IA da Meta pode “ler pensamentos”? Não é bem assim

IA da Meta pode “ler pensamentos”? Não é bem assim

Pesquisadores da divisão de Inteligência Artificial (IA) da Meta anunciaram um avanço significativo no campo das interfaces cérebro-computador (BCI). O novo sistema, batizado de Brain2QWERTY v2, é capaz de traduzir a atividade cerebral diretamente em frases de texto em tempo real, eliminando totalmente a necessidade de implantes cirúrgicos. 

A tecnologia utiliza sensores magnéticos externos para captar os sinais neurais, alcançando níveis de precisão que até então eram exclusivos de procedimentos invasivos.

O objetivo central do projeto é restaurar a capacidade de comunicação de milhões de pessoas impactadas por lesões cerebrais, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) ou condições neurodegenerativas que afetam a fala. 

Embora cirurgias com eletrodos intracranianos já tenham demonstrado eficácia em neuropróteses, a complexidade e os riscos biológicos desses procedimentos limitam sua adoção em larga escala. A nova abordagem não invasiva surge como uma alternativa segura e escalável para fechar essa lacuna.

Nova IA da Meta detecta intenção motora

Apesar do fascínio que a tecnologia desperta, existe uma distinção técnica – e filosófica –  sobre o que o sistema realmente faz.  Em entrevista ao programa Olhar Digital News, na coluna Olhar do Amanhã, o neurocientista, futurista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Álvaro Machado Dias, esclareceu à apresentadora Marisa Silva que a máquina não lê pensamentos, mas sim a intenção motora de executar uma ação.

“Eles não capturam o pensamento, eles só capturam essa intenção motora. O que acontece é o seguinte: quando a gente vai digitar alguma coisa, existe uma ‘cápsula de pensamento’, um snippet, um trechinho, que serve para o planejamento motor”, explicou Machado Dias. “Existe uma área chamada suplementar motora no córtex pré-frontal que serve ao planejamento e se mantém sincrônica durante o processo de digitação. A digitação em si é fluida, mas o planejamento está lá.”

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Álvaro Machado Dias em participação no programa Olhar Digital News, com Marisa Silva, falando sobre a nova IA da Meta. – Crédito: Olhar Digital

Para capturar essa dinâmica, a Meta utilizou a magnetoencefalografia (MEG), um equipamento de grande porte que combina a precisão temporal da eletroencefalografia (EEG) com a resolução espacial da ressonância magnética funcional. Na prática, a máquina consegue mapear onde e quando a atividade elétrica ocorre no cérebro enquanto a pessoa planeja digitar.

Diferente de métodos anteriores, que dependiam da identificação manual de padrões neurais, o Brain2QWERTY v2 emprega aprendizado profundo de ponta a ponta (end-to-end deep learning). A arquitetura processa sinais brutos e ajusta grandes modelos de linguagem (LLMs) com base nos dados neurais. 

Como aponta o neurocientista, o segredo do sucesso do sistema está no trabalho conjunto entre o sensor e o modelo de linguagem. “A máquina identifica um pouquinho o que está sendo lido e um LLM tenta traduzir que raios é aquilo no contexto da frase. A combinação das duas coisas gera uma leitura que não é do pensamento em si. Ninguém está extraindo o pensamento da mente das pessoas, mas sim desse comportamento que está na sua essência, direcionando o que vai ser escrito, portanto, a intenção.”

Saltos de precisão e a escala de dados

Para treinar o modelo, a equipe da Meta coletou dados de nove voluntários ao longo de 10 horas de gravação por indivíduo, totalizando cerca de 22 mil frases registradas enquanto os participantes digitavam sob o equipamento de MEG.

Os resultados impressionaram a comunidade científica: o Brain2QWERTY v2 atingiu uma taxa média de precisão de palavras de 61%, superando drasticamente o marco de apenas 8% registrado por outras metodologias não invasivas. No participante com o melhor desempenho, a precisão alcançou 78%, sendo que mais da metade de suas frases foi traduzida com no máximo um erro pontual.

Além disso, os pesquisadores observaram que a precisão melhora de forma log-linear à medida que o volume de dados aumenta. Isso sugere que a diferença de desempenho que ainda separa os métodos sem cirurgia dos implantes cirúrgicos invasivos pode ser reduzida gradualmente apenas com o aumento da escala de treinamento do modelo.

Privacidade cognitiva e o debate sobre os neurodireitos

O especialista enfatizou que a leitura de pensamentos representaria um risco de invasão e manipulação “à revelia”, enquanto a intenção preserva a autonomia e a consciência do indivíduo.

Para ele, o avanço desse tipo de tecnologia abre portas para debates urgentes no campo dos neurodireitos e da privacidade cognitiva. Se um dispositivo é capaz de prever com fluidez o que você pretende escrever, o uso comercial dessa informação por grandes corporações de tecnologia acende um alerta.

“A coisa começa a funcionar. Daqui a pouco, a máquina está, através dessa sua intenção, identificando o que você vai digitar e, portanto, o que você está almejando ou pensando indiretamente, e te oferecendo propaganda”, alertou o professor da Unifesp. “Está aí o risco. É um risco do bom e velho uso da manipulação através do contexto, para te entubar alguma coisa – seja um produto ou seja uma mensagem ideológica, o que pode se tornar muito mais problemático.”

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Este gráfico mostra que, antes de você digitar (ponto 0), o cérebro antecipa o que vai escrever: primeiro ele processa o sentido geral da frase, depois escolhe a palavra, pensa na sílaba e, só no final, na letra exata. – Crédito: AI Meta / Brain2qwerty / Divulgação

A discussão sobre neurodireitos também se estende para a gestão de dados biológicos e genéticos que possam prever doenças neurodegenerativas ou transtornos mentais, correndo o risco de serem utilizados de forma discriminatória por planos de saúde e corporações em países onde não há blindagem jurídica estrita.

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O mistério que permanece indecodificável pela IA da Meta

Apesar dos rápidos avanços da IA aplicada à neurociência, cientistas concordam que a mente humana mantém seu núcleo preservado. A conversão de impulsos neurais em experiência consciente e abstrata continua sendo um terreno intocado.

“Essas leituras de pensamento hoje são sempre proxies [aproximações]. Elas não estão efetivamente no domínio do simbólico. Quando você imagina alguma coisa, você pensa em palavras, tudo isso envolve algo que para nós segue misterioso: como essa atividade neurológica, que lembra um pouco o código Morse, se converte na experiência mental que a gente tem. Isso ninguém sabe, e talvez seja o maior mistério que a gente tem para desvendar em todos os tempos”, concluiu Machado Dias.

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