A computação quântica saiu dos laboratórios e virou assunto de investidor, governo e chefe de segurança da informação. Mas o debate costuma travar na parte mais difícil: qual é o tamanho real dessa tecnologia hoje?
Em vez de promessas, cinco números. Cada um com a fonte ao lado. Juntos, eles dão a escala do que já existe, do que ainda falta e de quanto dinheiro está em jogo.
1. 105 qubits — o chip que virou notícia
O Willow, processador quântico apresentado pelo Google no fim de 2024, opera com 105 qubits supercondutores. O número parece modesto perto dos bilhões de transistores de um celular, e é mesmo. A comparação, porém, não faz sentido: um qubit não é um transistor.
O que chamou atenção no Willow não foi a quantidade, e sim a qualidade. A equipe relatou que, ao aumentar o tamanho do arranjo de qubits, a taxa de erro caiu em vez de subir — um marco chamado de correção de erro “abaixo do limiar”.
2. 10 septilhões de anos — a conta que ninguém faz
O Google afirmou que o Willow resolveu um cálculo de referência em menos de cinco minutos. O mesmo problema levaria cerca de 10 septilhões de anos (o número 1 seguido de 25 zeros) no supercomputador clássico mais rápido disponível.
Vale o alerta: esse teste, conhecido como random circuit sampling, é um exercício sem aplicação prática. Ele mede vantagem computacional, não utilidade. Pesquisadores independentes já contestaram estimativas parecidas em anúncios anteriores.
3. 15 milikelvin — mais frio que o espaço
Chips quânticos supercondutores só funcionam dentro de refrigeradores de diluição, a temperaturas próximas de 15 milikelvin — cerca de 0,015 grau acima do zero absoluto.
Para comparar: o espaço interestelar tem por volta de 2,7 kelvin, herança da radiação cósmica de fundo. Ou seja, o interior desses equipamentos é centenas de vezes mais frio que o vácuo do universo. É por isso que a foto clássica de um computador quântico mostra um lustre dourado de tubos: aquilo é o sistema de refrigeração, não o processador.
4. Menos de 1 milhão de qubits — o risco para a criptografia
A pergunta que tira o sono de bancos e governos é quantos qubits seriam necessários para quebrar a criptografia RSA-2048, base de boa parte das comunicações seguras na internet.
Uma estimativa de 2019 apontava cerca de 20 milhões de qubits ruidosos para o feito em oito horas. Em 2025, uma revisão do mesmo pesquisador reduziu drasticamente a conta: menos de 1 milhão de qubits em alguns dias de processamento.
Nenhuma máquina atual chega perto disso. Mas a queda de 20 milhões para 1 milhão em seis anos explica a pressa de órgãos como o NIST em padronizar a criptografia pós-quântica.
5. Dezenas de bilhões de dólares em compromissos públicos
Governos ao redor do mundo já anunciaram algo em torno de US$ 44 bilhões em compromissos de financiamento para tecnologias quânticas. O dinheiro se concentra em poucos países, com destaque para China, Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido.
O que os números dizem juntos
A computação quântica é, ao mesmo tempo, mais avançada e mais distante do que parece. Os chips já existem e funcionam. A escala necessária para aplicações que mudam a vida real — química de novos materiais, logística, quebra de criptografia — ainda está algumas ordens de grandeza à frente.
A ONU declarou 2025 o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica. Os próximos números virão rápido.
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