Meu portátil favorito

Meu portátil favorito

Alguns dias atrás, o algoritmo do YouTube me sugeriu um vídeo do — excelente! — Jeff Geerling que havia passado batido por mim: qual o melhor portátil já produzido pela Apple? Spoiler: pro Jeff, foi o MacBook Air de 11 polegadas.

Eu não sou fã de nenhum “ranking” que escolha o melhor ou a melhor coisa, seja lá o que for. Em geral, eles são sempre baseados em critérios subjetivos, que dependem de gostos ou preferências pessoais — e você sabe: gosto, cada um tem o seu.

Apesar de não concordar, admito que os argumentos do Jeff a favor do Air de 11″ são fortes e convincentes: verdadeiramente portátil, duas portas USB, MagSafe, uma boa bateria e capaz de rodar versões relativamente modernas do macOS, etc. Claro que essas especificações mudam de um ano pro outro, mas são semelhantes e válidas pra qualquer Air de 11″ entre 2010 e 2020.

O vídeo do Jeff me fez pensar no assunto. Qual seria o meu portátil preferido da Apple, segundo meus próprios critérios (subjetivos ou não)? Vejam que intencionalmente estou fugindo do termo “melhor” e usando “preferido”, pelos motivos explicados acima. Não estou fazendo uma análise técnica baseada em dados, benchmarks, etc. Farei, aqui, uma análise baseada na minha experiência pessoal e no que eu acho de diferentes portáteis da Apple aos quais tive acesso. Então provavelmente você não vai — e nem deve mesmo — concordar comigo. E está tudo bem! 😊

A linha atual dos MacBooks Air e Pro é, provavelmente, unanimidade entre os fãs da Maçã. O fator de forma um pouco mais quadrado, os pezinhos afastando a base da superfície agradaram a praticamente todos os usuários. Eu adoro. Acho um golaço de design!

Tive um MacBook Pro (M1 Pro) que recentemente troquei por um MacBook Air (M5). Para além do design, o Apple Silicon é um divisor de águas na história da empresa — talvez da computação pessoal como um todo. No mercado de computadores pessoais, há claramente um antes e um depois dos chips da série M em termos de performance e eficiência energética, e isso não se discute. Mas um computador pessoal não é, ou ao menos não deveria ser, apenas performance e eficiência. O que faz um computador pessoal, pessoal?

Eu acredito que há vários fatores que ajudam a criar esse vínculo com um computador e dar esse caráter pessoal a uma fria máquina de metal. Também acho que alguns desses fatores podem estar se perdendo com as gerações mais novas. Tomara que não, mas talvez os computadores pessoais estejam lentamente deixando de ser pessoais.

A enorme variedade de dispositivos disponíveis e o acesso cada vez mais universal a eles, faz com que o computador pessoal tenha cada vez menos importância na vida das gerações mais novas. Posso assistir YouTube no celular enquanto estou no ônibus, ver um filme na smart TV da sala, enviar uma mensagem de áudio no celular em vez de escrever um email. É cada vez menor a necessidade de sentar em frente ao computador para realizar alguma tarefa. É como se o computador estivesse voltando a ser apenas uma ferramenta de trabalho, como no início da informática.

Mas eu sou velho. Sou do tempo em que o computador era a única opção para assistir um filme “comprado” na internet ou jogar algum jogo que não fosse o da cobrinha. Ao longo dos anos, eu criei um vínculo muito forte com o computador pessoal e não consigo me imaginar substituindo-o completamente por outros dispositivos.

Majoritariamente sempre tive portáteis, e desde meados de 2006 quase que exclusivamente Macs. Dado o vínculo com todos os computadores que tive, não é uma tarefa fácil escolher um preferido. Vou tentar, pelo menos, criar o meu Top 5.

#5 – Meu primeiro zero!

Sim, somos eu e a patroa na foto acima, no início de 2011, com nossos MacBooks “white” (2007 e 2008).

O MacBook de policarbonato branco foi possivelmente o Mac que eu usei por mais tempo como meu daily driver. Foi meu primeiro Mac comprado novo, em uma Livraria Saraiva do Shopping Iguatemi (em Florianópolis), em janeiro de 2009.

Sempre na minha mochila, ia comigo onde quer que eu fosse. Foi onde escrevi minha tese de doutorado no Pages ’09 (última versão decente do Pages). De 2008 a 2015, foi meu parceiro fiel no dia a dia, por dois países e quatro cidades diferentes — até mesmo no interior da Argentina, quando íamos ensinar nanotecnologia a estudantes de escolas públicas rurais.

