Nova descoberta revela possível “freio” contra a progressão do câncer

Nova descoberta revela possível “freio” contra a progressão do câncer

Pesquisadores da Unifesp identificaram uma proteína que ajuda células tumorais a sobreviverem fora do tecido de origem. Ao bloquear a SDC4 em laboratório, os cientistas reduziram mecanismos ligados à metástase e à multiplicação descontrolada das células.

A descoberta, divulgada pela Agência FAPESP, abre uma nova possibilidade de investigação contra o câncer, mas ainda depende de novos testes antes de qualquer aplicação em pacientes.

Metástase no câncer
Estudo mostra como uma proteína pode influenciar a capacidade do câncer de se espalhar pelo corpo. – Imagem: Imaginima/istock

Proteína SDC4 chama atenção por papel na metástase

A sindecam-4 (SDC4) fica na superfície das células e normalmente participa da adesão aos tecidos. O problema aparece quando essa molécula é produzida em excesso, situação associada ao avanço dos tumores.

A equipe da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) descobriu que a proteína funciona como uma espécie de proteção para células cancerosas mais agressivas. Ao impedir que a SDC4 atue, os pesquisadores conseguiram reduzir a capacidade dessas células de permanecerem vivas depois de se desprenderem do tecido.

Esse processo está ligado à metástase, quando células malignas conseguem se espalhar pelo organismo e formar novos focos da doença.

Nosso estudo mostra que a SDC4 pode se tornar um alvo terapêutico promissor e servir como marcador diagnóstico para acompanhar a progressão de tumores. A estratégia de silenciar essa molécula tem potencial para impedir a proliferação de células cancerosas.

Carla Cristina Lopes, professora do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp e autora correspondente do artigo, em nota.

Ela alerta, no entanto, que a pesquisa está “em fases iniciais” e que ainda será necessário validar os resultados.

canabidiol
Cientistas investigam se o canabidiol pode influenciar uma proteína ligada ao comportamento dos tumores. – Imagem: Tinnakorn Jorruang/iStock

Bloqueio da molécula reduziu comportamento agressivo

Nos experimentos, os cientistas analisaram células endoteliais de coelhos em laboratório. As células foram colocadas em uma situação em que não conseguiam se prender a uma superfície, condição semelhante à enfrentada por células tumorais durante a disseminação pelo organismo.

A maior parte delas não resistiu, mas um grupo menor sobreviveu e passou a produzir níveis elevados de SDC4. Quando os pesquisadores desligaram a produção da proteína usando técnicas de engenharia genética, essas células perderam características associadas ao câncer e voltaram a depender da adesão ao tecido para sobreviver.

Os principais efeitos observados após o bloqueio da SDC4 foram:

  • aumento da produção da molécula p27, que reduz a divisão celular;
  • menor capacidade invasiva das células;
  • reequilíbrio das proteínas ciclinas e CDKs;
  • redução da sobrevivência de células resistentes à morte celular natural.
ilustração digital de células sanguíneas, hemácias
O estudo mostra como a biologia celular pode revelar novos caminhos contra doenças complexas. – Imagem: Krot_Studio/Shutterstock

Pesquisa ainda busca caminho até aplicações clínicas

A investigação envolve a anoikis, um mecanismo natural de eliminação celular que ocorre quando uma célula perde contato com o tecido. Células tumorais agressivas conseguem escapar desse processo, favorecendo a formação de metástases.

“A sindecam-4 protege as células tumorais desse tipo específico de morte celular que ocorre quando a célula se desprende do tecido”, destaca Lopes.

Os resultados ainda precisam ser confirmados em células humanas, incluindo células tumorais, antes que a descoberta possa avançar para possíveis aplicações médicas.

O grupo também avalia se o canabidiol (CBD), composto não psicoativo da Cannabis sativa, pode interferir na ação da SDC4 e modificar o comportamento de células resistentes à anoikis.

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“A descoberta do papel da SDC4 na metástase abre caminho para uma série de novos estudos. Uma das nossas linhas de pesquisa busca verificar se o canabidiol consegue reverter o comportamento maligno de células resistentes a anoikis, modulando a expressão da SDC4 ou interferindo nas vias de sinalização que sustentam o crescimento desordenado. Seria uma abordagem interessante, mas ainda estamos nas etapas iniciais de investigação”, conta a pesquisadora.

O trabalho recebeu apoio da FAPESP, CNPq, Capes e Finep e teve resultados publicados na revista Cytotechnology. A descoberta ajuda a revelar novos mecanismos usados pelos tumores para avançar e mantém aberta a busca por estratégias mais precisas contra o câncer.

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