Uma pesquisa internacional colocou em dúvida uma das explicações mais conhecidas sobre o funcionamento da circulação oceânica do Atlântico. O estudo indica que a AMOC conseguiu permanecer intensa mesmo quando a entrada de água quente e salgada do Oceano Índico diminuiu.
A descoberta ajuda a revelar que os mecanismos que controlam o clima do planeta podem ser mais complexos do que se pensava e que as grandes correntes oceânicas nem sempre respondem da mesma forma às mudanças ambientais.

Sedimentos de milhões de anos ajudam a desvendar o passado dos oceanos
A AMOC, sigla para Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico, funciona como uma gigantesca rede de transporte de calor. Na prática, ela leva águas quentes pela superfície do oceano em direção ao norte e devolve águas frias e mais densas pelas profundezas.
Esse movimento influencia temperaturas, chuvas e padrões climáticos em várias partes do mundo. Por décadas, pesquisadores acreditaram que a chamada fuga das Agulhas tinha um papel decisivo nesse processo.
A corrente, formada por águas quentes e salgadas do Oceano Índico que passam pelo sul da África em direção ao Atlântico, era considerada uma importante fonte de sal para o sistema. A ideia era que esse sal ajudaria a aumentar a densidade da água no Atlântico Norte, facilitando seu afundamento e fortalecendo a circulação profunda.
Para testar essa hipótese, cientistas analisaram um período entre 3,6 milhões e 2,6 milhões de anos atrás, no final do Plioceno. A equipe estudou sedimentos retirados do Planalto das Agulhas, uma área localizada cerca de 500 quilômetros ao sul da África do Sul.
Esses depósitos no fundo do oceano funcionam como registros naturais da história do planeta. Neles, os pesquisadores encontraram fósseis microscópicos chamados dinocistos e compostos orgânicos que ajudaram a reconstruir antigas condições do oceano, incluindo mudanças de temperatura e deslocamento de correntes.
Menos água do Índico, mas AMOC continuou forte
Os dados indicaram que, há aproximadamente 3,4 milhões de anos, uma faixa oceânica conhecida como frente subtropical se deslocou para o norte. A mudança provocou um resfriamento de cerca de 3°C na região das Agulhas, que passou a apresentar características semelhantes às de áreas subpolares.
Com isso, a passagem de água quente e salgada do Oceano Índico para o Atlântico perdeu força e pode até ter se aproximado de uma interrupção.
Pela teoria tradicional, essa redução deveria enfraquecer a AMOC. Mas os registros geológicos mostraram outro cenário.
Os principais resultados encontrados foram:
- A fuga das Agulhas diminuiu durante um período glacial do Plioceno;
- A formação de águas profundas no Atlântico Norte aumentou mesmo com menor entrada de sal do Índico;
- A circulação oceânica passou por uma reorganização que envolveu diferentes regiões do planeta;
- Simulações climáticas confirmaram os padrões identificados nos sedimentos.
“A AMOC pode permanecer forte mesmo quando a fuga das Agulhas enfraquece”, afirmou Suning Hou, principal autor do estudo.
A equipe também comparou os dados do Planalto das Agulhas com registros de outras regiões, como o Golfo do México, o Caribe e áreas do Atlântico Norte e equatorial. A análise indicou que a mudança não era um fenômeno isolado, mas parte de uma reorganização mais ampla das camadas de água do oceano.
Resultado muda a forma de entender a circulação do planeta
Apesar da descoberta, os pesquisadores ressaltam que o estudo não permite prever exatamente como a AMOC atual reagirá ao aquecimento global.
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O período analisado tinha uma configuração diferente da Terra moderna, incluindo mudanças na distribuição de gelo e na geografia dos oceanos. Além disso, fatores atuais, como o aumento da entrada de água doce no Ártico, também influenciam a circulação atlântica.
A principal conclusão é que a relação entre as grandes correntes oceânicas pode variar ao longo do tempo. O funcionamento da AMOC depende não apenas da entrada de sal pelo sul do Atlântico, mas também de processos que acontecem dentro do próprio oceano.
“Os controles dominantes sobre a circulação de revolvimento não são necessariamente fixos ao longo do tempo geológico”, indica a conclusão do estudo.
Publicado na revista Nature Geoscience, o trabalho reuniu pesquisadores dos Países Baixos, Estados Unidos, China e Reino Unido e amplia a compreensão sobre como os oceanos influenciam o clima da Terra.
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