Os donos silenciosos do bitcoin: quem controla 16 milhões de BTC e por que não os mexem

Os donos silenciosos do bitcoin: quem controla 16 milhões de BTC e por que não os mexem

Existe uma camada do mercado de Bitcoin que não aparece nos gráficos de preço, não rende entrevistas e não publica análises nas redes sociais. São os hodlers de longo prazo: pessoas e entidades que compraram Bitcoin, colocaram numa carteira e simplesmente não tocaram mais. Em maio de 2026, esse grupo controla 16,3 milhões de BTC, o equivalente a cerca de 78% de todo o Bitcoin em circulação, segundo dados do CoinDesk com base em análise on-chain. É uma das leituras mais altas já registadas na história do ativo.

valor do bitcoin no momento desta publicação está a ser negociado na faixa dos US$ 64 mil. Quem comprou a esse preço nos ciclos anteriores e nunca vendeu está sentado num ganho significativo. E, pelos dados da blockchain, a grande maioria não tem intenção de vender tão cedo.

155 dias sem mexer. É aí que começa a contagem

Na blockchain do Bitcoin, todas as transações são públicas e verificáveis. Isso permite que analistas acompanhem quanto tempo cada moeda ficou parada, quando foi movida pela última vez e para onde foi. Um Bitcoin que não se move há 155 dias ou mais passa a ser classificado como pertencente a um “holder de longo prazo”.

O que esse dado revela em 2026 é significativo. Apenas 218.421 BTC com idade de dois anos ou mais foram movidos ou vendidos ao longo de todo o ano de 2026 até 6 de junho. Para comparação, no mesmo período de 2024, quando o Bitcoin estava a atingir novos recordes, aproximadamente 1,18 milhões de BTC dormentes há pelo menos dois anos foram reativados. A diferença é de quase seis vezes. Quem segurou na alta anterior está a segurar ainda mais agora.

Um dado ainda mais expressivo: 33,14% de todo o supply do Bitcoin não foi tocado há cinco anos ou mais, um recorde histórico. Isso representa cerca de 6,5 milhões de BTC que não saíram das carteiras desde pelo menos maio de 2021.

De Satoshi à BlackRock, passando pelo governo americano

A distribuição dos maiores hodlers é mais variada do que se poderia imaginar. O maior detentor individual continua a ser Satoshi Nakamoto, o criador anónimo do Bitcoin, com aproximadamente 1,096 milhão de BTC que não se move desde meados de 2010. Não há nenhuma indicação de que essas moedas algum dia se mexerão.

Logo a seguir estão os ETFs americanos. Os ETFs spot de Bitcoin nos Estados Unidos detêm coletivamente mais de 1,2 milhão de BTC, superando o próprio Satoshi. O IBIT da BlackRock sozinho controla 814.000 BTC. São moedas compradas com o dinheiro de milhões de investidores de retalho e institucionais que decidiram ter exposição ao Bitcoin sem gerir diretamente uma carteira.

O governo americano também aparece na lista, com 328.000 BTC provenientes de apreensões criminais, incluindo o caso Silk Road e a recuperação do hack da Bitfinex.

Não é fé cega. Há razões concretas para não vender

A resposta mais simples é que quem comprou há anos e não vendeu nas altas anteriores tomou essa decisão por uma razão: acredita que o Bitcoin vai continuar a valorizar no longo prazo. Vender agora seria contradizer a tese que os fez não vender quando poderiam ter tido lucros maiores.

Mas há também uma componente técnica. Mover Bitcoin de uma carteira deixa um rasto permanente na blockchain. Para grandes detentores, essa visibilidade cria complexidade fiscal e de segurança. Muitos preferem simplesmente não mexer, usando as suas posições como garantia para outros produtos financeiros em vez de liquidar.

O segmento de carteiras com entre 100 e 1.000 BTC atingiu um recorde histórico de 20.204 endereços em maio de 2026, associado a tesourarias corporativas, contas de custódia de ETFs e fundos institucionais. Este grupo está a crescer enquanto o preço está relativamente deprimido, o que é o oposto do que acontecia nos picos de ciclos anteriores, quando as grandes carteiras distribuíam.

Menos bitcoin disponível para vender

A relação entre moedas paradas e preço não é linear, mas é historicamente relevante. Quando uma grande percentagem do supply está nas mãos de quem não vende, a quantidade de Bitcoin disponível para negociação no mercado reduz-se. Com menos oferta disponível e procura constante, a pressão sobre o preço tende a ser ascendente.

O supply de detentores de longo prazo aumentou mais de 2 milhões de BTC durante o atual ciclo de mercado, incluindo um crescimento de 200.000 BTC apenas no mês de maio de 2026. Este padrão é clássico: os hodlers de longo prazo compram durante as fases de fraqueza de preço e apenas distribuem quando o mercado está em euforia.

O que os dados não dizem é quando exatamente essa dinâmica se vai refletir no preço. Mas dizem claramente que quem comprou Bitcoin e guardou durante anos não está, coletivamente, com pressa de vender.

O Bitcoin está cada vez mais concentrado em mãos de holders de longo prazo e instituições o que reduz a oferta disponível no mercado mas não garante por si só quando ou se isso se traduzirá em valorização.