Autor(a) convidado(a)
Wendell Erllen
Ex-aluno de biomedicina e atualmente no 6º período de medicina na FPS (Faculdade Pernambucana de Saúde). É usuário do ecossistema Apple desde o iPhone 4. Atualmente tem iPhone, Apple Watch, MacBook Air, iPad e Apple TV 4K.
Após uma história de saúde envolvendo o Apple Watch publicada recentemente aqui no MacMagazine — e um comentário meu na matéria que despertou o interesse do site —, resolvi compartilhar a minha experiência com o Apple Watch Ultra 2.
Antes de tudo, quero contextualizar: sou aluno de medicina e estou na metade do curso, o que me dá mais capacidade de interpretar alguns sinais dos alertas do relógio.
Eu tenho doença autoimune (alopécia areata) e, devido a isso, já fiz uso de muito corticoide em tempo prolongado, o que é um fator de risco. Mas já faz alguns anos que não há mais necessidade de tomar.
Enquanto eu tomava, estava sempre em acompanhamento médico (fazendo exames), mas quando parei, relaxei e fiquei um bom tempo sem avaliar meu colesterol (corticoide aumenta o LDL, conhecido como colesterol ruim). Entretanto, jamais imaginei que infartaria aos 35 anos — e sobreviveria!
Aconteceu em 6 de março deste ano — ainda está recente. Eu cheguei da faculdade no dia anterior (uma quinta-feira) muito cansado e dormi por volta das 18h30, acordando às 22h. Recebi o feedback dos Sinais Vitais do Apple Watch Ultra 2, como toda vez que eu durmo, independentemente da hora do dia. Só que, dessa vez, com um alerta.
Como usar o app Sinais Vitais do Apple Watch
Pedro Henrique Nunes16/10/2024 • 08:00Durante o meu sono, minha frequência cardíaca aumentou acima do meu padrão — o Apple Watch monitora de forma individualizada, para cada usuário. Como eu não havia jantado, ignorei o alerta. Comi algo e me organizei para voltar a dormir.
Só que, quando eu deitei, comecei a sentir dor epigástrica (como se subisse do estômago para o meio do peito, região esternal), e a dor passava quando eu sentava ou ficava em pé. Depois desse episódio, consegui dormir normalmente.

No dia seguinte, foi feriado (Data Magna) no meu estado, Pernambuco. Acordei por volta das 9h da manhã perfeitamente bem, como se nada tivesse acontecido, e fui tomar café da manhã. Quando acabei, fui deitar e procurar algo para assistir, pois queria aproveitar o feriado para descansar e relaxar.
Ao me alimentar e deitar, a dor da noite anterior voltou com a mesma intensidade. Deitado, com dor; sentado ou em pé, sem dor.
O que eu fiz? Eu tomei um remédio para dor de estômago, um antiácido e esperei fazer efeito. Esse tipo de dor torácica é muito sugestiva de Doença do Refluxo Gastroesofágico.
Um tempo depois, a medicação não fez efeito e a dor que eu sentia (apenas sentado) começou a não passar quando eu levantava. Nesse momento, eu lembrei do alerta que havia recebido do Apple Watch e pensei: Será? E foi!
A minha conclusão: sim, o alerta fez diferença — principalmente por eu não ter o perfil para infartar tão jovem.
Sempre pratiquei atividade física, durante toda a minha vida. Fui atleta de natação pelo colégio, jogo vôlei com amigos, faço musculação, corro… inclusive, ganhei o GymRats entre meus amigos ano passado com mais de 250 treinos (fora os check-ins que esqueci de fazer) — até o infarto, eu liderava o de 2026. Não sou hipertenso, diabético, obeso… enfim, a intenção é dizer que eu não tenho nenhuma comorbidade que me levasse a crer que isso aconteceria.
O fato é que eu poderia ter tomado mais remédios para o estômago, poderia ter aguardado mais ou qualquer outra coisa. Eu moro sozinho, poderia não conseguir ajuda e morrer trancado em casa. Mas eu fui capaz de agir rápido. Tive tempo e condições físicas de, mesmo com dor, tomar um banho, pegar o carro e me dirigir até o hospital sozinho.
Chegando lá, eu passei mal de verdade. Comecei a ter sudorese, dor mais forte e fui atendido rapidamente. Os exames estavam alterados: eletrocardiograma sugestivo de infarto agudo do miocárdio com supra de ST, pressão alta e eu estava bastante ansioso. Eu poderia ter começado a passar mal desse jeito em casa, mas consegui chegar ao hospital.
Fiz duas angioplastias para desobstruir duas artérias. Por que não fiz tudo de uma vez? Porque tive taquicardia ventricular (parada cardiorrespiratória), então preferiram fazer a outra artéria dias depois. Passei uma semana na UTI, tive alta e hoje estou bem.
Ter agido rápido não apenas salvou minha vida — já que em pessoas jovens o infarto costuma ser mais grave —, como também evitou um dano maior. No meio médico dizem que “tempo é músculo (cardíaco)”. Minha lesão acabou sendo muito discreta para o tipo de infarto que eu tive. Hoje eu estou apto a praticar qualquer atividade física e levo uma vida normal, só que com mais atenção aos riscos de agora em diante.
Vale ressaltar que o alerta de frequência cardíaca elevada, por si só, não caracteriza infarto. A frequência cardíaca pode subir por diversas causas: ansiedade, esforço físico, dor, febre, problemas hormonais, consumo de energéticos… e por aí vai.
O alerta não é motivo para ninguém ficar assustado e correr pro hospital toda vez que, esporadicamente, surgir um alerta do Apple Watch — que, lembrando, não é capaz de fazer diagnóstico. No meu caso, houve um conjunto de fatores que me levaram a crer numa hipótese bem atípica para a minha idade e acabou sendo real.
Sem o alerta, talvez eu continuasse pensando, por muito mais tempo, que o problema era no estômago. Mas eu tive algo no meu pulso me dizendo: “Olha, pode ser que o problema esteja aqui, e não ali.” ⌚️
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