Eu devo ter sido um dos seis compradores do novo Apple Vision Pro (com chip M5) no planeta inteiro. 😛
A ideia deste texto não é fazer um review técnico do produto, mas compartilhar a experiência de compra caótica que tive em duas lojas para conseguir pôr as mãos no produto de fato, porque é justamente aí que a famosa “experiência Apple” começou a falhar para mim.
Antes de entrar na novela que foi adquirir esse AVP, vou tentar resumir rapidamente em um ou dois parágrafos o que senti de diferença em relação ao Vision Pro com chip M2, que eu já tinha testado.
No meu uso, eu diria que não vale acreditar em tudo o que você ouve nos vídeos por aí — pelo menos não na forma exagerada com que pintam a ideia de que o M5 “resolveu quase todos” os problemas do M2. Na prática, dentro do que dá para usar hoje com os aplicativos disponíveis, a diferença não é nada de outro planeta.
É mais rápido? Sim. É melhor em alguns pontos? Sim. Mas vale a pena gastar de novo US$3.500 ou desembolsar isso pela primeira vez, só por isso? Na minha opinião, não. Tanto que estou seriamente considerando devolvê-lo à loja e pegar um M2 usado no marketplace, por menos da metade do preço.
A nova faixa de cabeça realmente melhora bastante a experiência de uso — dá para ficar mais tempo com o Vision Pro sem sofrer tanto —, mas o equipamento continua pesado, cansa a vista e deixa marcas no rosto produto. Se a Apple conseguir manter a qualidade e reduzir o peso nas próximas gerações, já vai ser um grande ganho! Nem precisa ficar fazendo tanto barulho com novos chips (“M6”, “M7”, “M8”, etc.), só resolver o peso já mudaria muita coisa. E nem preciso repetir que ela precisa reduzir o preço, né?

Mas vamos ao verdadeiro motivo deste texto. Porque, para um produto que custa quase US$4.000 nos Estados Unidos — e bem mais de C$5.000 no meu caso, aqui perto de Montreal (Canadá) —, a Apple está com um problema sério de discurso e execução para convencer o cliente de que esse produto, de fato, vale a pena.
E não é só sobre especificações, mas sim coerência com o padrão de excelência que a própria Apple vende.
A primeira loja: animação estranha e kit inexistente
Fui a uma Apple Store de shopping, chamada Fairview Pointe-Claire, já perto do horário de fechar. Quando eu falei para o gerente que queria comprar um Vision Pro, ele ficou até “empolgado”. Mas era uma empolgação estranha, claramente do tipo “finalmente vou conseguir vender um Vision Pro”, e não aquela vibe natural de quem fala de iPhone, Mac ou Apple Watch todo dia.

No fim, nem deu para comprar, porque não tinham a versão no meu tamanho. Beleza, isso acontece… mas o gerente fez o possível do lado dele. Olhei o estoque em outra loja e parti para lá, pois era a única naquele dia que não fechava às 18h, e sim às 20h. E é aí que a história fica surreal.
A segunda loja: barrado na porta e recusado na hora da compra
Fui a essa segunda loja, no coração de Montreal (Apple Saint-Catherine). Cheguei faltando cerca de cinco minutos para fechar, pois peguei muito trânsito entre uma loja e outra.

