No dia 11 de junho de 2026, a chegada do El Niño foi oficialmente confirmada por centros meteorológicos internacionais. O fenômeno, que ocorre quando as águas do Pacífico Equatorial apresentam temperaturas acima da média, pode influenciar o regime de chuvas e as temperaturas em diversas partes do mundo – e o Brasil não está fora dessa.
Pelo contrário: por aqui, os impactos costumam ser avassaladores, cobrando um preço alto da nossa infraestrutura e, principalmente, colocando milhares de vidas e comunidades inteiras em risco. Por isso, o diagnóstico acendeu o sinal de alerta máximo em governos estaduais, defesas civis e no setor do agronegócio.
O país se prepara para enfrentar um segundo semestre de forte instabilidade, marcado pelo risco real de que este evento se transforme em um “Super El Niño”, amplificado pelas mudanças climáticas globais.

No Brasil, isso se traduz em uma perigosa divisão meteorológica: enquanto as regiões Norte e Nordeste entram em estado de atenção devido à seca severa e ao risco de incêndios florestais, o Sul do país se prepara para chuvas torrenciais, enchentes e ciclones.
Com previsões apontando que a intensidade do fenômeno deve atingir seu ápice entre setembro e novembro de 2026, estados como o Rio Grande do Sul e o Amazonas já começaram a anunciar planos de contingência e medidas de prevenção estruturais.
A ameaça de um “Super El Niño” no segundo semestre
A comunidade científica acompanha com extrema preocupação a velocidade do aquecimento das águas do Pacífico Equatorial neste ano de 2026. Modelos de computação de alta precisão e boias oceânicas indicam que a probabilidade de o fenômeno atingir uma classificação de intensidade forte ou muito forte é altíssima.
“Há uma probabilidade muito alta, em torno de 96%, de que ele atinja intensidade forte ou até muito forte entre setembro e novembro. As chances de este ser um dos eventos mais intensos já registrados são extremamente elevadas. Por isso, precisamos estar muito preparados”, disse o climatologista Carlos Nobre, doutor em Meteorologia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, e referência internacional em aquecimento global, em entrevista ao Olhar Digital.
Essa aceleração do fenômeno está diretamente ligada ao colapso climático em curso. De acordo com Nobre, o El Niño já não se comporta mais como antes. “No passado, um El Niño muito forte poderia ocorrer apenas uma vez a cada 20 ou 30 anos. Agora, é possível que eventos dessa magnitude aconteçam mais de uma vez por década. Se o aquecimento global continuar avançando, episódios fortes e muito fortes poderão se tornar cada vez mais frequentes.”

Paulo Eduardo Artaxo Netto, físico com mestrado em física nuclear e doutorado em física atmosférica pela Universidade de São Paulo (USP), corrobora a gravidade do cenário e reforça que o momento exige ação imediata, independentemente do rótulo final que o fenômeno receba. “Um super El Niño pode vir no segundo semestre, mas nós temos que confirmar essa hipótese, digamos, no final de julho, começo de agosto. Isso vai depender de como o El Niño se desenvolve de agora até o mês de agosto. Tudo indica que podemos sim ter um El Niño forte, mas a ciência ainda não consegue saber a intensidade exata desse El Niño. Isso não quer dizer que nós não temos que nos preparar já para um El Niño médio, forte ou super forte.”
Outro agravante é que o planeta já não é mais o mesmo de um século atrás. O El Niño atual se desenvolve em um cenário de aquecimento global persistente, onde tanto a atmosfera quanto os oceanos acumulam mais calor. Artaxo detalha esse novo contexto: “A atmosfera terrestre já se aqueceu 1,5 grau Celsius como efeito da emissão de combustíveis fósseis ao longo dos últimos 150 anos. Os oceanos também se aqueceram, cerca de um grau Celsius no caso do Pacífico. Portanto, o El Niño já se inicia num padrão de temperatura mais alto do que existia 50 ou 100 anos atrás. Isso intensifica o fenômeno, que é causado por um aquecimento anômalo das águas do Pacífico. Portanto, vemos as mudanças climáticas intensificando o El Niño.”

