Durante um mês inteiro, usamos o Bazzite para fazer absolutamente tudo, menos jogar. E agora vamos compartilhar essa experiência: o que funciona, o que não funciona e onde talvez você precise de um pouco de macete.
O Bazzite é apresentado como uma das melhores distribuições Linux para novos usuários, especialmente gamers (até seu site termina em .gg). Ele vem pré-configurado para praticamente tudo que um usuário comum precisa, inspirado no SteamOS e compatível com o Steam Deck. A pergunta que nos fizemos foi: além de pronto para jogar, o Bazzite é capaz de suportar a carga de trabalho de um usuário avançado que também cria conteúdo?
Entendendo o Projeto Bazzite
Para começar, é preciso entender que o Bazzite é uma versão modificada do Fedora Atomic. O Fedora Atomic é uma vertente experimental do Fedora que traz conceitos de computação em nuvem para o desktop, como o sistema imutável e aplicativos em contêineres. A ideia é um sistema que praticamente nunca “quebra” com atualizações e permite reverter facilmente se algo der errado.
No ecossistema Fedora Atomic, temos as versões oficiais Silverblue (GNOME) e Kinoite (KDE Plasma). Já o Universal Blue é um projeto comunitário que segue a mesma filosofia, mas com mais flexibilidade. É daqui que saem três imagens famosas: Aurora (para desktop geral), Bluefin (para desenvolvedores) e o nosso protagonista, Bazzite (focado em games).
O Bazzite ganhou fama por ser “pronto para jogar”. Drivers, codecs, suporte a periféricos e launchers vêm todos configurados. Segundo a documentação, ele é para quem quer “baixa manutenção”. Nosso teste foi para ver se “baixa manutenção” também significa “capaz de fazer tudo”.
Desmistificando a imutabilidade
O termo “imutável” pode assustar, mas a realidade é mais simples. Em um sistema como o Bazzite, a raiz principal (/) é realmente imutável e só é alterada durante uma atualização de sistema. No entanto, diretórios como /var e /etc são mutáveis. É neles que ficam suas configurações pessoais, arquivos de usuário e dados de aplicativos Flatpak, tudo conectado por links simbólicos.
Em outras palavras, sua experiência de desktop é completamente personalizável. Você pode mudar temas, wallpapers, configurar o painel do KDE e instalar programas normalmente. A “mágica” acontece nos bastidores: quando você atualiza o sistema, o Bazzite substitui a imagem do sistema operacional antiga por uma nova, mas preserva intactas as pastas mutáveis com seus dados. É como trocar os fundamentos da sua casa sem mover os móveis.

Instalando aplicativos
A principal mudança de mentalidade está na instalação de software. O caminho padrão e recomendado é usar Flatpaks via loja Bazaar. Quase tudo que um usuário comum precisa está lá: navegadores, suites de escritório, editores de imagem.

Tivemos um pequeno percalço com o Chrome Flatpak. Seu ícone não se ancorava corretamente na barra de tarefas do KDE Plasma. A solução foi ajustar manualmente uma configuração especial do aplicativo, definindo o “nome do arquivo desktop” como com.google.Chrome. Um bug específico, mas de fácil correção.

A verdadeira diferença aparece com software não disponível como Flatpak. Para instalar o Insync (sincronizador do Google Drive), por exemplo, recorremos ao layering de pacotes RPM. Isso é feito com o comando rpm-ostree install. A instalação é eficaz, mas, tem um ar de gambiarra e como a documentação alerta, deve ser um último recurso.
No Bazzite, você prioriza Flatpaks. Eles são mais convenientes, isolados e não exigem reboot.
O desafio da virtualização
Aqui encontramos nosso maior ponto de atrito. A virtualização, especialmente com o GNOME Boxes, apresentou baixo desempenho persistente. O problema parece estar relacionado à combinação do sistema de arquivos BTRFS (que o Bazzite usa por padrão) com a tecnologia Copy-on-Write em discos de máquinas virtuais.
Alternativas como o Virt Manager funcionaram melhor, e o VirtualBox (via AppImage) funcionou razoavelmente, mas não conseguimos configurar o modo bridge de rede, essencial para alguns testes. Essa limitação, somada à necessidade de usar layering para alguns pacotes de virtualização, foi um obstáculo significativo para nosso fluxo de trabalho.
Rollback, rebase e Bazzite DX
Agora, as grandes vantagens para o usuário avançado. A imutabilidade permite duas operações poderosas:
Rollback:
Se uma atualização bagunçar tudo, o Bazzite Rollback Helper é uma ferramenta de terminal que permite voltar ao estado anterior do sistema em um clique, sem perder seus dados. É uma rede de segurança incomparável.

