A inteligência artificial deixou de ser uma aposta para o futuro e passou a fazer parte da rotina de profissionais de áreas como direito, contabilidade, auditoria, compliance e gestão de riscos. O problema é que muitas empresas ainda não conseguiram acompanhar essa transformação.
É o que aponta o relatório Future of Professionals 2026, da empresa de conteúdo e tecnologia Thomson Reuters. O estudo foi elaborado com base em entrevistas realizadas com 1.816 profissionais de 62 países, e mostra que a adoção da IA avança em um ritmo superior à capacidade das organizações de incorporá-la de forma organizada.
O resultado é uma combinação de riscos que envolve perda de clientes, evasão de talentos e aumento do uso de ferramentas não autorizadas.
Os dados revelam que 74% dos profissionais já utilizam ferramentas de inteligência artificial semanalmente. Apesar disso, 91% acreditam que suas organizações ainda estão aquém do potencial que a tecnologia poderia entregar.
A distância entre expectativa e execução já tem efeitos concretos. Segundo o relatório, quase um quarto dos profissionais considera deixar o emprego nos próximos dois anos caso não enxergue avanços significativos na adoção da IA dentro das empresas.
Estamos vendo surgir uma divisão clara. Escritórios que estão operacionalizando a IA estão avançando mais rápido. Os que não estão, começam a assumir riscos reais em talento, clientes e desempenho financeiro.
Steve Hasker, presidente e CEO da Thomson Reuters

Clientes estão exigindo IA – e empresas podem perder receita
A pressão não vem apenas dos funcionários.
O relatório mostra que 78% dos clientes corporativos consideram as melhorias de qualidade proporcionadas pela inteligência artificial essenciais ou muito importantes. Mas apenas 6% acreditam que os fornecedores de serviços profissionais já entregam o nível esperado de evolução.
Diante dessa percepção, 32% dos clientes afirmam que pretendem reavaliar seus fornecedores nos próximos 12 meses. Nos Estados Unidos, a Thomson Reuters estima que esse movimento pode colocar aproximadamente US$ 143 bilhões em receitas dos mercados jurídico e contábil sob revisão.
A disputa por talentos
A pesquisa indica que o acesso a ferramentas profissionais de IA já começa a influenciar decisões de carreira:
- Globalmente, 24% dos profissionais que enxergam diferença entre o potencial da tecnologia e o que suas empresas efetivamente entregam afirmam que considerariam deixar seus empregos nos próximos dois anos;
- Em 13% dos casos, essa decisão poderia ocorrer já nos próximos 12 meses;
- Ao mesmo tempo, 62% dos entrevistados disseram que o acesso a ferramentas avançadas de IA teria peso na decisão de aceitar uma nova proposta de trabalho.
Os dados sugerem que a inteligência artificial começa a ocupar um papel semelhante ao que outras tecnologias corporativas desempenharam no passado: deixa de ser um diferencial e passa a ser uma expectativa básica por parte dos profissionais.
Ao Olhar Digital, Adrián Fognini, head de Mercados Internacionais da Thomson Reuters, explicou que os maiores impactados são funcionários em meio de carreira:
O maior risco de saída não está nos profissionais mais jovens; está no meio de carreira. São profissionais operacionalmente críticos, que tocam o dia a dia e gerenciam relações com clientes. Essa parcela do mercado já incorporou IA ao próprio padrão profissional.
Adrián Fognini, head de Mercados Internacionais da Thomson Reuters

