Esta matéria faz parte da série “Tecnologias brasileiras que mudaram o mundo”, exclusiva para assinantes do Clube Olhar Digital.
Você provavelmente ouviu algo num streaming hoje. Uma música, um podcast. Um álbum, uma playlist. O que você talvez não saiba é que esta história começou no Brasil.
Foi em São Paulo (SP) que Andreas Pavel desenvolveu o conceito do que ficaria conhecido depois como Walkman.
Por um lado, a invenção rendeu uma baita dor de cabeça jurídica para Pavel. Por outro, abriu caminho para o Discman e o iPod. E, em última análise, para o hábito de ouvir música num dispositivo portátil.
Engenhoca que viraria Walkman foi criada para ‘colocar trilha sonora na vida real’
Nascido na Alemanha, Pavel veio morar na metrópole paulista aos seis anos. Na época, seu pai tinha sido contratado para trabalhar nas Indústrias Matarazzo. Sua mãe, Ninca Bordano, era artista.
A casa da família era daquelas que cultivavam arte e criatividade. Tinha ateliê e um salão com equipamento muito bom para ouvir música. Este era o espaço para a “resenha”, onde se conversava sobre música, literatura, política.
Era a década de 1970. Nesta época, muitos jovens brasileiros curtiam o idealismo hippie enquanto enfrentavam a opressão da ditadura militar. A engenhoca brotaria deste caldo.

“Era puramente estética”, respondeu Pavel ao jornal New York Times quando perguntado sobre a motivação para criar o dispositivo portátil para ouvir música.
“Estética”, aqui, não é no sentido externo, de chamar atenção ao usar o tocador. É no sentido interno – de mudar a estética da experiência que a pessoa estava tendo.
Pavel pensou numa engenhoca para “colocar trilha sonora na vida real”.
A primeira música que ele colocou para tocar no dispositivo foi What’s Going On, de Marvin Gaye (a versão do flautista de jazz Herbie Mann). Ele a ouviu com a sua companheira em Saint Moritz, na Suíça.
Empresas achavam que ‘só malucos usariam fones de ouvido’
Pavel registrou a patente da sua engenhoca, que ele batizou de Stereobelt, na Itália em 1977. Ao longo de um ano, também registrou na Alemanha, nos EUA, no Japão e no Reino Unido.
Ele fez uma “tour” mostrando o protótipo para empresas de tecnologia, como Sony, Philips e Yamaha, na expectativa de que alguma topasse fabricá-lo.
“Me falavam que não achavam que as pessoas seriam malucas a ponto de andar por aí usando fones de ouvido”, contou Pavel ao New York Times. “Eles achavam que era um gadget inútil criado por um maluco.”
A Sony lançou o primeiro Walkman (modelo TPS-L2) em 1º de julho de 1979 no Japão. E o aparelho era muito parecido com o Stereobelt mostrado por Pavel.

Então, o germano-brasileiro começou uma longa batalha judicial contra a empresa. E foi só em 2004 que ele fechou um acordo milionário com a empresa. Apesar de confidencial, estima-se que o valor tenha sido, na época, US$ 10 milhões.
Leia mais sobre tecnologias brasileiras que mudaram o mundo:
Depois, vieram o Discman e o iPod. Em 2014, Pavel disse que usava o Walkman apenas como objeto de decoração. Hoje, o germano-brasileiro tem 81 anos. E, igual você, provavelmente ouviu algo num streaming hoje.
(Esta matéria também usou informações do jornal O Globo.)
O post ‘Era só estética’: conheça a história do Walkman, que foi inventado no Brasil! apareceu primeiro em Olhar Digital.