Nobre complementa essa análise dizendo que o aquecimento das águas do oceano serve de combustível para o fenômeno. “O aquecimento global pode tornar os episódios de El Niño mais intensos porque a temperatura do Oceano Pacífico, assim como a do restante do planeta, já está aumentando. Quando um fenômeno de El Niño ocorre sobre um oceano mais quente, sua intensidade tende a ser maior. A ciência vem alertando para isso há bastante tempo.”
O mapa de riscos do Brasil para 2026
O desenho dos impactos do El Niño no território brasileiro segue um padrão clássico bem conhecido pelos meteorologistas, mas que ganha uma nova dimensão devido à sua violência amplificada.
De acordo com o professor Artaxo, a projeção meteorológica para o segundo semestre deste ano deve repetir os padrões mais severos observados na história recente do país. “Primeiro, secas muito intensas na região amazônica e nordeste brasileiro, um consequente aumento das emissões por queimadas e chuvas muito intensas no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. E também um aumento de fenômenos de calor extremo no sudeste, particularmente em São Paulo e Minas Gerais. Esse é o padrão meteorológico do El Niño, que deve se repetir no segundo semestre de 2026.”
Nas regiões Norte e Nordeste, o aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial altera a circulação atmosférica e tende a reduzir a formação de nuvens e a ocorrência de chuvas. Na Amazônia, a diminuição das precipitações pode levar à seca severa dos rios, dificultando a navegação e isolando comunidades ribeirinhas que dependem das vias fluviais para transporte e abastecimento. No Nordeste, a estiagem prolongada aumenta a pressão sobre os reservatórios de água e compromete a agricultura familiar. Ao mesmo tempo, a vegetação mais seca na Amazônia e na Caatinga torna essas regiões mais vulneráveis à ocorrência e à propagação de incêndios florestais.
No Sudeste e no Centro-Oeste, o impacto principal se manifesta na forma de ondas de calor sufocantes e prolongados períodos de estiagem. O aumento térmico sobrecarrega o sistema de saúde e eleva a demanda por energia elétrica para refrigeração, pressionando o sistema elétrico nacional no exato momento em que o volume das hidrelétricas pode sofrer redução pela falta de chuvas nas cabeceiras dos rios.
Já na região Sul, o cenário é o oposto absoluto. O El Niño intensifica e retém frentes frias e sistemas de baixa pressão sobre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, despejando volumes de água acumulados que deveriam cair ao longo de meses em apenas poucos dias. O resultado é a subida abrupta dos níveis dos rios, inundações generalizadas nas áreas urbanas e rurais, e o colapso de encostas.

Lições da história: os episódios marcantes do El Niño no país
Para compreender o tamanho do risco que o Brasil corre em 2026, é fundamental revisitar o rastro de destruição e os impactos socioeconômicos deixados por eventos anteriores de grande magnitude. O fenômeno moldou a história ambiental do país nas últimas décadas por meio de desastres marcantes.
O El Niño de 1982-1983
Considerado um dos mais severos do século XX, este episódio paralisou a economia nacional. No Sul do Brasil, provocou chuvas torrenciais ininterruptas que causaram enchentes históricas na bacia do Rio Uruguai e do Rio Guaíba, desabrigando dezenas de milhares de pessoas e destruindo plantações inteiras de grãos. Simultaneamente, o Nordeste enfrentou uma das secas mais severas de sua história, resultando em perdas catastróficas na pecuária e na agricultura, além de desencadear fluxos migratórios em massa devido à fome e à falta de água no semiárido.
O El Niño de 1997-1998
Frequentemente classificado como o maior do século por sua intensidade térmica pura, causou impactos globais devastadores. No Brasil, conforme reportagens da época, o fenômeno foi o principal responsável pelo histórico incêndio de Roraima, onde as chamas consumiram vastas extensões de floresta amazônica que haviam perdido sua umidade natural devido à ausência prolongada de chuvas. No Sul, cidades registraram índices recordes de precipitação, com destruição de estradas e pontes essenciais para o escoamento da produção nacional. Em nível global, a Organização das Nações Unidas (ONU) atribuiu a este evento mais de 20 mil mortes e 36 bilhões de dólares em danos estruturais.
O El Niño de 2015-2016
Este episódio levou os termômetros do planeta a recordes históricos e provocou uma estiagem sem precedentes na região Sudeste e na bacia do Rio São Francisco. O esvaziamento dos reservatórios gerou uma crise hídrica severa em estados como São Paulo e Minas Gerais, ameaçando o abastecimento urbano e gerando o risco real de racionamento de energia elétrica. Na Amazônia, o estresse hídrico da floresta atingiu níveis críticos, elevando substancialmente a mortalidade de árvores nativas.
O El Niño de 2023-2024
Classificado como um dos cinco mais fortes já registrados, este El Niño causou tragédias de proporções inéditas devido à sua interação com um Oceano Atlântico extraordinariamente aquecido.
“Em 2023 e 2024, o fenômeno foi considerado moderado no Pacífico, mas mesmo assim contribuiu para eventos extremos e chuvas excessivas no Rio Grande do Sul”, explica Nobre. “O El Niño cria condições que podem intensificar fenômenos meteorológicos já conhecidos, como os ciclones extratropicais, tornando-os mais fortes no Sul do Brasil. Além disso, naquele período, o Oceano Atlântico registrou temperaturas excepcionalmente elevadas. Esse aquecimento aumentou a evaporação da água, fornecendo mais vapor para a formação de nuvens e chuvas intensas”.

