Cientistas pedem órgão global para fiscalizar sistemas de IA avançada

Cientistas pedem órgão global para fiscalizar sistemas de IA avançada

Cerca de 400 cientistas, entre eles Geoffrey Hinton e Yoshua Bengio, defenderam nesta terça-feira (13) a criação de um órgão internacional para supervisionar a segurança da inteligência artificial (IA).

Em uma carta aberta, o grupo propõe padrões de segurança, avaliações independentes e um registro de incidentes envolvendo modelos capazes de comprometer sistemas externos. Para os pesquisadores, os compromissos voluntários das empresas não são suficientes.

Inteligência artificial ocupa o centro das discussões sobre segurança global na ONU, enquanto países debatem riscos, regulação, fiscalização e mecanismos internacionais de controle diante do avanço de sistemas autônomos
Cientistas argumentam que pactos voluntários assinados por big techs na Casa Branca não garantem proteção suficiente. – Imagem: gerada por IA

Modelos avançados sob supervisão independente

Uma das recomendações é manter os modelos mais avançados isolados de redes externas durante as etapas iniciais de desenvolvimento e avaliação. Para isso, os cientistas citam o air gap, técnica que impede a conexão de um sistema com a internet e outras redes.

A preocupação vem de episódios em que modelos de IA conseguiram ultrapassar restrições impostas durante testes. Como comentamos aqui no Olhar Digital, recentemente, dois modelos da OpenAI acessaram a internet e entraram no Hugging Face, plataforma que hospeda modelos e outros recursos de inteligência artificial.

Para os signatários, incidentes desse tipo podem provocar danos mais graves a infraestruturas importantes se as práticas de segurança não forem reforçadas. A carta também propõe a criação de um registro de ocorrências relevantes, cujas informações poderiam ser divulgadas ao público futuramente.

As recomendações incluem:

  • Padrões comuns: critérios de segurança aplicáveis ao setor de inteligência artificial;
  • Registro de incidentes: documentação de ocorrências relevantes envolvendo modelos avançados;
  • Avaliação independente: análise dos sistemas por entidades externas às organizações responsáveis por seu desenvolvimento;
  • Ação coordenada: participação dos governos na criação de mecanismos formais de supervisão.

Os signatários são de 34 países e pedem que organizações que desenvolvem ou testam modelos com capacidades cibernéticas adotem medidas rigorosas de segurança desde já.

Acordos voluntários dividem opiniões

A iniciativa surge um mês depois de Anthropic, OpenAI, Google, Meta, xAI e Nvidia assinarem um acordo na Casa Branca para adotar medidas voluntárias de segurança. O compromisso, porém, não prevê um mecanismo formal de fiscalização.

A discussão também envolve o papel das regras governamentais. Na sexta-feira (9), Henna Virkkunen, responsável pela área de tecnologia da União Europeia, disse à Reuters que a Lei de IA do bloco é suficiente para lidar com os riscos de sistemas maliciosos.

Nos Estados Unidos, o governo do presidente Donald Trump suspendeu, no domingo (11), uma restrição que impedia laboratórios americanos de conceder ao Instituto de Segurança em IA do Reino Unido acesso antecipado a modelos para testes de segurança.

Um cérebro digital brilhante dentro de uma gaiola geométrica simples feita de lasers, com as barras da gaiola se rompendo e se despedaçando
A carta recomenda manter modelos avançados de IA isolados de redes externas durante etapas iniciais de desenvolvimento e avaliação. – Imagem: Olhar Digital via ChatGPT

Pioneiros da IA divergem sobre os riscos

A carta tem entre seus defensores Geoffrey Hinton e Yoshua Bengio, que dividiram o Prêmio Turing de 2018 com Yann LeCun, pesquisador da Meta. LeCun não assinou o documento e sustenta que os incidentes recentes refletem principalmente falhas de engenharia, e não riscos existenciais relacionados à inteligência artificial.

A divergência evidencia o debate sobre como avaliar os riscos desses sistemas e quem deve fiscalizar seu desenvolvimento. Os signatários defendem uma estrutura internacional de supervisão, enquanto a discussão sobre o alcance das regras e a responsabilidade das empresas continua aberta.

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