Rebase:
Você pode trocar a base do sistema inteira. Usando o Bazzite com KDE? Com um comando (rpm-ostree rebase), você migra para a versão com GNOME, ou até para o Aurora ou Bluefin, como se tivesse reinstalado o sistema, mas mantendo sua pasta home e configurações. É uma forma incrível de testar diferentes ambientes sem compromisso.
No caso, utilizamos ele para instalar o Bazzite DX, a versão para desenvolvedores. Ela vem com ferramentas como Docker, VS Code e Podman pré-instaladas. Para nosso uso, tivemos apenas que adicionar nosso usuário ao grupo docker para que ele funcionasse perfeitamente. A atualização do sistema como um todo (imagem, Flatpaks, containers) é gerenciada por uma ferramenta chamada Topgrade, acessível pelo menu.
Distrobox: o poder dos contêineres no desktop
Esta é talvez a ferramenta mais impressionante para usuários avançados. O Distrobox, já pré-instalado, permite criar contêineres leves de basicamente qualquer distribuição Linux (Ubuntu, Arch, Fedora) e integrá-los perfeitamente ao seu desktop.
Por que isso é revolucionário?
- Acesso a qualquer repositório: Precisa de um pacote que só existe no AUR do Arch? Crie um contêiner Arch e instale. O aplicativo pode ser “exportado” para o menu do sistema, funcionando como se fosse nativo;
- Ambientes isolados e reproduzíveis: Instalamos o DaVinci Resolve via contêiner usando um projeto chamado “DaVinci Box”. O desempenho é praticamente nativo, e o ambiente é autocontido, evitando conflitos de dependências;
- Integração total: Os contêineres compartilham o diretório home com o sistema hospedeiro, então os arquivos são os mesmos. É uma ponte perfeita entre a estabilidade do sistema base e a flexibilidade de qualquer outra distro.
Com Flatpaks, Brew e Distrobox combinados, é realmente difícil faltar software no Bazzite.
YouJust: os “comandos mágicos”
Para simplificar tarefas complexas, o Bazzite introduz os comandos YouJust. São scripts que automatizam desde a configuração de drivers (youjust setup-nvidia) até a instalação de softwares específicos como o DaVinci Resolve (youjust install-resolve).
Digitar just lista os comandos disponíveis. Eles cobrem desde utilitários (OpenRGB para periféricos, OpenRazer para mouses Razer) até a configuração do Waydroid (para rodar aplicativos Android). O comando youjust pick abre uma interface gráfica categorizada. É um sistema muito prático que esconde a complexidade por trás de comandos simples.

Limitações e pontos de atenção
Nenhum sistema é perfeito, e encontramos alguns pontos que exigem atenção:
Aplicativos da imagem base:
Você não pode desinstalar programas que fazem parte da imagem base. Se o Lutris ou o VS Code (na versão DX) não te interessam, eles ficarão lá. É o preço da conveniência “out-of-the-box”.
Domínios locais no flatpak:
Navegadores instalados via Flatpak (como Firefox) podem ter problemas para resolver nomes de domínio local da rede (ex: servidor.local). A solução de contorno é editar manualmente o arquivo /etc/hosts.
Waydroid (Android):
A execução de apps Android funcionou, mas não de forma tão fluida quanto esperávamos, possivelmente por conta dos drivers NVIDIA.
A curva de aprendizado:
Trabalhar “do jeito Bazzite” (priorizando Flatpaks, usando layering como exceção e entendendo o fluxo de updates) requer um pequeno período de adaptação para quem vem de distribuições Linux tradicionais.
Vale a pena para um desktop tradicional?
Sim, vale. Apesar dos desafios pontuais, principalmente na virtualização, o Bazzite se mostrou um sistema robusto e surpreendentemente capaz para uso geral e avançado.
Ele não é apenas para jogos. É um Fedora sólido e imutável que entrega exatamente o que promete: um desktop moderno, estável e de baixa manutenção. Os recursos como rollback instantâneo, rebase entre distribuições e o poder do Distrobox são vantagens competitivas reais para qualquer usuário.
Para quem edita vídeos, programa, faz deploy de containers ou simplesmente quer um sistema que não quebre, o Bazzite é uma opção viável e poderosa. Talvez 98% dos usuários de desktop possam usá-lo sem grandes obstáculos. Os 2% restantes, que dependem de workflows muito específicos de virtualização ou modificações profundas no sistema, podem encontrar mais dor de cabeça.
A brincadeira do “ano do Linux no desktop” sempre volta, mas com distribuições como o Bazzite, que unem a solidez empresarial do Fedora Atomic à conveniência voltada para o usuário final, o futuro do desktop Linux parece não apenas mais gamer, mas também mais simples e confiável para todo mundo.