Há pouco mais de uma semana, eu fiz aqui uma conta que me deixou com a pulga atrás da orelha. Calculei quantas horas a mais alguém precisa trabalhar para comprar um produto da Apple depois dos aumentos dos preços. A conta acabou, mas a curiosidade ficou: e se eu voltasse lá no começo? Quantas horas de trabalho custou cada iPhone, do primeiro até o 17, medido pelo salário mínimo da época de cada lançamento?
Peguei a régua e fui até 2007. A lógica é a mesma da matéria anterior: dividi o preço de lançamento de cada geração pelo salário mínimo por hora vigente naquele momento. Para ser justo, uso sempre o preço cheio publicado pela Apple — nada de preço subsidiado com plano de operadora — aqueles US$199 que a Apple estampava nos comerciais dos anos 2000 e que escondiam o custo real do aparelho.
No Brasil, isso vale a partir do iPhone 4s (2011), quando a Maçã passou a vender o aparelho diretamente no país; nos anos anteriores, recorro ao preço de lançamento praticado na época.
Nos Estados Unidos, a série começa no iPhone original. No Brasil, ela só pode começar em 2008: o primeiro iPhone (2007) nunca foi vendido oficialmente no nosso país. O estreante nacional foi o iPhone 3G, que chegou em setembro de 2008, porém pelas mãos de operadoras — e com uma etiqueta de preço que ninguém esqueceu.
A tabela das (muitas) horas
Cada célula traz o preço de lançamento e quantas horas no salário mínimo da época ele representava.
(*) Preço de lançamento da época (aparelho desbloqueado, nas operadoras), e não a tabela oficial da Apple. Isso vale para os iPhones 3G, 3GS e 4 — anos em que a Apple ainda não vendia iPhones diretamente no Brasil — e também para o iPhone 5.
A venda direta começou no 4s (em dezembro de 2011), mas a Apple só passou a vender o 5 por aqui em junho de 2013, meses depois do lançamento (e pelo mesmo valor). Do 5s em diante, todos são tabela oficial da Apple Brasil.
Como cheguei aos números: usei o preço de lançamento de cada geração (modelo de armazenamento de entrada, sempre na versão cheia/desbloqueada — não o preço subsidiado com plano) e dividi pelo salário mínimo por hora vigente na data.
No iPhone original de 2007, considero a versão de 8GB (US$599), que de fato foi vendida, e não a de 4GB (US$499), descontinuada em poucas semanas.
Nos EUA, o piso federal por hora: US$5,15 no lançamento do iPhone original (junho/2007, semanas antes do reajuste para US$5,85); US$6,55 em 2008; e US$7,25 de julho/2009 até hoje (fonte: US Department of Labor).
No Brasil, usei o preço oficial de tabela da Apple sempre que ele existe — o que vale do iPhone 4s (dezembro de 2011, quando a Apple passou a vender o aparelho diretamente no país) em diante. Para as gerações anteriores (3G, 3GS e iPhone 4) e para o iPhone 5 (que a Apple só passou a vender meses após o lançamento), usei o preço de lançamento disponível na época, o aparelho desbloqueado/à vista (itens com asterisco na tabela).
Converti o salário mínimo mensal em valor/hora dividindo por 191 — a jornada mensal de quem efetivamente trabalha 44 horas semanais, a mesma régua usada na outra matéria desta série (mínimos de R$415 em 2008 a R$1.518 em 2025; fontes oficiais via Planalto/IBGE).
O iPhone original de 2007 não entrou na coluna do Brasil porque nunca foi vendido oficialmente no país.
EUA: o salário que parou no tempo
O dado mais curioso do lado americano é quase um truque de mágica. O iPhone 17, hoje, custa 110 horas de trabalho no salário mínimo federal. O primeiro iPhone, em 2007, custava 116 horas. Ou seja: quase o mesmo esforço, 18 anos depois.
A explicação não é generosidade da Apple. É que o salário mínimo federal americano está congelado em US$7,25 desde julho de 2009 — o período mais longo sem reajuste na história do país. Do iPhone 4 (2010) para cá, todas as gerações nasceram contra esse mesmo piso. Então, quando o preço sobe de US$599 para US$799, a conta sobe junto de 83 para 110 horas. Não há aumento de salário para amortecer. O americano de salário mínimo trabalha, hoje, quase três semanas por um iPhone de entrada — mais do que trabalhava no iPhone 4 e quase o mesmo do longínquo ano de 2007.
Brasil: uma montanha-russa de quase uma década
No nosso país, a história é outra — e bem menos linear. O iPhone 3G (de 2008) chegou por R$2.299 num país onde o salário mínimo era R$415. Resultado: 1.058 horas de trabalho, algo como cinco meses e meio de expediente para um único celular. Foi o choque de realidade que marcou a chegada oficial do smartphone da Apple ao Brasil.
Depois disso, veio uma queda surpreendente. Entre 2009 e 2010, com o salário mínimo subindo rápido, o esforço despencou até o iPhone 4 (2010): 674 horas, cerca de três meses e meio. Foi o iPhone mais “acessível” que o Brasil já teve, medido em horas de trabalho.
Aqui entra um detalhe histórico que mexe na conta. Até 2011, nem a própria Apple vendia iPhone no Brasil — tudo passava pelas operadoras. A Apple Store brasileira só começou a vender o aparelho diretamente com a chegada do iPhone 4s, em dezembro daquele ano, estreando com o valor mais salgado do mercado: R$2.599. De uma geração para a outra, o esforço pulou de 674 para mais de 900 horas — em parte porque, dali em diante, passei a usar o preço oficial da Maçã, sempre premium.
E, aí, a curva só subiu. Os preços escalaram mais rápido que o salário, o real foi perdendo força frente ao dólar e o topo histórico veio no iPhone 12 (2020): R$7.999 contra um mínimo de R$1.045 davam 1.462 horas — mais de 180 dias úteis, quase oito meses de trabalho. Pandemia, dólar nas alturas e o salto definitivo da Apple para a casa dos R$8.000 se juntaram no pior momento possível para o bolso brasileiro.
De lá para cá, alívio gradual. Do 12 ao 17, os preços em real ficaram praticamente parados — a Apple até baixou com a chegada do iPhone 15 — enquanto o mínimo seguiu subindo. O iPhone 17 fechou 2025 em 1.006 horas: ainda muito, ainda uns cinco meses de salário mínimo, mas o menor patamar desde o pico de 2020, de volta ao nível pré-pandemia.
O abismo que não fecha
Junte os dois lados e o retrato fica claro. Em quase duas décadas, o brasileiro de salário mínimo trabalhou, em geral, de 8 a 11 vezes mais horas que o americano pelo mesmo iPhone — e chegou a mais de 13 vezes no pior momento, com o iPhone 12. No 3G, a diferença passava de 10 vezes; no iPhone 17, segue em torno de 9. Mudou o modelo, mudou o chip, mudou a câmera, mas a proporção continua teimosamente parecida.
Na minha visão, é aí que mora o aprendizado. A Apple precifica em dólar e replica o número mundo afora; o que muda, de país para país, é quanto desse número cabe na vida real de quem trabalha. Nos EUA, o vilão é um salário que não anda; no Brasil, é a combinação de imposto, câmbio e um preço de partida que sempre nasce inflado. O aparelho é o mesmo. O sacrifício, não.
Talvez o mais irônico de toda essa série seja perceber que, do ponto de vista de horas trabalhadas, o iPhone quase não ficou “mais caro” em quase 20 anos — ele só ficou caro de jeitos diferentes, dependendo de onde você bate o ponto.