Foi aposentado em 2015 porque o backlight do LCD 1Liquid crystal display, ou display de cristal líquido. resolveu entregar os pontos e começou a desligar sozinho. Mas não foi sem luta. Tentei o que estava a meu alcance pra salvar meu fiel escudeiro!

#4 – Curvas, cores e uma alça

O ano é 1999, e eu tenho a oportunidade de ir a São Paulo participar da FENASOFT (Feira Nacional do Software) que, apesar do nome, tinha muito, mas muito hardware. Falei dela aqui com mais detalhes.

Um dos estandes que mais chamava a atenção era o da Apple, repleto de iMacs e Power Macs G3 e Studios Display que destoavam de tudo mais que se via na feira. Pareciam ter desembarcado de alguma nave alienígena no teto do Parque de Exposições do Anhembi.

Obviamente eu não tinha dinheiro pra nada daquilo, mas podia sonhar. Um dia teria um daqueles. Anos depois, lá por 2006/2007 aquele sonho já não estava tão distante, e já não custava mais um rim. Encontrei então um iBook G3 bondi blue. Meu primeiro Mac. Processador PowerPC de 300MHz, 32MB de RAM 2Random access memory, ou memória de acesso aleatório., 6GB de HDD 3Hard disk drive, ou disco rígido., rodando o Mac OS 9. Foi entregue pela motoca dos Correios em um sábado pela manhã. Lembro como se fosse hoje de acordar cedinho naquele sábado para esperar a entrega. Vai que o entregador chega cedo, eu demoro pra acordar/atender, e ele desiste? Melhor não correr o risco! Às 7h da manhã eu estava de pé. Ele chegou quase ao meio-dia.

Com o upgrade de HDD maior, um pente de memória de 512MB e um cartão Wi-Fi Orinoco (reconhecido pelo Mac OS como um AirPort original) aquele iBook estava pronto pra rodar o Mac OS 10.3 Panther. Os 300MHz do PowerPC 750 (G3) sofriam com o 10.4 Tiger. O Panther era a escolha mais segura. Além disso, o Panther tinha uma killer feature, algo inédito e absolutamente revolucionário para a época chamado Exposé. Um toque na tecla F9 e o Panther mostrava na tela miniaturas de todas as janelas abertas e permitia que o usuário escolhesse em qual delas queria trabalhar.

Com a robustez e estabilidade do Mac OS X, o gerenciamento de memória eficiente e a potência do chip PowerPC, era possível trabalhar com inúmeros programas abertos ao mesmo tempo e alternar entre dezenas de janelas de maneira rápida e fácil com o Exposé. Ele me fisgou desde o primeiro momento. Eu nunca mais deixaria de usá-lo.

Usei meu iBook G3 por pelo menos um ano, talvez um pouco mais. Ouvi comentários sarcásticos, como:

Nossa, eu tive um desses décadas atrás!

E até maldosos:

Onde você comprou esse brinquedinho? Quero dar um pra minha filha.

Não me importava. Meu privadinha fazia tudo que os PCs da época faziam, apenas um pouco mais devagar. Mesmo com todos os upgrades, em 2007 um iBook G3 de 1999 já estava bastante defasado. Restaurei a bateria dele com células de íons de lítio 18650 e inclusive pintei a carcaça de preto — sim, cometi esse crime!

Infelizmente não consegui achar nenhuma foto dessa época. Revirei backups antigos, emails, pedi a ajuda de amigos, mas não consegui achar nenhum registro da existência do meu iBook G3 black. Vocês terão que acreditar em mim.

O iBook G3 e o Mac OS X (principalmente pelo Exposé), me deram um gostinho do que era o mundo Mac e como era ser um Mac user.

#3 – Portátil com P maiúsculo!

Não há como fazer uma seleção ou lista dos melhores portáteis da história da Apple sem colocar o MacBook Air a partir de 2010 (quando passou a ser equipado com um SSD 4Solid-state drive, ou unidade de estado sólido. de verdade e não aquele HDD de iPod).

Seja o modelo de 11″ ou de 13″, o Air foi quase tudo o que se esperava de um portátil: leve, pequeno, com uma boa bateria para algumas horas de trabalho, uma excelente tela — e tudo isso sem uma grande desvantagem em termos de potência e desempenho. Além disso, temos ainda a robustez e a qualidade da construção em alumínio unibody, um método de fabricação que foi um divisor de águas não apenas para a Apple mas para toda a indústria de computadores portáteis.

MacBook e alumínio

Como a Apple fez o mundo se apaixonar pelo alumínio

Marcos Daniel Vozer Felisberto17/07/2022 • 12:00

Aqui em casa, eu e a patroa passamos dos MacBooks white de policarbonato ao Air 11″, um modelo 2014 e outro 2015. Um deles foi comprado de um padre high tech, que em uma viagem de férias aos EUA comprou o recém-lançado iPad Pro 12,9″ e voltou ao Brasil convencido que notebooks eram coisa do passado.

