeto é bastante diferente de simplesmente instalar versões aleatórias de todos os pacotes.
Para o TUXEDO OS, a base acompanha versões mais recentes de componentes importantes, permitindo trabalhar com kernels, drivers e bibliotecas mais atuais sem precisar reconstruir constantemente a infraestrutura necessária para fazê-los funcionar sobre uma base LTS.
O KDE Plasma também ganha espaço para evoluir junto com o restante do sistema. E existe outro detalhe importante: o Debian não depende do Snap.
O TUXEDO OS vai ficar mais autoral
Talvez essa seja a consequência mais interessante de toda a mudança. Durante anos, boa parte do trabalho de uma distribuição derivada consiste em adaptar aquilo que recebe da distribuição-base. Quanto mais decisões da base divergem das necessidades do projeto, maior é o esforço necessário para manter tudo funcionando.
Ao deixar o Ubuntu, a TUXEDO elimina uma série dessas obrigações e pode direcionar recursos para características próprias. Uma delas já foi anunciada: o novo TUXEDO OS deverá utilizar Btrfs com o Snapper para gerenciamento de snapshots.
A ideia permite criar pontos de restauração do sistema antes de operações importantes, como atualizações e instalação de programas. Se alguma mudança causar problemas, o usuário poderá retornar a um estado anterior do sistema.
É um recurso particularmente interessante em uma distribuição que pretende oferecer uma experiência moderna combinada com mecanismos de recuperação.
A mudança de base, entretanto, tem um custo. Usuários da versão atual do TUXEDO OS não poderão simplesmente atualizar para a nova edição baseada no Debian. Será necessário realizar uma instalação limpa.
Para quem deseja continuar com uma experiência baseada em Ubuntu e KDE Plasma, o caminho mais simples continua sendo o Kubuntu.
O verdadeiro problema para o Ubuntu
É possível discordar de qualquer uma das decisões da TUXEDO. Também é perfeitamente razoável defender as escolhas da Canonical. A empresa não tem como principal objetivo criar uma plataforma perfeita para que outras distribuições construam seus próprios produtos. O Ubuntu é um produto da Canonical, e a empresa tem interesses comerciais, técnicos e estratégicos próprios.
O problema aparece quando a relação entre uma distribuição-base e seus derivados deixa de ser vantajosa para quem está em cima dela. O Ubuntu conquistou uma posição extraordinária no Linux justamente por ser uma plataforma sobre a qual outras pessoas podiam construir. Durante muito tempo, isso fortaleceu a própria marca Ubuntu.
Agora, algumas das distribuições mais importantes do desktop Linux parecem estar seguindo uma direção diferente.
O Zorin OS construiu uma experiência bastante distante do Ubuntu original. O Linux Mint desenvolveu sua própria identidade e mantém uma alternativa baseada diretamente no Debian. O Pop!_OS criou seu próprio ambiente gráfico. O Deepin deixou o Ubuntu. O TUXEDO OS está fazendo o mesmo.
Isso começa a parecer menos uma coleção de decisões isoladas e mais uma tendência.
O Ubuntu pode acabar voltando ao lugar de onde veio?
Talvez o Ubuntu esteja caminhando para uma posição mais próxima daquela que o Debian ocupava quando a Canonical surgiu: uma infraestrutura fundamental do ecossistema, extremamente relevante tecnicamente, mas menos presente na experiência final do usuário.
O Ubuntu vem ocupando espaço no mundo corporativo, em servidores e na nuvem, enquanto outras distribuições assumem cada vez mais espaço no desktop. É uma ironia histórica. O sistema cresceu porque conseguiu aproximar o Linux das pessoas comuns. Seu antigo lema, “Linux para seres humanos”, ajudou a definir uma geração inteira de usuários.
Grande parte da reputação que a distribuição possui hoje foi construída justamente durante esse período. O desafio da Canonical é preservar essa relevância enquanto o projeto muda de direção. A TUXEDO não está simplesmente abandonando o Ubuntu porque deixou de gostar dele. Está tentando controlar melhor o próprio produto.
Talvez a decisão seja um erro. O Debian Testing pode trazer problemas que a empresa ainda não prevê, e manter uma distribuição baseada diretamente no Debian também exige trabalho. O novo modelo terá seus próprios custos.
Ainda assim, a decisão revela algo que merece atenção: para algumas empresas e projetos importantes do Linux, depender das decisões da Canonical está deixando de ser automaticamente a opção mais conveniente.
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