Quanto mais empresas demoram, mais cresce o Shadow AI
Isso também ajuda a explicar por que muitas empresas enfrentam dificuldades para conter o Shadow AI, quando funcionários recorrem a ferramentas de IA externas para dar conta de demandas de produtividade.
Um dos alertas do relatório envolve justamente o avanço dessa prática. O termo descreve o uso de ferramentas de inteligência artificial sem aprovação, monitoramento ou conhecimento das empresas. O Olhar Digital deu detalhes sobre os riscos dessa prática nesta outra reportagem.
- Segundo o levantamento, um terço dos profissionais de direito, contabilidade e compliance em todo o mundo já utiliza ferramentas de IA não autorizadas por suas organizações;
- Na América Latina, o índice é ainda maior: 46% dos profissionais afirmam recorrer a soluções não homologadas pelas empresas;
- Entre aqueles que consideram que suas organizações avançam lentamente na adoção da tecnologia, o percentual chega a 55%.
Para o executivo, o problema não é técnico: “é falha de gestão de mudança”. Ele citou as causas mais comuns:
As quatro causas mais comuns no nosso estudo são claras: as ferramentas certas não estão no ponto (47%), as pessoas não foram preparadas para trabalhar do jeito esperado (43%), a estratégia não foi traduzida em prioridades operacionais (32%) e não há entendimento compartilhado da estratégia (30%).
Adrián Fognini, head de Mercados Internacionais da Thomson Reuters
Mesmo com o uso não autorizado, os próprios profissionais demonstram clareza sobre os requisitos necessários para utilizar IA em ambientes corporativos. Na região, 98% afirmam que as ferramentas precisam garantir proteção de dados confidenciais. Outros 98% exigem conteúdo verificado e confiável, enquanto 95% consideram fundamental que os resultados possam ser justificados e auditados.
Apesar disso, muitos recorrem a soluções externas por falta de alternativas corporativas.
Para Kelly Stefani, CRO da Agility, o fenômeno está menos relacionado à má-fé dos funcionários e mais à ausência de direcionamento por parte das empresas:
As pessoas estão sendo cobradas para entregar mais, em menos tempo e com mais qualidade. Quando descobrem uma ferramenta que ajuda a resumir documentos, criar apresentações, organizar dados ou escrever melhor, naturalmente elas querem usar.
Kelly Stefani, CRO da Agility
Segundo a executiva, o principal risco surge quando a organização perde visibilidade sobre como essas ferramentas estão sendo utilizadas. “O maior risco do Shadow AI é a empresa perder visibilidade sobre onde seus dados estão circulando. E quando não há visibilidade, não há governança”, declarou.
Ela explica que os impactos vão além da segurança da informação e envolvem questões regulatórias, estratégicas e operacionais, como propostas comerciais e planos de negócio. “É capital intelectual sendo colocado fora do ambiente controlado da organização”, explicou.
Para Stefani, o uso descoordenado da tecnologia dificulta auditorias, aumenta riscos de vazamento e impede que as empresas consigam transformar a IA em uma vantagem competitiva consistente. Isso cria não só um problema de tecnologia, mas de governança e até de cultura da companhia.

O desafio não é adotar IA, mas transformá-la em estratégia
Os resultados do estudo indicam que a principal barreira para as organizações não é a adoção da inteligência artificial. Isso porque a tecnologia já está sendo utilizada diariamente pelos profissionais, independentemente de haver ou não uma estratégia formal definida pelas empresas.
O desafio agora é transformar esse uso em processos estruturados e seguros.
Para Steve Hasker, a diferença entre experimentar IA e incorporá-la efetivamente às operações será determinante para o futuro das organizações.
“Nem toda IA é igual. Em profissões com responsabilidade legal, o padrão precisa ser muito mais alto. Quando os resultados impactam decisões jurídicas, regulatórias ou aconselhamento a clientes, ‘quase certo’ não é suficiente.”
Os dados do relatório sugerem que, à medida que a tecnologia se consolida no ambiente corporativo, o risco para as empresas não está mais em decidir se devem usar inteligência artificial, mas em quanto tempo conseguirão fazê-lo de forma estruturada antes que clientes, funcionários e processos sigam por conta própria.
O post Sua empresa está atrasada em IA? Um em cada quatro funcionários pode pedir demissão por causa disso apareceu primeiro em Olhar Digital.