Telescópio em construção enxerga o fim de uma estrela de perto

Telescópio em construção enxerga o fim de uma estrela de perto

Um telescópio que ainda está sendo construído no Chile encontrou estruturas nunca observadas nos arredores da Nebulosa da Hélice, conhecida pelo apelido de “Olho de Deus”. O registro surgiu durante testes do MOTHRA, equipamento criado para fotografar objetos extensos e muito tênues do céu.

Os pesquisadores identificaram faixas de material estelar se dissolvendo no espaço. A descoberta foi descrita em um estudo publicado na revista Nature e revela uma etapa pouco observada do fim da vida de uma estrela.

Nebulosa de Hélice
O telescópio encontrou faixas de material estelar se dissolvendo no espaço, registrando uma etapa pouco observada da morte de uma estrela. – Imagem: NASA, ESA, C. R. O’Dell (Universidade Vanderbilt) e M. Meixner, P. McCullough e G. Bacon (Space Telescope Science Institute)-Hubble e Kitt Peak: Andrew McCarthy

A descoberta aconteceu por acaso

Instalado nas montanhas do norte do Chile, o MOTHRA (Modular Optical Telephoto Hyperspectral Robotic Array) foi projetado para observar estruturas grandes e pouco luminosas. Entre seus alvos estão gases difusos e matéria escura que se espalham entre as galáxias.

O projeto prevê 1.140 lentes de câmeras funcionando em conjunto. Nos testes que levaram à descoberta, apenas 172 estavam instaladas.

Ao apontar o equipamento para a Nebulosa da Hélice, os cientistas perceberam faixas muito fracas de detritos ao redor dela.

Vimos aquela imagem e pensamos: ‘Isso é novo. É algo que nunca vimos antes’.

Pieter van Dokkum, físico da Universidade Yale e um dos autores do estudo, em nota.

Uma busca posterior confirmou a suspeita: outros pesquisadores também não haviam registrado aquelas estruturas.

O material perdido por uma estrela

A Nebulosa da Hélice representa uma fase do fim da vida de uma estrela. Quando o hidrogênio disponível em seu núcleo começa a acabar, suas camadas externas são expelidas.

O material lançado ao espaço se espalha ao redor da estrela. Com o tempo, ele se mistura ao meio interestelar, formado por gás, poeira e energia existentes entre as estrelas.

A nebulosa foi observada pela primeira vez em 1893 e, por ser grande e relativamente próxima da Terra, já foi fotografada diversas vezes. O problema estava nas partes mais fracas de sua estrutura, que escapavam aos equipamentos disponíveis anteriormente.

O novo registro mostra justamente essas regiões:

  • Faixas tênues de detritos ao redor da nebulosa;
  • Material estelar se misturando ao espaço interestelar;
  • Estruturas que não haviam sido identificadas em observações anteriores;
  • Um processo pouco registrado do ciclo de vida das estrelas.
Telescópio Mothra, no Chile.
O MOTHRA combina milhares de lentes para observar objetos grandes e muito tênues no céu. O primeiro resultado já surpreendeu os cientistas. – Imagem: Reprodução/Mothra

Uma capacidade que chama atenção

Joel Kastner, cientista de imagens e astrônomo do Rochester Institute of Technology, destacou o que torna esse tipo de observação relevante:

“Não vemos com frequência como o material que uma estrela perdeu está sendo misturado aos gases entre as estrelas.”

A expectativa dos pesquisadores é que o MOTHRA consiga fazer registros ainda mais profundos quando estiver completo. O telescópio terá quase seis vezes mais lentes do que as utilizadas durante o teste que produziu a nova imagem.

O objetivo vai muito além de imagens bonitas

Roberto Abraham, astrônomo da Universidade de Toronto e autor do estudo, resumiu a capacidade do equipamento de maneira direta:

“Isso é tão estupidamente poderoso que, mesmo enquanto você o constrói, basta apontá-lo para qualquer coisa e coisas interessantes vão surgir.”

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Produzir imagens impressionantes, porém, não é a finalidade do projeto. Os pesquisadores querem usar o MOTHRA para entender melhor como as galáxias se formam e evoluem.

A previsão é que o telescópio seja concluído no início de 2027. O primeiro resultado obtido durante sua própria construção já sugere o que poderá aparecer quando todas as lentes estiverem operando.

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