Por que parece que o tempo passa cada vez mais rápido?

Por que parece que o tempo passa cada vez mais rápido?

Quem nunca comentou que “o ano passou voando”? Para muitas pessoas, a impressão de que os dias, meses e anos aceleram conforme o tempo passa parece se tornar cada vez mais frequente, especialmente na vida adulta.

O neurocientista Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp e colunista do Olhar Digital News, explicou por que essa sensação é tão comum em uma edição do Olhar do Amanhã. Segundo ele, não existe uma única explicação para o fenômeno, que envolve fatores como rotina, ansiedade, envelhecimento e até o funcionamento do cérebro.

A rotina faz o tempo parecer passar mais rápido

Um dos fatores mais importantes para explicar essa sensação é a quantidade de novidades que vivemos ao longo do tempo. Quando os dias se tornam muito parecidos entre si, o cérebro registra menos diferenças entre as experiências. Ao olhar para trás, aquele período acaba parecendo menor do que realmente foi.

“Se a gente vive sem ter muita variedade de estímulos, retrospectivamente acha tudo muito parecido e sente que o tempo voou, porque a gente não vê diferença entre o que aconteceu num momento, num segundo momento, num terceiro momento e assim por diante”, explica Machado Dias.

Segundo ele, o efeito também acontece no sentido oposto. Quanto maior a variedade de experiências vividas, mais referências o cérebro acumula para distinguir um período do outro.

A variedade de experiências aumenta a percepção da passagem do tempo e, portanto, faz a gente perceber que passou mais tempo. Correlativamente, quando a gente faz coisas muito automáticas, muito parecidas, parece que o tempo voou.

Álvaro Machado Dias

Viver no “piloto automático” também influencia

A sensação de que o tempo está acelerando também pode estar relacionada ao estado mental durante o dia. Para o neurocientista, pessoas que vivem constantemente preocupadas com metas, prazos e compromissos futuros acabam dedicando menos atenção ao que está acontecendo no presente.

“Você está sempre na ansiedade, na preocupação de fazer uma entrega, de atingir um resultado no seu trabalho. Aí você passa pelas situações com baixa consciência sobre o que está acontecendo momento a momento e assim sente que o tempo voou”, diz.

Na avaliação de Machado Dias, esse comportamento faz com que, ao lembrar de um determinado período, a pessoa tenha a impressão de que quase não o viveu. Em vez de construir memórias marcadas por acontecimentos específicos, ela passa por uma sequência de dias semelhantes e pouco memoráveis.

A idade também muda essa percepção

Além da rotina e da ansiedade, a própria passagem dos anos contribui para a sensação de que o tempo acelera. Machado Dias explica que um mesmo intervalo representa proporções muito diferentes da vida dependendo da idade da pessoa.

“Imagina que passou um ano na sua vida e você tem cinco anos de idade. Esse um ano vai representar 20% da sua vida. Dos nove aos dez anos, esse mesmo ano vai representar 10% da sua vida e assim vai”, exemplifica.

Segundo ele, conforme envelhecemos, cada mês ou ano corresponde a uma parcela cada vez menor da nossa história de vida. Essa mudança de perspectiva ajuda a explicar por que períodos que antes pareciam longos passam a ser percebidos como cada vez mais curtos. Na segunda parte dessa explicação, o neurocientista aponta que também existe uma hipótese baseada no funcionamento do cérebro para explicar esse fenômeno.

Três mulheres de diferentes gerações — uma criança, uma adulta e uma idosa — aparecem sorrindo lado a lado, representando diferentes fases da vida.
A percepção da passagem do tempo também muda com a idade, já que um mesmo intervalo representa proporções diferentes ao longo da vida – Imagem: fizkes / Shutterstock

O cérebro também pode influenciar a percepção do tempo

Embora boa parte dessa sensação possa ser explicada pelo comportamento e pela forma como vivemos o dia a dia, Machado Dias afirma que também existe uma hipótese neurológica para explicar por que o tempo parece acelerar com a idade.

