Previsões climáticas indicam que um possível “super El Niño” deve se formar nos próximos meses e ganhar força até o fim do ano. O fenômeno preocupa cientistas pelo risco de provocar secas, enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos em diferentes regiões do planeta.
O El Niño é um fenômeno climático natural provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aumento de temperatura altera a circulação atmosférica e influencia o regime de chuvas e temperaturas em várias partes do mundo. O evento costuma ocorrer em intervalos de dois a sete anos.
Nos últimos meses, pesquisadores observaram um aquecimento significativo em áreas do Pacífico tropical, principalmente perto da costa oeste da América do Sul. Em algumas regiões, as temperaturas da superfície do mar chegaram a ficar até 1 ºC acima da média histórica, um dos principais sinais do desenvolvimento do fenômeno.

Intensidade do fenômeno ainda é incerta
Apesar disso, cientistas alertam que ainda existe grande incerteza sobre a intensidade que esse possível El Niño poderá atingir. O comportamento da atmosfera e dos ventos nos próximos meses será decisivo para determinar se o fenômeno ganhará força suficiente para ser classificado como um “super El Niño”.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) informou em relatório divulgado no dia 14 de maio que o El Niño tem 82% de chance de se desenvolver entre maio e julho. A probabilidade sobe para 96% até dezembro, mas a agência destaca que ainda não há certeza sobre a magnitude do evento.
Segundo os dados da NOAA, há apenas 37% de chance de o fenômeno alcançar a categoria considerada “muito forte”. Nesses casos, as temperaturas do Pacífico tropical central e oriental ficam mais de 2 ºC acima da média. Alguns pesquisadores usam justamente esse limite para definir um “super El Niño”.
Super El Niño mais recente tem 10 anos
O último episódio desse tipo aconteceu entre 2015 e 2016. Na época, o fenômeno provocou secas severas, chuvas extremas e aumento nas temperaturas globais. Desde então, cientistas acompanham com atenção qualquer sinal de um novo evento semelhante.

Outro estudo, produzido pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, apresentou uma projeção ainda mais intensa. O relatório indica que partes do Pacífico podem atingir temperaturas até 3 ºC acima da média até novembro. Mesmo assim, especialistas ressaltam que previsões feitas nesta época do ano costumam apresentar grande margem de incerteza.
Uma das principais razões para essa dificuldade está na influência dos ventos alísios, que sopram de leste para oeste sobre o Oceano Pacífico Equatorial. Esses ventos ajudam a controlar o aquecimento das águas. Se ficarem mais fortes, podem reduzir as temperaturas do oceano e enfraquecer o El Niño.
Por outro lado, caso os ventos enfraqueçam, o calor acumulado no oceano pode aumentar ainda mais. Em um comunicado, a cientista climática Emily Becker, da Universidade de Miami, nos EUA, explica que poucos dias de mudanças intensas nesses ventos já seriam suficientes para alterar o desenvolvimento do fenômeno.
A pesquisadora Andréa Taschetto, da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, afirma que ainda não é possível determinar exatamente qual tipo de El Niño poderá surgir este ano. Segundo ela, a região do Pacífico onde o aquecimento se concentra também influencia a força do fenômeno e seus impactos climáticos.
Os meteorologistas aguardam o fim da chamada “barreira de previsibilidade da primavera”, período do Hemisfério Norte em que os modelos climáticos costumam apresentar mais dificuldade para prever as condições do Pacífico. A expectativa é que as previsões fiquem mais precisas nas próximas semanas.
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O que pode acontecer
O impacto de um El Niño forte pode ser amplo. O evento de 2023-2024, por exemplo, esteve associado a secas severas e fome em partes do sul da África, além de enchentes históricas registradas no Sul do Brasil. O fenômeno também contribuiu para elevar as temperaturas globais e ajudar 2024 a se tornar o ano mais quente já registrado.
Além do comportamento do oceano, os cientistas analisam como o El Niño interage com o aquecimento global. Hoje, muitos modelos utilizam o chamado Índice Oceânico Niño Relativo (RONI) que compara o aquecimento do Pacífico com o restante dos oceanos tropicais.
Segundo pesquisadores, esse método ajuda a melhorar as previsões porque leva em conta que o planeta inteiro já está aquecendo. Assim, os cientistas conseguem avaliar com mais precisão se o aumento de temperatura no Pacífico realmente representa um El Niño excepcional.
Para o cientista climático Jong-Seong Kug, da Universidade Nacional de Seul, Coreia do Sul, um El Niño extremamente forte pode gerar efeitos duradouros nos sistemas climáticos e nos ecossistemas.
Regiões semiáridas podem enfrentar secas intensas e aumento de incêndios florestais, enquanto outras áreas podem sofrer com chuvas torrenciais e enchentes. Mesmo diante dos sinais atuais, os especialistas reforçam que ainda é cedo para confirmar a chegada de um novo “super El Niño”.
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