No início de 2024, o cancelamento do “Project Titan” — o esforço de uma década da Apple para criar seu próprio veículo — reverberou com força no Vale do Silício. Foram bilhões de dólares e incontáveis horas de engenharia dissolvidos em uma decisão estratégica de Tim Cook. O sonho do carro da Apple, pelo menos por enquanto, está morto.
Nestes últimos anos, o segmento automobilístico se desenvolveu muito, especialmente quanto aos carros eletrificados. De indústrias tradicionais às novatas, seja 100% elétricos ou híbridos, esses modelos têm crescido diariamente em sua fatia do mercado. Elon Musk, com a Tesla, tem um papel fundamental nessa expansão, mas nos últimos três anos, a China vem atropelando esse mercado!
Em meu post sobre a HUAWEI, comentei sobre os carros dessa empresa na China. Aliás, o país de Xi Jinping possui hoje mais de 100 marcas de carros elétricos, mercado que está sendo equalizado mas ainda deverá manter mais de 30 marcas em atividade. No Brasil, a montadora chinesa que tem ocupado uma fatia interessante do mercado é a BYD. Com carros arrojados e competitivos, ela tem superado players tradicionais no país, como a Toyota.
Depois de meses de estudo e uma visita à China, resolvi testar um veículo da marca.
Antes de prosseguir com a leitura, para evitar polêmicas desnecessárias, é importante ressaltar que:
- Este post não tem qualquer teor político-partidário.
- Não estou criticando ou condenando os carros a combustão. Tenho também um carro a diesel, 1998, que gosto muito. Mas não acredito nos extremos e creio que você não precisa ser torcedor apaixonado por A ou B, e sim usufruir do melhor de todas as opções disponíveis.
- O foco do post não é uma análise automobilística, mas tecnológica. Sempre bom esclarecer, em tempos de discussões polarizadas.
Dito isso, sigamos!
BYD Song Plus
Como moro em um prédio ainda com restrições para carregadores elétricos, busquei uma opção híbrida — mas confesso que já questiono minha decisão, dado o aumento das estações de carregamento espalhadas pela cidade. Dentre os modelos, o que mais me chamou a atenção foi BYD Song Plus — se fosse pegar um 100% elétrico, teria pego o Seal.

O Song Plus passou por uma forte evolução estética e tecnológica para o modelo 2026, com linhas da série Ocean e baterias de longo alcance. Atingi agora os 5.000km com o carro e quero compartilhar aqui as primeiras impressões.
A engenharia sob o capô: o hardware invisível
Para entender o Song Plus, precisamos olhar além da estética. A Apple sempre se destacou pela simbiose entre hardware e software. O coração tecnológico deste veículo é a plataforma DM-i (Dual Mode Intelligent) e a onipresente Blade Battery.
- Bateria como estrutura: as células de LFP (fosfato de ferro-lítio) em formato de lâmina (blade) não são apenas seguras; elas são parte estrutural do chassi, aumentando a rigidez do carro. É a mesma lógica de engenharia que a Apple usa ao colar as baterias nos MacBooks para torná-los sólidos e finos.

- Eficiência térmica: o motor 1.5 aspirado atinge uma eficiência térmica de 43%, o que na prática significa que ele funciona majoritariamente como um gerador silencioso para os motores elétricos.
- Autonomia real: com a nova bateria de 18,3kWh, o carro entrega mais de 1.000km de autonomia combinada e cerca de 100km em modo puramente elétrico. Para quem anda só na cidade, uma economia muito relevante. Para quem mescla muito com estrada, nem tanto. Até agora não consegui ultrapassar a média de 14km/L, mas admito que não sou dos motoristas mais prudentes no que tange à velocidade.
O interior e a comparação com a Tesla
Eu já tive períodos consideráveis com um Tesla e creio que posso, nesse cenário, trazê-lo para essa perspectiva. Comparar o Song Plus com os veículos da Tesla é reviver a batalha Mac vs. PC ou iOS vs. Android. Enquanto a Tesla segue o mantra do “mova-se rápido e quebre coisas”, entregando um minimalismo radical e por vezes estéril, a BYD entrega um produto que preza pelo acabamento e conforto.

