Daqui a mais de 600 milhões de anos, a Terra vai perder um dos espetáculos mais impressionantes do céu. Uma transformação que já está em curso, embora imperceptível para nós, acabará mudando para sempre a forma como Sol, Lua e Terra se alinham.
A existência do eclipse solar total depende de uma coincidência: vista da Terra, a Lua apresenta um tamanho aparente muito próximo ao do Sol. No entanto, o resultado desse alinhamento varia conforme a distância do nosso satélite natural em relação ao planeta.
No eclipse parcial, apenas uma fração da estrela é coberta. No anular, a Lua está mais distante e parece pequena demais para ocultar todo o disco solar, deixando exposto um anel luminoso. Já no total, a Lua encobre o Sol por completo para quem está dentro da faixa atingida pela sua sombra mais escura, revelando a coroa solar. Há ainda o eclipse híbrido, um tipo raro em que o fenômeno varia entre anular e total dependendo da localização do observador.

Nesta quarta-feira (12), um eclipse solar total é observado em partes do Ártico, Groenlândia, Islândia, Espanha e Portugal, enquanto outras regiões da Europa, África e América do Norte enxergam apenas a versão parcial.
A razão pela qual o fenômeno não é visível em locais fora desse trajeto, como o Brasil, resume-se à própria geometria espacial, como explica Josina Nascimento, astrônoma do Observatório Nacional (ON) há mais de 45 anos e gestora da Divisão de Comunicação e Popularização da Ciência (DICOP).

Em entrevista ao Olhar Digital, a especialista detalhou que a faixa de totalidade é estreita, medindo no máximo 300 quilômetros de largura. “O Sol ilumina a Lua, que faz uma sombra pequenininha sobre a Terra, que é exatamente o oposto do eclipse total da Lua, que é a Lua entrando na sombra grande da Terra”.
Lua está se afastando da Terra
O problema é que essa dinâmica está mudando porque a Lua está se afastando da Terra. Como a órbita lunar é elíptica, a separação atual já varia de aproximadamente 356 mil quilômetros no perigeu (ponto mais próximo) a mais de 406 mil quilômetros no apogeu (ponto mais distante).
Medições com lasers apontados para refletores instalados na superfície lunar pelas missões Apollo confirmam que o satélite se afasta, em média, 3,8 centímetros por ano. Esse movimento é fruto da interação gravitacional e das forças de maré entre os dois corpos.

À medida que se distancia, a Lua passa a parecer menor no nosso céu. Conforme destaca a astrônoma, chegará um momento em que nem mesmo um alinhamento perfeito será capaz de cobrir todo o disco solar. “Com a Lua se afastando da Terra, ela nunca mais vai ter o diâmetro aparente igual ou maior que o do Sol. Então, a partir de determinada época, a gente não vai mais ter um eclipse total do Sol”, confirma Josina. “Isso não é para agora não, falta muito tempo ainda”.
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A extinção definitiva dos eclipses solares totais
No livro “Mais dicas de astronomia matemática” (2002), o astrônomo Jean Meeus calculou que, mantida a taxa atual de afastamento, os eclipses solares totais deixariam de ocorrer em cerca de 1,21 bilhão de anos.
O prazo, contudo, não é exato. A velocidade de afastamento varia ao longo das eras geológicas e a própria órbita da Terra sofre alterações. Por isso, a transição será gradual: entre 620 milhões e 1,21 bilhão de anos no futuro, haverá eras em que a totalidade ainda será possível e outras em que ela desaparecerá temporariamente.
No fim desse processo, a Lua estará permanentemente distante demais para cobrir o Sol. Os eclipses solares continuarão existindo nas modalidades parcial e anular, mas a totalidade se tornará apenas uma lembrança do passado astronômico da Terra.
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