De repente eu, um ateu convicto, me vi na casa paroquial da igreja de uma cidadezinha no interior da Argentina, negociando a preço de banana um MacBook com menos de um ano de uso diretamente das mãos do padre, torcendo para meu corpo não entrar em combustão espontânea.

O salto de qualidade dos nossos velhos branquinhos de policarbonato para os MacBooks Air foi absurdo! Minha esposa usou o seu por quase dez anos, até 2023, quando comprou um Air com chip M2. Eu usei o meu até a pandemia, quando o trabalho em casa tornou um portátil desnecessário e o peso da idade começou a se mostrar diante de uma telinha de 11″. O que me leva ao número dois da minha lista.

#2 – Grande, pesado e… maravilhoso!

O grande diferencial do Air de 11″ era, sem dúvida nenhuma, sua portabilidade. Entrava em qualquer bolsa/mochila e era facilmente carregado de um lado pro outro sem grande esforço. Mas o tempo cobra seu preço, e a partir de um certo ponto na vida, o tamanho de tela necessário para se trabalhar de maneira minimamente confortável começa a ser diretamente proporcional à idade. Trocando em miúdos: velho precisa de telas maiores! Esse momento chegou para mim durante a pandemia. Vendi o Air (2015) e comprei um iMac de 27″ (2010). Foi um caminho sem volta!

Com o fim da pandemia e o retorno ao trabalho presencial, voltei a pensar em um “portátil”. Entre aspas porque eu queria algo que pudesse carregar comigo sem abrir mão de uma tela razoavelmente grande. Foi aí que entrou na minha vida o MacBook Pro de 17″.

É interessante como há um vai e volta com o tamanho de telas de laptops ao longo da história. Eu acho (e aqui é apenas achismo mesmo, não tenho dados sobre isso), que as variações nos tamanhos de tela dependem mais da indústria de LCD do que de tendências de moda ou desejo dos consumidores.

Houve uma época em que todos os laptops no mercado eram de 15,4″. Houve a fase do de 13″, de 12″ e de 17″. Isso parece ir e voltar de acordo com o custo de produção e a evolução da tecnologia.

Veja que hoje a Apple produz MacBooks de 16″, e não de 17″. Fato mesmo é que a Apple foi a primeira fabricante a lançar um laptop com tela de 17″. Foi o PowerBook G4 de alumínio, lançado em janeiro de 2003. Usava a mesma tela de 17″ do iMac G4 e, quando fechado, tinha apenas 1″ de espessura, sendo mais fino que a geração anterior (o PowerBook Ti). Na época, foi algo realmente novo e surpreendente, diga-se pela reação da plateia ao anuncio de Jobs na Macworld de 2003.

Meu primeiro gigante de 17” foi um MacBook Pro com chip Intel (começo de 2008). Com a construção em alumínio, mas pré-unibody, era visualmente idêntico ao PowerBook G4. Com os já tradicionais upgrades de memória e um SSD no lugar do HDD, rodando o Mac OS 10.13 High Sierra, esse MacBook funcionava perfeitamente em 2022 (inclusive a bateria), e fazia tudo que eu precisava pra trabalhar!

A experiência foi tão boa com essa tela que, alguns meses depois, busquei algo um pouquinho menos antigo, e acabei achando um MacBook Pro de 17″ (2010) — esse sim já unibody. Em perfeitas condições, sem nenhum arranhão ou amassado, com a bateria original durando horas. Parecia que tinha sido tirado da caixa no dia anterior!

Foi minha máquina de uso diário por pelo menos um ano, até ser substituído por um MacBook Pro (M1 Pro). Com a ajuda do OpenCore Legacy Patcher, poderia estar rodando o macOS Sequoia 15, alguma distribuição qualquer de Linux ou mesmo Windows 10. Mas eu não quero forçar o meu gigante sem necessidade.

Hoje, ele roda do jeito que saiu de fábrica, com o melhor sistema operacional já produzido pela Apple (Mac OS X 10.6 Snow Leopard), a melhor versão do iWork já produzida pela Apple (iWork ’09) e o querido e também excelente AppleWorks 6 (que inclusive é o que estou usando para escrever este texto). É minha máquina de escrever de 17″! Obviamente, pesando 3kg, a portabilidade fica bastante comprometida para os padrões atuais. Mas essa tela, meus amigos, justifica todo o esforço!

