Buracos negros curvando o espaço-tempo, estrelas convertendo massa em energia com eficiência quase absurda, o próprio universo emergindo de um Big Bang… hoje conseguimos descrever esses cenários com a elegância da relatividade geral. Todos agradecem a Albert Einstein. Mas pouca gente sabe que, sem uma aristocrata francesa do século XVIII, que “enquadrou” o próprio Isaac Newton, Einstein talvez nunca tivesse chegado à famosa equação E = mc².
No século XVIII, a França vivia o auge do Iluminismo, mas esse “século das luzes” tinha zonas bem sombreadas. Cafés, academias e círculos intelectuais eram ambientes essencialmente masculinos, onde mulheres não eram bem-vindas, pelo menos não como participantes intelectuais. É nesse cenário que surge Émilie du Châtelet. Nascida Gabrielle Émilie Le Tonnelier, na Paris de 1706, única menina em uma família aristocrática de 6 filhos. Sua genialidade foi percebida logo cedo por seu pai, que tratou de convidar Bernard Le Bouyer de Fontenelle, secretário da Academia de Ciências de Paris, para que viesse até sua casa conversar sobre astronomia com Émilie.
[ Retrato de Émilie du Châtelet – Créditos: Maurice-Quentin de La Tour ]
Seu interesse pelos estudos recebeu de seus pais um incentivo incomum para meninas daquela época. Tanto que aos 12 anos, Émilie já era fluente em latim, italiano, grego e alemão, além do francês, é claro. Tinha uma facilidade extraordinária com a matemática, a ciência fervilhava em sua mente, mas aos 18 anos, precisou interromper seus estudos para embarcar em um casamento arranjado com o Marquês Florent-Claude du Chastellet, o que lhe garantiu o título de Marquesa de Chastellet e três filhos para criar.
Depois de seu terceiro filho aos 26 anos, Émilie du Châtelet resolveu “chutar o balde”. Afastou-se amigavelmente do marido e retomou os estudos. Seus recursos a vontade de aprender lhe garantiram os melhores professores disponíveis, como Louis Maupertuis, Johann Bernoulli e Alexis Clairaut. Mas seu dinheiro não podia comprar a aceitação de uma mulher em um meio dominado por homens. Chegou a ser expulsa de um café onde se reuniam algumas das maiores mentes da época para discussões intelectuais. Inconformada, ela mandou fazer roupas masculinas e voltou ao mesmo café, vestida de homem. Não era simplesmente rebeldia vazia, era necessidade de debater suas ideias e de aprender cada vez mais.
Depois de “separada”, Émilie foi para uma casa de campo em Cirey, onde viveu com Voltaire, escritor, historiador e filósofo. Voltaire se encantou por Émilie e também pela ciência. Em 1738 eles participaram de um concurso da Academia de Ciências de Paris sobre a natureza do fogo. Ambos mandaram seus artigos, que embora não vencessem, receberam menções honrosas e foram publicados. Émilie du Châtelet tornou-se assim, a primeira mulher a publicar um artigo científico pela Academia.
[ Representação de Gabrielle Émilie du Châtelet na obra de Voltaire – Créditos: Voltaire ]
Durante sua vida, Émilie escreveu diversas obras, desde análises bíblicas à traduções de fábulas, trabalhos sobre óptica, filosofia e especialmente, física. Em 1740 ela publicou “Instituições de Física”, onde apresenta uma revisão de novas ideias em ciência e filosofia, mas incorporando e conciliando ideias complexas dos principais pensadores da época.
Mas sua maior obra foi a tradução para o francês do Principia de Newton — um dos livros mais importantes da história da ciência. Mais do que traduzir, Émilie fez uma revisão crítica monumental, incorporando conceitos matemáticos mais modernos, especialmente o cálculo.

E foi justamente nesse processo que surgiu um dos embates intelectuais mais interessantes da história da física. Newton descrevia o movimento e a dinâmica com enorme sucesso, mas havia uma questão em aberto: o que exatamente mede a “força” de um objeto em movimento? Para Newton, uma grandeza fundamental era proporcional ao produto da massa pela velocidade. Já pensadores influenciados por Gottfried Leibniz defendiam seria proporcional à massa vezes o quadrado da velocidade, uma mudança sutil, mas que capturava algo essencial sobre a “capacidade de realizar trabalho” de um corpo.
Émilie du Châtelet percebeu que essa não era apenas uma disputa filosófica, ela poderia ser testada. Experimentos simples, como deixar cair esferas de chumbo sobre argila, mostravam algo intrigante: quando a velocidade de impacto dobrava, a profundidade do buraco cavado na argila não apenas dobrava, mas quadruplicava. Ou seja, o impacto não era proporcional à velocidade, mas ao quadrado dela. Isso indicava que havia, sim, uma grandeza física fundamental associada a mv² — o que hoje chamamos de energia cinética.
Esse “quadrado” pode parecer um detalhe matemático, mas é exatamente o tipo de detalhe que muda tudo. Séculos depois, quando Einstein formulou a mais famosa equação da relatividade, o termo que aparece não é v², mas c² — o quadrado da velocidade da luz. A estrutura conceitual é a mesma: a energia cresce com o quadrado de uma velocidade fundamental.
[ Retrato de Émilie du Châtele, por Nicolas de Largillière ]
Não é que Émilie tenha antecipado a relatividade, mas ela ajudou a pavimentar o caminho conceitual. Essa conexão não fica apenas no campo abstrato. Ela é essencial para entender como o universo funciona em escalas gigantescas. No interior das estrelas, pequenas quantidades de massa são convertidas em energia por meio de reações nucleares. E no ambiente extremamente quente do universo primordial, energia pura podia se transformar em partículas de matéria, e vice-versa. Sem essa relação entre massa e a velocidade da luz ao quadrado, a cosmologia moderna simplesmente não faria sentido.
Claro que Albert Einstein não dependia diretamente de Émilie du Châtelet, mas dependia de uma tradição científica que ela ajudou a moldar. E dentro dessa tradição, sua contribuição foi decisiva para esclarecer o que entendemos por energia.
E não resta dúvidas do quanto ela queria contribuir. Já com mais de 40 anos, grávida e consciente dos riscos que isso representava na época, ela trabalhou intensamente para concluir a tradução do Principia. Dias depois de dar à luz ao seu quarto filho, ela faleceu, deixando uma obra que continuaria influenciando gerações. Sua versão do Principia foi publicado postumamente, mas era um trabalho tão fantástico que até hoje é a única versão completa em francês da obra prima de Newton.
Mais do que contribuir, Émilie lutava para que outras mulheres também pudessem ter espaço na ciência. Ela defendia fortemente a educação feminina, argumentando que, ao negar a elas uma boa educação, a sociedade impedia que as mulheres se tornassem eminentes nas artes e nas ciências. Estávamos abrindo mão de metade dos nossos cérebros e, talvez, de metade das ideias que nos ajudariam a entender melhor o universo.
Por isso tudo, Émilie de Châtelet deixa um legado de grandes contribuições à ciência e à participação feminina em todas as suas áreas do intelecto humano. Além, é claro, de ser lembrada como a mulher que “enquadrou” Newton. Ou mais precisamente, a mulher que “enquadradou” a equação de Newton.
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