Ímãs de alta potência podem levar Brasil além da mineração de terras raras

Ímãs de alta potência podem levar Brasil além da mineração de terras raras

Pequenos no tamanho, mas decisivos para algumas das tecnologias mais estratégicas do século, os ímãs permanentes de terras raras estão no centro da transição energética, da mobilidade elétrica e da automação industrial. Presentes em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, smartphones, computadores, equipamentos de ressonância magnética e sistemas industriais, esses componentes ajudam a converter energia em movimento com alta eficiência.

Também chamados de superímãs, eles são produzidos a partir de elementos de terras raras, como o neodímio, e se destacam pela força magnética elevada. Por trás desses materiais está uma disputa industrial e geopolítica: hoje, grande parte da cadeia global é concentrada no exterior, especialmente na China. Para o Brasil, que possui reservas minerais relevantes, o desafio é deixar de atuar apenas como fornecedor de matéria-prima e avançar para etapas de maior valor agregado.

Terras raras no Brasil

É nesse contexto que o país tenta dar novos passos para ocupar um espaço estratégico na cadeia global das terras raras. Em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o Centro de Inovação e Tecnologia para Ímãs de Terras Raras, o CIT SENAI ITR, trabalha para desenvolver rotas tecnológicas capazes de transformar insumos minerais em ímãs permanentes de alta potência.

Uma nova etapa desse esforço começou com o recebimento, pelo centro, de um lote de 20 quilos de carbonato de terras raras produzido a partir de material extraído em território brasileiro. A remessa foi entregue pela mineradora Meteoric e será usada em testes com matéria-prima nacional para a fabricação de ímãs permanentes de alta potência.

Segundo o coordenador do CIT SENAI ITR, André Luis Pimenta de Faria, o centro atua justamente na etapa intermediária e final dessa cadeia.

“Aqui no CIT ITR, a gente atua principalmente na produção do ímã permanente de terras raras. A gente não está muito na ponta da cadeia. A gente está no midstream, nos produtos intermediários e no produto final”, explica.

Atualmente, a produção do centro ainda depende de insumos importados. O SENAI trabalha a partir de metais puros de terras raras, que o Brasil ainda não produz em escala suficiente.

“Hoje, a gente atua começando a partir do metal puro. Então, o Brasil ainda não produz os metais puros dos elementos de terras raras. A gente faz aquisição externa, a gente importa”, afirma Pimenta.

A expectativa, no entanto, é que esse cenário comece a mudar. Com o avanço das pesquisas e a chegada de materiais nacionais, o CIT SENAI ITR deve ampliar sua capacidade de trabalhar etapas anteriores da cadeia, incluindo os óxidos purificados de terras raras.

Terras raras
Terras raras – Imagem: Joaquin Corbalan/Shutterstock

“No ano que vem, a gente já deve estar apto a trabalhar a partir dos óxidos de terras raras, ou seja, os óxidos purificados. Então, a gente conseguiria fechar esse gap entre o ITR e a mineração”, diz o coordenador.

A entrega do carbonato pela Meteoric é considerada relevante justamente por aproximar a mineração brasileira da indústria de transformação. O material foi obtido a partir da lixiviação de argilas iônicas coletadas em pesquisas na região do Planalto Vulcânico de Poços de Caldas, no Sul de Minas. A mineradora realizou os testes em sua planta piloto, inaugurada em dezembro, e está em fase de licenciamento para a construção da mina.

O carbonato de terras raras é um composto intermediário. Ele ainda precisa passar por etapas de separação e purificação até que se chegue aos óxidos puros. Depois, esses óxidos podem ser reduzidos a metal, transformados em ligas e, finalmente, usados na fabricação dos ímãs de neodímio-ferro-boro, conhecidos como ímãs de NdFeB.

Para Pimenta, o recebimento do lote nacional representa mais do que uma entrega de material. É um teste concreto da capacidade brasileira de construir uma cadeia industrial própria.

“Essa entrega representa um passo concreto dentro do projeto MagBras, que é a iniciativa estruturante para desenvolver no Brasil a cadeia completa de ímãs permanentes de NdFeB, da matéria-prima mineral até o ímã final”, afirma.

“Nosso papel é atuar nas etapas de beneficiamento inicial dos minérios e na produção de ligas, chegando à fabricação dos ímãs”, resume Pimenta.

terras raras brasil
Terras raras são essenciais para baterias de carros elétricos, turbinas (Imagem: Fellipe Abreu/iStock)

Mundo ainda depende da China

Apesar do avanço, a importação ainda continuará sendo necessária no curto prazo. O próprio CIT SENAI ITR utiliza material vindo da China porque a produção nacional ainda não consegue atender ao volume exigido por uma planta semi-industrial.

“Hoje, a gente usa material que vem da China. A gente tem produção aqui em escala de bancada, principalmente em laboratórios de universidades, no Centro de Tecnologia Mineral, no Rio, e no IPT, em São Paulo. Mas, como aqui a gente tem uma infraestrutura grande, uma planta semi-industrial, a gente demanda um volume maior de material. Essas instituições não conseguem entregar, então a gente acaba tendo que importar da China para trabalhar”, explica.

A estratégia, segundo o coordenador, é manter o uso de materiais importados enquanto a produção nacional avança. Isso permite dar continuidade aos projetos, comparar o desempenho técnico dos diferentes insumos e garantir segurança de fornecimento até que o Brasil consiga consolidar uma produção em escala industrial.

Leia mais:

“O desenvolvimento de uma cadeia nacional de ímãs exige previsibilidade de fornecimento e cooperação técnica contínua entre mineração e indústria de transformação”, destaca Pimenta.

Além da Meteoric, o CIT SENAI ITR já recebeu amostras de outros fornecedores ligados à cadeia de terras raras. Entre elas estão óxidos puros fornecidos pela Viridion, empresa do grupo Veridis, a partir de ímãs recolhidos no Brasil e reciclados na Irlanda, e uma amostra de oxalato da St George, também produzida a partir de minério nacional.

Inaugurado em 2025, o CIT SENAI ITR é apontado como a primeira fábrica de ímãs permanentes da América Latina. Sua estrutura semi-industrial permite testar rotas tecnológicas em escala piloto, uma etapa fundamental para transformar pesquisa em capacidade produtiva.

A aposta no setor acompanha a demanda crescente por tecnologias de descarbonização, eletrificação e automação. Motores elétricos mais eficientes, turbinas eólicas e equipamentos eletrônicos dependem de ímãs de alta performance. Por isso, dominar essa cadeia é visto como uma questão industrial, econômica e estratégica.

Para o coordenador, a construção dessa base tecnológica pode permitir que o Brasil deixe de ser apenas fornecedor de matéria-prima e passe a produzir componentes sofisticados, com maior valor agregado.

“O que estamos construindo agora é a base tecnológica e industrial para que, no futuro próximo, o país possa transformar seus próprios minerais estratégicos em produtos de alto valor agregado, como os ímãs permanentes utilizados em motores elétricos, geração de energia e mobilidade elétrica”, conclui.

O post Ímãs de alta potência podem levar Brasil além da mineração de terras raras apareceu primeiro em Olhar Digital.