Nos últimos dias, uma nova polêmica envolvendo inteligência artificial e moderação de conteúdo intrigou a comunidade de tecnologia no YouTube. Diversos criadores relataram que vídeos tutoriais sobre instalação do Windows 11 em PCs não suportados ou configuração de contas locais foram removidos pela plataforma, sob a justificativa de violarem a política de “atos nocivos e perigosos”.
Os vídeos não ensinavam nada ilegal, apenas mostravam formas alternativas de instalação ou de contornar limitações impostas. Ainda assim, o sistema automatizado do YouTube classificou o conteúdo como potencialmente perigoso para os espectadores, deixando criadores sem respostas e reforçando a crítica de que a moderação por IA está cada vez mais fora de controle.
Vídeos de tutoriais classificados como “risco de vida”
O caso veio à tona com o YouTuber Rich White, criador do canal CyberCPU Tech, que publicou um vídeo ensinando como instalar o Windows 11 25H2 com uma conta local, sem necessidade de login em uma conta Microsoft.
Pouco tempo depois, o vídeo foi removido automaticamente, e o motivo surpreendeu até mesmo o criador: o YouTube teria alegado que o conteúdo “poderia causar ferimentos graves ou morte”.
“É difícil acreditar que criar uma conta local no Windows possa colocar alguém em risco de vida”, ironizou White, em um vídeo posterior comentando o incidente.
Ao recorrer da decisão, a situação piorou: o pedido de apelação foi negado em menos de 20 minutos, em pleno domingo de manhã. “É impossível que alguém tenha assistido a um vídeo de 17 minutos nesse intervalo”, afirmou o criador.
No dia seguinte, White publicou outro tutorial, desta vez explicando como instalar o Windows 11 em um computador sem suporte oficial e o resultado se repetiu. O vídeo foi removido poucas horas depois, sob a mesma justificativa vaga. A apelação também foi rejeitada em apenas um minuto, reforçando a suspeita de que todo o processo é automatizado.
Outros criadores relatam o mesmo problema
White não está sozinho. Outros canais, como Britec09 e Hrutkay Mods, relataram o mesmo tipo de bloqueio: vídeos sobre instalação alternativa do Windows 11, ativação de recursos desabilitados e ajustes no sistema desapareceram sob acusações de violar políticas de segurança.
Nenhum dos vídeos envolvia pirataria, exploração de vulnerabilidades ou qualquer prática ilícita. Eram apenas tutoriais para usuários que desejam instalar o sistema operacional de forma mais personalizada, por exemplo, sem depender da conta da Microsoft ou sem hardware com TPM 2.0.
“Esses vídeos podem causar erros no sistema se o usuário não seguir as instruções, mas definitivamente não vão arrancar o dedo de ninguém”, ironizou White em uma entrevista posterior.
Até o momento, os criadores afirmam que não conseguiram contato com nenhum representante humano do YouTube. Todas as comunicações foram respondidas automaticamente, e os vídeos permanecem removidos.
Coincidência ou influência?
A situação levantou especulações sobre um possível interesse da Microsoft nas remoções.
Na mesma semana dos bloqueios, a empresa encerrou oficialmente o “atalho” que permitia criar contas locais durante a instalação do Windows 11, obrigando os usuários a se autenticar com uma conta Microsoft, uma mudança amplamente criticada.
Além disso, em versões anteriores do sistema, a Microsoft já havia retirado do próprio site as instruções sobre como instalar o Windows 11 em máquinas sem suporte oficial, reforçando sua tentativa de limitar essas práticas.
Ainda assim, White acredita que a coincidência temporal não prova uma interferência direta da Microsoft. “Eu mencionei essa possibilidade em um vídeo, mas foi mais um desabafo. No fim das contas, acredito que o problema é mesmo o YouTube e seu sistema de IA fora de controle”, disse o criador.
O YouTube depende fortemente de algoritmos para analisar bilhões de vídeos, mas o custo de substituir revisores humanos é alto: um moderador humano custa até 40 vezes mais do que o processo automatizado.
Essa economia, no entanto, cobra um preço em credibilidade e confiança. Sem explicações claras ou revisões humanas, criadores ficam à mercê de decisões arbitrárias e imprevisíveis.
“O problema não são só os vídeos removidos”, explica White. “O maior impacto é o medo que isso gera. Muitos criadores estão com receio de postar tutoriais técnicos, porque não sabem mais o que o YouTube pode considerar perigoso.”
Essa autocensura, alerta ele, pode levar à queda de engajamento e de diversidade de conteúdo técnico, especialmente em nichos como tecnologia e sistemas operacionais.
No fim, não deixa de ser irônico: esses produtores de conteúdo falam sobre tecnologia e IA, mas são punidos por ela.Fique por dentro das principais novidades da semana sobre tecnologia e Linux: receba nossa newsletter.