Segundo ele, essa teoria está relacionada ao desenvolvimento da arquitetura do cérebro. Durante a infância, as redes neurais ainda são menos complexas, fazendo com que as informações percorram caminhos menores até serem processadas.

“Quando a criança está se desenvolvendo, a arquitetura das redes neurais dela envolve menos elos conectados. Pensa num cérebro em que a informação tem que percorrer menos circuitos para formar uma gestalt”, explica.

À medida que o cérebro amadurece, essas conexões se tornam mais numerosas e complexas. Como consequência, o processamento das informações também muda.

“Conforme o cérebro vai se ampliando, a gente vai tendo uma circuitaria mais complexa e, portanto, mais tráfego neural. Nessa versão infantil, quando eu tenho uma experiência informacional, ela é imediatamente registrada. Nesse segundo cérebro, esse registro demora um pouquinho mais. Portanto, toma mais tempo e o tempo parece passar mais rápido”, afirma.

O neurocientista ressalta que essa é uma hipótese proposta por pesquisadores da Universidade Harvard e que ganhou espaço nas discussões sobre percepção do tempo nos últimos anos.

“Existe, sim, uma tese neurológica tentando explicar por que o cérebro registra o tempo passando mais rápido conforme a gente vai ficando mais velho”, diz.

Vale a pena tentar desacelerar essa sensação?

Para Machado Dias, a impressão de que os meses ou anos passaram “sem acontecer” não deve ser encarada apenas como uma curiosidade sobre o funcionamento do cérebro. Segundo ele, essa percepção pode indicar que a pessoa viveu aquele período de forma automática, sempre voltada para o que viria depois.

“A despeito de existir esse tipo de mecanismo de curiosidade neurológica, na prática tende a ser sinal de não estar no aqui e agora, tende a ser sinal de uma certa ansiedade, de você estar sempre focado na meta, no que vem depois e não no que vem agora”, afirma.

Na avaliação do especialista, quando alguém termina um ano com a sensação de que quase não o viveu, vale a pena refletir sobre os próprios hábitos e a forma como tem lidado com a rotina.

Quando a gente sente que, nossa, passou o ano e não vivi nada nesse ano, é fundamental a gente fazer uma reflexão, por que a gente viveu o ano no automatismo? Por que deixou passar o ano sem conseguir apreender as suas especificidades? Será que foi porque estava sempre focado no que ia acontecer no fim do mês, no fim do trimestre ou do semestre? Será que foi porque não estava satisfeito com aquilo que estava vivendo naquele momento?

Álvaro Machado Dias

Meditação pode ajudar a viver mais o presente

Como exemplo de prática que pode reduzir essa sensação, Machado Dias cita a meditação. Segundo ele, há evidências de que ela contribui para diminuir a ansiedade e aumentar a atenção ao momento presente, o que também altera a forma como percebemos a passagem do tempo.

Homem sentado sobre um tapete de yoga pratica meditação com os olhos fechados em um ambiente residencial iluminado.
A meditação pode ajudar a reduzir a ansiedade e aumentar a atenção ao momento presente, influenciando a forma como percebemos a passagem do tempo – Imagem: nside Creative House / Shutterstock

“A meditação é uma prática comportamental que tem um componente fisiológico profundo e faz as pessoas sentirem que estão mais no aqui e agora. Elas percebem mais as diferenças entre o que está acontecendo ao longo do dia e, assim, percebem o tempo de maneira mais presente, um tempo que voa menos”, explica.

O neurocientista ressalta, porém, que não está propondo a prática como solução universal. Para ele, o principal aprendizado é que a sensação constante de que o tempo está escapando pode servir como um alerta para rever a forma como a rotina está sendo vivida.

Não estou dizendo para todo mundo fazer meditação, mas isso é bom sinal, se existe uma prática que a gente sabe que combate a ansiedade e que traz essa sensação, eis aí o sinal de que essa sensação em si não é tão positiva assim.

Álvaro Machado Dias

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