A humanidade trava uma batalha silenciosa contra as bactérias há cerca de um século, mas os nossos antibióticos atuais estão perdendo a eficácia. Com a resistência bacteriana ameaçando causar mais de 8 milhões de mortes anuais até 2050, a ciência encontrou um aliado inesperado para acelerar a busca por curas: a inteligência artificial (IA).
O que antes levava anos de testes exaustivos em laboratório agora pode ser feito em questão de horas. Em entrevista à BBC, o professor James Collins, do MIT, explicou que a IA permite examinar bibliotecas imensas de compostos químicos para identificar atividades antibacterianas com uma velocidade sem precedentes.
Graças a essa tecnologia, sua equipe já descobriu dois novos compostos promissores contra a gonorreia e a SARM (Staphylococcus aureus resistente à meticilina), infecções que hoje escapam de quase todos os remédios existentes.
A corrida contra o Parkinson
A aplicação da IA não se limita às infecções. Na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, pesquisadores estão utilizando o aprendizado de máquina para enfrentar a doença de Parkinson – que, desde sua identificação em 1817, ainda não possui um tratamento que impeça sua progressão.
O desafio é que o número de moléculas pequenas possíveis para criar um medicamento é maior do que o número de átomos no universo.
“A IA pode reduzir essa busca com muita rapidez”, explica o professor Michele Vendruscolo. Enquanto métodos tradicionais levam seis meses e custam milhões de dólares para selecionar um milhão de moléculas, a IA consegue analisar bilhões de opções em poucos dias por uma fração do custo. A equipe já identificou cinco novos compostos que podem estabilizar as proteínas que causam a neurodegeneração.

Medicamentos antigos, novos usos
Outra frente revolucionária é o reposicionamento de drogas já existentes. O professor David Fajgenbaum, da Universidade da Pensilvânia, é um exemplo vivo desse sucesso: ele salvou a própria vida ao descobrir, com a ajuda da ciência de dados, que um medicamento para transplante de rim poderia tratar sua rara doença de Castleman.
Hoje, organizações como a Every Cure e pesquisadores de Harvard utilizam IA para cruzar milhares de medicamentos aprovados com 17 mil doenças diferentes. Essa abordagem é vital para doenças raras, muitas vezes negligenciadas pela indústria farmacêutica por falta de incentivo financeiro.
Na Universidade McGill, no Canadá, cientistas criaram um “sistema de doença virtual” que simula o efeito de remédios em células pulmonares para tratar a fibrose pulmonar idiopática.

Apesar dos avanços, o caminho ainda é longo. A IA hoje é mais eficaz nas etapas iniciais de triagem, e muitos dados cruciais sobre a toxicidade das substâncias ainda são mantidos sob sigilo pelas grandes farmacêuticas.
No entanto, a expectativa de especialistas como Jun Ding, da Universidade McGill, é que em até dez anos a maior parte do desenvolvimento de novos medicamentos seja orientada ou totalmente baseada em IA. Se as previsões se confirmarem, a tecnologia não apenas criará curas, mas poderá estabilizar doenças antes mesmo de seus primeiros sintomas aparecerem.
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