Primeira explosão de bomba nuclear do mundo criou um cristal “impossível”

Primeira explosão de bomba nuclear do mundo criou um cristal “impossível”

Um artigo publicado no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences relata uma descoberta surpreendente ligada ao primeiro teste de bomba nuclear da história. Segundo o estudo, a explosão criou condições tão extremas que permitiram a formação de um tipo de cristal que não deveria existir em condições naturais comuns na Terra.

O chamado teste Trinity ocorreu em 16 de julho de 1945, no deserto do Novo México, nos Estados Unidos, realizado pelo Exército do país, que detonou o dispositivo conhecido como “Gadget”, baseado em plutônio. A explosão liberou energia equivalente a cerca de 21 quilotons de TNT e marcou o início da era nuclear.

De acordo com o artigo, a força da detonação foi tão intensa que vaporizou a torre metálica de 30 metros usada no experimento e destruiu toda a infraestrutura ao redor. Materiais como cobre, cabos e instrumentos científicos foram derretidos instantaneamente. A onda de calor também fundiu areia e asfalto do deserto, que foram sugados para a nuvem em forma de cogumelo e resfriados rapidamente, formando um vidro natural chamado trinitita.

trinity bomba nuclear
Foto tirada por um trabalhador civil do laboratório de Los Alamos National Laboratory em 16 de julho de 1945, durante o Projeto Manhattan – Crédito: Jack W. Aeby/Domínio público

Décadas depois, esse material continua sendo estudado por cientistas. Em análises recentes, pesquisadores identificaram estruturas cristalinas inesperadas dentro da trinitita. Entre elas, foi encontrado um tipo raro chamado clatrato, nunca antes observado em produtos de explosões nucleares, o que chamou atenção da comunidade científica.

Processo criou registro mineralógico do momento da explosão

Cristais são materiais nos quais os átomos se organizam em padrões regulares. Os clatratos inorgânicos são ainda mais especiais, pois formam estruturas em forma de “gaiolas”, capazes de aprisionar outros átomos em seu interior. Essas formações exigem condições muito específicas e são extremamente raras na natureza.

Durante o teste Trinity, essas condições extremas ocorreram por um breve instante. As temperaturas ultrapassaram 1.500 graus Celsius e as pressões chegaram a níveis entre 5 e 8 gigapascais. Em seguida, houve um resfriamento muito rápido, o que permitiu que os átomos se reorganizassem de maneira incomum e ficassem “congelados” em novas estruturas.

trinitita
Um fragmento de trinitita, uma substância vítrea que se formou a partir da areia do deserto devido à explosão da primeira bomba atômica, em 16 de julho de 1945, no Campo de Testes Trinity, no Novo México, EUA – Crédito: Scherff/Creative Commons

Esse processo criou uma espécie de registro mineralógico do momento da explosão. A trinitita funciona como uma cápsula do tempo, preservando as condições extremas daquele instante. É nesse material que os cientistas continuam encontrando formações inesperadas, ampliando o entendimento sobre materiais gerados sob alta energia.

A descoberta do clatrato foi feita com o uso de difração de raios X. Os pesquisadores analisaram uma amostra de trinitita vermelha e identificaram uma estrutura rica em cobre com organização atômica inédita. Ela apresenta uma rede cúbica em que átomos de silício formam “gaiolas” que aprisionam cálcio, com presença adicional de ferro e cobre.

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Descoberta ajuda a compreender melhor os efeitos de bombas nucleares 

Esse achado é ainda mais relevante porque ocorreu próximo a outra estrutura rara já identificada no mesmo material: os quasicristais. Apesar de surgirem em condições semelhantes, análises indicaram que clatratos e quasicristais se formaram de maneira independente, descartando uma ligação direta entre eles.

Os cientistas destacam que esses resultados ajudam a compreender melhor os efeitos de explosões nucleares e podem até contribuir para técnicas forenses em locais de testes atômicos. Além disso, mostram como eventos extremos podem funcionar como laboratórios naturais, capazes de produzir materiais inéditos e desafiar modelos tradicionais da ciência dos materiais.

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