Estados criam medidas de prevenção e enfrentamento
Diante dos alertas emitidos pela comunidade científica, governos estaduais começaram a anunciar pacotes financeiros e operacionais para tentar mitigar os impactos previstos para o segundo semestre.
No Rio Grande do Sul, traumatizado pelas perdas econômicas e humanas de anos anteriores, o governo estadual antecipou as diretrizes de enfrentamento por meio do Plano de Prevenção a Desastres Hidrológicos.
Com o objetivo de evitar o colapso de infraestruturas urbanas sob o estresse de chuvas volumosas, o estado direcionou investimentos para o desassoreamento de rios críticos, reforço de diques de contenção e aquisição de sistemas avançados de monitoramento meteorológico por radar.
Além disso, as Defesas Civis municipais receberam repasses para estruturação de abrigos de emergência e treinamento de rotas de fuga em áreas de encosta e faixas ribeirinhas de alto risco.
No Amazonas, o foco das autoridades estaduais está na gestão da escassez hídrica extrema. Diante da previsão de uma seca que pode isolar municípios inteiros localizados nas calhas dos rios Solimões, Negro e Amazonas, o governo estadual acionou a Operação Estiagem.
O plano envolve a contratação emergencial de serviços de dragagem em canais estratégicos de navegação para garantir a chegada de insumos básicos, alimentos e medicamentos às cidades isoladas. Também foram instalados purificadores de água comunitários em regiões ribeirinhas para conter surtos de doenças de veiculação hídrica que surgem com a redução drástica do volume dos rios.
O estado ainda reforçou o orçamento do Corpo de Bombeiros para a contratação e treinamento de brigadas civis de combate a incêndios florestais.

Vulnerabilidade social e econômica: o custo humano do fenômeno
Os impactos de um evento climático da magnitude do El Niño expõem de forma cruel as fraturas da desigualdade socioeconômica e urbana do país, como ressalta Oswaldo Lucon, especialista em mudanças climáticas e pesquisador do Instituto de Energia e Ambiente da USP. “Pessoas que vivem em áreas periféricas, com pouca arborização e forte exposição ao calor, sofrem mais com as chamadas ilhas de calor. Isso aumenta problemas de saúde e amplia os desafios para os sistemas públicos de atendimento”.
Crianças, idosos e portadores de doenças crônicas que residem em habitações precárias, sem isolamento térmico adequado ou sistemas de refrigeração, compõem o grupo mais exposto à mortalidade por estresse térmico. Lucon aponta que esses efeitos colaterais nas periferias e nas malhas urbanas do Sudeste são alarmantes. “Em estados como São Paulo, a recorrência de incêndios florestais em áreas de transição urbana torna-se um dos sintomas mais críticos dessa nova realidade climática, ameaçando a qualidade do ar e a segurança das populações periféricas.”
Além do risco direto à saúde, as famílias de baixa renda dispõem de menor resiliência financeira para enfrentar a crise, dispondo de menos recursos para reconstruir moradias destruídas por enchentes, arcar com a alta dos preços dos alimentos ou adaptar suas pequenas atividades econômicas locais às novas e severas condições impostas pelo clima.
Essa vulnerabilidade social acaba amplificada pelo impacto direto nos setores produtivos. “Há riscos de crises hídricas, perdas agrícolas e impactos econômicos, especialmente porque o país depende fortemente da agropecuária e de toda a cadeia produtiva associada”, afirma Lucon.
No front econômico, a agropecuária – um dos principais motores do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro – encontra-se na linha de frente dos prejuízos. Artaxo detalha como a desorganização do calendário de chuvas afeta diretamente a segurança alimentar e a estabilidade do país: “Secas intensas no Brasil central reduzem a produtividade e chuvas intensas no Rio Grande do Sul podem acabar com a produção agropecuária do Estado, como aconteceu em 2024. Então, todo cuidado é pouco. Temos que monitorar a situação com cuidado, eventualmente mudando os períodos de plantio e colheita neste segundo semestre para tentar minimizar os impactos do El Niño na produtividade agropecuária do Brasil.”
Quando as consequências de um fenômeno atingem simultaneamente a estrutura social e a base produtiva de um país, a situação exige respostas imediatas e coordenadas. A partir de agora, a velocidade e a seriedade com que os estados e municípios implementarem seus planos de contingência determinarão o preço que o Brasil pagará em perdas econômicas e – ainda mais importante – em vidas humanas.
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