Japão: por que terremoto de magnitude 6,8 não foi como os outros

Japão: por que terremoto de magnitude 6,8 não foi como os outros

Um forte terremoto atingiu o sudoeste do Japão nesta terça-feira (28), provocando o desabamento parcial de um shopping center, danos ao histórico Castelo de Kumamoto e a evacuação de mais de 150 mil pessoas para abrigos temporários.

O tremor ocorreu às 4h27 (horário de Brasília), próximo à cidade de Kumamoto, na ilha de Kyushu, no sul do Japão. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) calculou a magnitude do terremoto em 6,8, enquanto a Agência Meteorológica do Japão estimou magnitude 7,1.

De acordo com o USGS, a diferença ocorre porque as duas instituições utilizam métodos distintos para medir terremotos.

A agência japonesa emprega a chamada magnitude local, que mede a intensidade da vibração do solo nas proximidades do epicentro. Já o USGS utiliza a magnitude de momento, baseada no tamanho físico da ruptura da falha geológica e considerada mais precisa para grandes terremotos, já que a escala local perde precisão em eventos de maior porte.

Segundo o órgão estadunidense, cada método captura características diferentes do terremoto: a magnitude local reflete a intensidade do tremor próximo ao epicentro, enquanto a magnitude de momento representa a quantidade total de energia liberada pela ruptura.

Shopping desaba parcialmente e milhares ficam sem energia

O terremoto causou danos em diferentes pontos da região. Milhares de residências ficaram sem energia elétrica e diversas estradas sofreram deformações devido ao forte abalo sísmico.

Parte do segundo andar de um shopping center desabou, deixando clientes presos no interior do prédio. Algumas dessas pessoas foram resgatadas e encaminhadas para hospitais.

Também houve danos no Castelo de Kumamoto, um dos monumentos históricos mais importantes do Japão, no qual parte de um muro de pedra desmoronou em consequência do tremor.

As autoridades emitiram um alerta de tsunami logo após o terremoto, mas a advertência foi cancelada menos de uma hora depois.

Por que o terremoto chamou atenção dos cientistas?

  • Embora o Japão esteja localizado sobre uma das regiões tectônicas mais ativas do planeta, especialistas destacam que este terremoto apresentou características diferentes das mais comuns;
  • Normalmente, os maiores terremotos japoneses ocorrem na zona de encontro entre a Placa do Mar das Filipinas e a Placa Eurasiática, onde uma placa mergulha sob a outra em processo conhecido como subducção. Esse mecanismo é responsável por grandes terremotos submarinos e pelos tsunamis que periodicamente atingem o país;
  • Desta vez, porém, a ruptura ocorreu no interior da própria Placa Eurasiática, a mais de 100 quilômetros da fronteira entre as placas tectônicas;
  • Segundo Jeffrey Park, sismólogo teórico da Universidade Yale (EUA), cerca de 90% dos terremotos acontecem justamente nos limites entre placas. Tremores que ocorrem no interior delas, conhecidos como terremotos intraplaca, são bem mais raros e ainda pouco compreendidos pelos cientistas.

Castelo de Kumamoto
Parede de pedras do Castelo de Kumamoto foi ao chão após terremoto – Imagem: HeroToZero/Shutterstock

Os pesquisadores acreditam que as tensões provocadas pelo movimento das placas podem reativar antigas falhas geológicas localizadas longe das zonas de contato.

Ao Live Science, Park afirmou que o deslocamento observado neste terremoto indica que a placa sofreu uma ruptura horizontal enquanto era torcida pelas forças geradas pela subducção em ângulo.

O USGS classificou o evento como uma ruptura rasa do tipo strike-slip, em que os dois lados da falha deslizam horizontalmente um em relação ao outro, em vez de uma placa ser empurrada sobre a outra. Além disso, o terremoto ocorreu a apenas dez quilômetros de profundidade, característica que ajuda a explicar os danos registrados na superfície.

“Como ele é raso, causará mais danos estruturais do que um terremoto de magnitude semelhante que ocorresse em maior profundidade e no mar”, afirmou Park.

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Por que não houve um grande tsunami

Segundo os especialistas, o terremoto não provocou um tsunami significativo porque toda a ruptura aconteceu em terra firme.

Os tsunamis costumam ser gerados quando terremotos, erupções vulcânicas ou deslizamentos deslocam grandes volumes de água, criando ondas capazes de percorrer longas distâncias.

Como a falha permaneceu totalmente em terra, ela não elevou o fundo do oceano, mecanismo normalmente responsável pela formação desses fenômenos.

Mesmo assim, os cientistas alertam que terremotos continentais ainda podem provocar tsunamis caso desencadeiem grandes deslizamentos de terra que atinjam áreas costeiras.

País deve registrar novas réplicas

Os especialistas esperam que novos tremores secundários ocorram nos próximos dias. O Japão registra aproximadamente 1,5 mil terremotos por ano, sendo um dos países com maior atividade sísmica do mundo devido à posição sobre o encontro de diversas placas tectônicas.

Ao longo das últimas décadas, especialmente após o terremoto e o tsunami de Tohoku em 2011, o país investiu fortemente em sistemas de prevenção e resposta a desastres. Entre as medidas adotadas estão redes de alerta precoce capazes de detectar rapidamente grandes terremotos e interromper automaticamente serviços essenciais.

Os trens-bala japoneses, por exemplo, são programados para parar imediatamente assim que sensores sísmicos identificam um tremor de grande intensidade. O mesmo sistema pode interromper automaticamente outros meios de transporte e parte da infraestrutura pública, permitindo que a população receba alertas poucos segundos após a detecção do terremoto e tenha tempo para buscar proteção.

Segundo especialistas, esses investimentos ajudam a explicar por que, mesmo diante de terremotos de grande magnitude próximos a cidades populosas, o número de vítimas no Japão costuma ser significativamente menor do que o registrado em eventos semelhantes em outros países.

Enquanto isso, as operações de busca e resgate continuam em Kumamoto. De acordo com a CNN, entre 20 e 30 funcionários permaneciam desaparecidos no shopping Aeon Mall, localizado na cidade de Kashima, onde parte do segundo andar desabou. Equipes do Corpo de Bombeiros também trabalhavam para acessar o local e controlar incêndios registrados nas proximidades.

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