X11 vs Wayland: a evolução natural dos sistemas gráficos no Linux

X11 vs Wayland: a evolução natural dos sistemas gráficos no Linux

O desktop Linux está passando por uma transformação profunda que vai muito além do que simplesmente aparece em nossas telas. Por trás de cada movimento do mouse, cada janela que se abre e cada animação fluida, existe uma complexa arquitetura de sistemas gráficos em constante evolução. Atualmente, o grande debate que mobiliza a comunidade Linux gira em torno da transição do tradicional X11 para o moderno Wayland. Para entender essa transição, é fundamental compreender as bases históricas de ambos os sistemas e por que a migração se tornou necessária após décadas de domínio do X11.

X11: o protocolo de outra era

O X11 (X Window System) nasceu em 1987, em um contexto computacional completamente diferente do atual. Na época, era absolutamente comum em todas as universidades, empresas, você ter pequenos terminais e uma sala com um mainframe enorme. O protocolo foi concebido precisamente para esse cenário: permitir que terminais leves se conectassem a computadores centralizados poderosos, onde a renderização gráfica realmente acontecia.

Dessa forma, a arquitetura cliente-servidor é feita para funcionar com uma independência de dispositivos. Isso significa que um programa poderia enviar comandos para um servidor X que poderia estar em qualquer lugar da rede, uma solução brilhante para 1987, mas questionável para 2025.

O problema fundamental é que quando você liga o seu computador, ele está mandando dados para um mainframe na sua casa para renderizar as coisas? Essa arquitetura impõe uma série de limitações: maior latência, mais trocas de contexto no processador e impossibilidade de aproveitar totalmente os recursos modernos de hardware.

Wayland: a resposta para os desafios modernos

O Wayland surge não como uma ruptura radical, mas como uma “evolução natural do X11”, desenvolvido pelas próprias pessoas que trabalhavam no projeto Xorg. A história de seu surgimento é particularmente reveladora: o desenvolvedor Kristian Høgsberg, já um contribuidor significativo do GNOME e do Xorg, estava tentando resolver um problema específico do X11: o tearing.

O Xorg não consegue garantir que o que vai aparecer na tela está realmente atualizado e perfeitamente renderizado. Høgsberg trabalhava em uma extensão chamada DRI2 (Direct Rendering Infrastructure 2) que tentava trazer essa garantia, mas descobriu que era logicamente impossível fazer essa garantia com a forma como as coisas funcionam nos protocolos X11.

A epifania ocorreu durante uma viagem pela cidade de Wayland, onde Høgsberg concebeu uma nova abordagem que garantiria que cada quadro seja perfeito. O slogan do Wayland reflete exatamente esse objetivo fundamental.

O que começou como uma tentativa de melhorar o X11 gradualmente se transformou em algo completamente novo. Conforme Høgsberg e outros desenvolvedores foram refazendo componentes fundamentais do sistema, a lógica do protocolo ficou profundamente alterada. As discussões que inicialmente giravam em torno de um possível “X12” eventualmente levaram à conclusão de que nem parecia mais o X. Então decidiram chamar de outra coisa e escolheram Wayland. E este processo desmente narrativas de conflito ou imposição. 

A transição para o Wayland exemplifica como avanços tecnológicos significativos muitas vezes ocorrem de forma gradual e colaborativa, contrariando a expectativa por dramas ou conflitos. A história do Wayland é, em última análise, a história de “uma pessoa teve uma ideia, seus colegas viram, gostaram e falaram: ‘beleza, vamos fazer’. E estão fazendo até hoje”. É um testemunho do poder da evolução orgânica na comunidade de software livre, onde soluções emergem naturalmente para resolver problemas reais.

Para os usuários finais, essa transição significa interfaces gráficas mais fluidas, melhor segurança e suporte a tecnologias modernas. Para a comunidade de desenvolvimento, representa a contínua adaptação do ecossistema Linux aos desafios contemporâneos.

Este conteúdo é um corte do Diocast. Assista na íntegra ao episódio onde conversamos com Georges Stavracas, desenvolver no projeto GNOME, sobre as controvérsias que vem cercando os projetos Wayland e Xorg, para entender o que está mudando no coração do sistema gráfico do Linux.