Se entrarmos em um Model Y, a sensação é de estar em um laboratório de tecnologia. No Song Plus 2025, a sensação é de um lounge. O acabamento em soft touch, a iluminação ambiente e os novos bancos inteiriços (agora ventilados) remetem ao cuidado que a Apple tem com o design industrial. Não há a sensação de “protótipo”.
A Tesla quer que você use a interface dela, os mapas dela e o Spotify dela. A BYD, pragmaticamente, entende que a melhor interface é aquela que você já tem no bolso.
Integração com o ecossistema da Apple: fricção zero
Aqui é onde o Song Plus brilha para o usuário da Maçã. A integração vai muito além do Bluetooth.
Chave digital (NFC) no app Carteira (Wallet)
O Song Plus suporta nativamente a chave no app Carteira. A tecnologia NFC 1 permite destrancar o carro aproximando o iPhone ou o Apple Watch do retrovisor.
Para quem pratica esportes ou busca minimalismo, sair de casa apenas com o Apple Watch e os AirPods e poder entrar e ligar o carro é a definição de liberdade. Além disso, é possível ligar o carro à distância e sair sem a chave.
Tela de 15,6 polegadas
A tela rotativa tem 15,6 polegadas. O sistema nativo (DiLink) ainda é confuso e visualmente poluído (falaremos disso mais tarde). Mas, ao conectar o CarPlay, a conexão é imediata!

Isso em si não é uma novidade, até porque muitos veículos possuem CarPlay. Mas ter o Waze, a sua agenda e os seus podcasts em uma tela desse tamanho, com resolução Retina, é uma experiência bem interessante — isso sem contar o sistema de som que envolve o carro.
Produtividade: o escritório móvel (V2L)
Em tempos de trabalho remoto e nomadismo digital, o carro se torna um terceiro espaço. O isolamento acústico (NVH) do Song Plus é excelente, permitindo reuniões (calls) cristalinas. É possível, inclusive, espelhar a tela do iPhone ou do iPad na do veículo, tornando o carro um escritório.
Provavelmente um dos recursos mais subestimados é o V2L (vehicle to load). O adaptador incluso transforma a porta de carregamento em uma tomada 220V comum. Imagine estar em uma locação remota ou durante uma queda de luz. Você pode conectar o seu MacBook Pro, um monitor externo e até uma cafeteira diretamente no carro! A bateria gigante do veículo alimenta seu escritório móvel por horas com um impacto irrisório na autonomia. É o power bank definitivo!
As críticas necessárias
Apesar do hardware de ponta, a BYD ainda tropeça onde a Apple é mestre: software e refinamento de UX 2.
- Software nativo (DiLink): a interface da BYD é uma mistura de boas ideias com execução duvidosa. Ícones inconsistentes, menus labirínticos para funções simples e traduções que variam de tamanho de fonte. A dependência do CarPlay para uma boa experiência visual é praticamente total.
- ADAS (assistência ao motorista): o piloto automático adaptativo e a permanência em faixa são competentes, mas “histéricos”. Os alertas sonoros são excessivos e a correção de volante é robótica, faltando a suavidade humana que vemos em sistemas mais maduros como o da própria Tesla ou da Volvo.
- Piano Black: o console central é lindo na concessionária, mas é um ímã de riscos e marcas de dedo. Um erro de design que a indústria insiste em repetir.
Não dá para esperar que um veículo agrade a todos em tudo, mas a BYD tem uma tarefa de casa interessante a fazer.
Conclusão
O BYD Song Plus 2025 não é perfeito, mas no momento — e no Brasil, já existem muitas outras opções interessantes no mercado externo —, é o produto que melhor preenche o vácuo deixado pelo “Apple Car”. Ele oferece a construção sólida, o silêncio e a eficiência energética que são associados a produtos premium, sem tentar reinventar a roda com volantes estranhos ou ergonomia questionável.
Para um usuário Apple, ele é a escolha racional. Enquanto a Tesla oferece a promessa de um futuro autônomo, a BYD entrega a excelência do presente: um hardware robusto que se integra perfeitamente ao seu iPhone e permite que você produza, viaje e se desloque com conforto e segurança.