# Menções honrosas

Antes de partir para o #1 dessa lista gerada por um humano sem a “ajuda” de nenhuma inteligência artificial, deixe-me fazer algumas menções honrosas. Alguns modelos de portáteis da Apple que poderiam facilmente estar nessa lista, e não estão por detalhes totalmente subjetivos.

  • MacBook Pro com tela Retina (2012): um tanque de guerra. Marcou o fim de uma era, sendo um dos últimos modelos passíveis de algum upgrade por parte do usuário.
  • PowerBook G3 (Kanga/Wallstreet/PQD/Lombard/Pismo): diferentemente dos iBooks G3, os PowerBooks G3 tinham um design sóbrio, elegante e profissional. Além disso, foram a última geração de portáteis da Apple com o charme da Maçã iluminada na tampa de cabeça para baixo.
  • PowerBook G4 de 12″: eu falei dele em detalhes aqui. Foi um sucesso de vendas, com um fator de forma que caiu no gosto dos consumidores. Não devia nada ao PowerBook de 15″ e 17″ em termos de performance e conectividade. Tenho dois na minha coleção, e inclusive usei um deles para escrever a primeira metade deste texto.

#1 – Bonito, estiloso, compacto e que teclado!

Aquele iBook G3, que foi o meu primeiro Mac, serviu pra me dar uma ideia do que era o mundo Mac, mas ele já era bastante defasado em 2007/2008. Em 2008 eu estava usando o Mac OS X 10.3 Panther (lançado em 2003), enquanto o mundo Apple só tinha olhos para o Mac OS X 10.5 Leopard, que havia sido lançado em 2007. Sem falar que a Apple já havia migrado para os processadores Intel e os Macs PowerPC estavam prestes a serem abandonados.

Eu precisava de algo um pouco mais novo, que me desse uma boa ideia do que era um Mac. A oportunidade surgiu com um iBook G4 de 12″ (meados de 2005). Com um processador PowerPC de 1.33GHz e 1,5GB de RAM, ele rodava o Leopard sem grandes dificuldades. Em excelente estado, na sua caixa original com todos os acessórios, aquele iBook mudou (e moldou) a minha relação com computadores, e principalmente, com a Apple.

A primeira coisa que chamava a atenção no iBook G4 era a performance. Como ele rivalizava com todos os PCs da época e fazia tudo que os PCs faziam de uma maneira aparentemente mais rápida e responsiva — o bichinho era um canhão! Depois, o design e o fator de forma. Convenhamos, ele era é lindo! Acho o policarbonato branco mais bonito do que o alumínio do PowerBook G4 de 12″, que tem idêntico fator de forma.

É um tamanho perfeito, compacto (para os padrões da época), com portas e mais portas para conexão de periféricos. A tela era excelente! Sim, já sei o que você deve estar pensando. “Como assim? Você acabou de se declarar para a tela de 17″! Como que agora vai exaltar uma de 12″?”, bom, lembre-se que a resolução da tela de 12″ do iBook G4 era de 1024×768 pixels. Absolutamente perfeita para o tamanho e não fazia as coisas serem tão pequenas e densas. Além disso, a interface do Mac OS X e dos softwares em geral eram mais clean naquela época, sem tantas notificações, menus, efeitos visuais, etc. Bons tempos!

Outro detalhe que chamava a atenção logo de cara naquele iBook era o teclado. Digitar nele era como viajar em um Ford Landau 1974, reagindo suavemente a qualquer oscilação ou buraco na pista, em um movimento amortizado de sobe e desce. Cada tecla pressionada se move suavemente a distância correta (nem muito, nem pouco), imprimindo cada caractere na tela de maneira quase silenciosa, com um leve murmúrio que soa agradável à quem digita. Ficou poético, mas é verdade! E esse teclado maravilhoso não se resumia ao iBook G4. Todos os PowerBooks e até os primeiros MacBooks Pro de alumínio compartilhavam desse mesmo tipo de teclado.

Eu tenho tanto carinho pelo iBook G4 de 12″ que atualmente tenho dois na minha coleção. Um deles está sendo restaurado e vai se transformar na minha máquina de escrever portátil. Vai ganhar um SSD e uma bateria nova (vou restaurar como fiz com a do clamshell). É, sem sombra de dúvidas, meu portátil Apple favorito!

Vida longa ao nosso hardware, seja novo ou antigo! E que você não perca nunca a relação que faz o seu computador ser pessoal à você!

E qual é o seu portátil preferido da Apple? Deixa aí nos comentários, ou vote na enquete no Fórum do MM!

Notas de rodapé

  • 1Liquid crystal display, ou display de cristal líquido.
  • 2Random access memory, ou memória de acesso aleatório.
  • 3Hard disk drive, ou disco rígido.
  • 4Solid-state drive, ou unidade de estado sólido.