O segurança me barrou na porta e perguntou o que eu queria. Respondi que queria comprar um Vision Pro. Ele fez uma cara de indignação e soltou:
Você vai comprar um Vision Pro? Vai pagar como? Em dinheiro?
Nesse momento, meu lado “Michel Russomano” entrou automaticamente em ação. Respirei fundo e respondi:
Me desculpe, mas por que isso lhe interessa? A loja está aberta ou não?
Como ainda não eram 20h, a loja estava oficialmente aberta, então entrei. Já lá dentro, falei com uma gerente, expliquei o que queria e, para a minha surpresa, ela simplesmente não quis me vender o produto.
A justificativa dela foi:
Falta pouco tempo para a loja fechar, não vai dar tempo de montar o kit. Volte outro dia.
Saí de lá com uma interrogação gigante na testa. Primeiro, pela postura completamente inadequada do segurança — não vou entrar aqui nos adjetivos que passaram pela minha cabeça, mas não soou nada profissional. Como ele era terceirizado, tentei relevar.
Mas o que realmente me espantou foi a gerente da Apple Store recusar vender um produto de US$3.500 porque “dava trabalho montar o kit”. A Apple já foi sinônimo de cuidado em cada detalhe; ver isso acontecer foi, no mínimo, estranho.
Sim, eu mandei um email para o Tim Cook — e a resposta veio
Assim que cheguei em casa, fiz o que qualquer pessoa razoavelmente irritada e nerd faria: mandei um email para Tim Cook. Sei que ele não lê tudo diretamente, mas também sei que, quando algo é grave o bastante, alguém do time dele pega o caso.
Dito e feito: no dia seguinte, várias pessoas me ligaram para entender o que havia acontecido. Ou seja, o canal funciona. Mas a sensação que ficou foi outra: parece que nem os próprios funcionários da Apple acreditam muito no Vision Pro.
Nova tentativa na primeira loja (agora com estoque): atendimento ótimo, mas execução questionável
Dois dias depois, voltei à primeira loja, em Point Claire, pois tinham o meu tamanho de suporte de cabeça.
O atendimento foi excelente. Fui tratado com educação, tiveram paciência, brincaram com meu filho enquanto montavam o Vision Pro… foi uma experiência humana e positiva. Mas, ainda assim, não foi uma venda típica Apple.
A pessoa que me atendeu nunca tinha vendido um Vision Pro antes, e precisou de ajuda. Mesmo assim, não foi uma ajuda “confiante”; foi quase um processo de tentativa e erro para seguir o fluxo no sistema. Me passou impressão que não investiram muito no treinamento do Vision Pro.
A sacola rasgada, a caixa torta e o papel amassado
Na hora de embalar, pegaram a maior sacola da loja… e rasgaram duas delas tentando colocar a caixa do Vision Pro dentro. Aparentemente, a caixa do Vision Pro com chip M5 é maior que a do M2, e ninguém fez o simples teste de ver se ela cabia na maior sacola disponível na loja.
Chegando em casa, notei outra coisa: como a caixa é montada na loja, ela simplesmente não tinha o padrão Apple de sempre. Os lacres estavam tortos e desalinhados.
Ao abri-la, vários suportes de papel que deveriam proteger o produto estavam soltos, amassados ou simplesmente não segurando nada; não parecia nada um produto com o cuidado Apple de entrega.
Então por que eu talvez devolva o Vision Pro com chip M5? O motivo é simples
Depois de tudo isso e, embora o modelo com M5 seja mais rápido, ficar convertendo fotos para espacial ou mexendo com modelos 3D pesados não são coisas que eu me vejo fazendo com frequência a ponto de justificar quase US$4.000. Um Vision Pro (M2) ainda aguenta muito bem o uso que a maioria das pessoas realmente faz: funcionar como monitor virtual, assistir a filmes, brincar em um app ou outro de vez em quando…
Pela metade do preço — ainda caro, mas muito mais realista —, o AVP (M2) entrega praticamente o mesmo que o headset com M5 oferece hoje no mundo real.
Não tenho dúvida de que falta engajamento dos desenvolvedores e das empresas para criar apps específicos para o Vision Pro, mas ainda temos poucas opções. Se você passar 10 ou 15 dias com o aparelho, a “empolgação” inicial evapora rápido e inevitavelmente surge a pergunta que ninguém gosta de fazer em voz alta: “Para que serve, mesmo?”
Observação importante
O gerente de maior “patente” da loja onde o segurança me questionou por que eu estava ali e onde se recusaram a me vender o Vision Pro me ligou duas vezes. Uma, para dizer que abririam uma investigação interna; e outra, dias depois, para me atualizar que:
- Falaram com a empresa terceirizada.
- Reforçaram para toda a equipe que a loja não pode fechar antes do horário.
- Que, se o cliente está dentro da loja, o produto deve ser vendido.
É um passo na direção certa. Mas, para um produto como o Vision Pro (M5), não bastam passos. A Apple precisa recuperar algo que sempre vendeu como o seu maior diferencial: a confiança de que, do momento em que você entra na loja até o momento em que liga o dispositivo em casa, você está em boas mãos.
Dessa vez, infelizmente, não foi o que eu senti.
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Preço: a partir de US$3.499Armazenamento: 256GB, 512GB ou 1TB
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